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WhatsApp acumula alta de 152% em queixas por bloqueios e enfrenta investigação do Cade
O WhatsApp atravessa uma sequência de mudanças que afeta usuários e empresas no Brasil, em um cenário de aumento expressivo das reclamações relacionadas a contas bloqueadas, novas cobranças previstas para operações que utilizam a API oficial e uma investigação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) sobre restrições impostas a assistentes de inteligência artificial. Enquanto usuários relatam suspensões sem compreender exatamente qual regra teriam violado, companhias que utilizam o aplicativo para atendimento, vendas e comunicação com clientes avaliam um possível aumento de custos e alternativas para reduzir a dependência da plataforma.
Entre janeiro e agosto de 2026, as reclamações relacionadas a bloqueios, banimentos ou suspensões no WhatsApp cresceram 152% em relação ao mesmo período de 2025, segundo um levantamento do Reclame Aqui divulgado pelo O Globo. Foram 9.978 registros nos oito primeiros meses deste ano, contra 3.953 no mesmo período do ano passado.
Considerando também os primeiros 11 dias de setembro, o total chegou a 11.264 queixas, número 51% superior às 7.457 reclamações contabilizadas durante todo o ano de 2025.
A Meta não informou o motivo do aumento, embora especialistas apontem que sistemas automatizados usados para identificar comportamentos suspeitos podem estar relacionados ao crescimento das restrições. Como as mensagens possuem criptografia de ponta a ponta, esses sistemas consideram padrões de comportamento, como a quantidade de mensagens enviadas, o intervalo entre os disparos e o número de contatos alcançados.
Dessa forma, atividades interpretadas como spam podem resultar em análise ou bloqueio da conta, inclusive em situações nas quais o usuário afirma não ter realizado disparos indevidos.
Ao mesmo tempo, empresas que utilizam o WhatsApp como canal de atendimento acompanham uma possível mudança na cobrança da API oficial. A Meta informou que a partir de 1º de outubro de 2026, mensagens de serviço enviadas pelas empresas dentro da janela de atendimento de 24 horas, atualmente sem cobrança, passariam a ser tarifadas. O valor citado como referência para o Brasil é de cerca de R$ 0,035 por mensagem, embora os detalhes dessa alteração ainda não estavam integralmente confirmados na documentação pública da Meta. A mudança atingiria operações conectadas à Cloud API, e não usuários do aplicativo WhatsApp Business instalado diretamente no celular.
O impacto tende a ser maior em operações que concentram grande volume de interações no aplicativo, como centrais de atendimento, processos de qualificação de leads, agendamentos e cobranças. Com uma tarifa vinculada ao volume de mensagens enviadas, empresas que realizam diversas trocas durante uma única conversa podem enfrentar aumento dos custos e precisar rever automações ou direcionar parte dos contatos para outros canais.
Cade abre inquérito sobre restrições a assistentes de inteligência artificial
As mudanças também passaram a ser analisadas pelo Cade. Segundo a BossaNews, a autoridade abriu um inquérito após alterações que restringem o uso do WhatsApp Business por empresas cujo principal produto são assistentes de inteligência artificial. Mais de 40 companhias dos setores bancário, aéreo, de delivery, de saúde e de tecnologia foram consultadas, enquanto Meta e WhatsApp estão sujeitos a multa diária de R$ 250 mil.
Empresas relataram diferentes níveis de dependência do canal, com possíveis impactos sobre atendimento, segurança, marketing e distribuição de serviços digitais.
Bradesco, Latam, iFood, Zenvia e outras companhias relataram efeitos variados das mudanças, enquanto organizações como Uber, Claro e Anthropic apontaram alternativas como SMS, e-mail, voz e aplicativos próprios. A Meta, por sua vez, argumenta que o funcionamento de chatbots pode gerar pressão sobre a infraestrutura e que empresas de inteligência artificial possuem outros meios para oferecer seus serviços.
Para usuários que tiveram contas bloqueadas, a orientação da Meta é solicitar uma revisão diretamente pelo aplicativo. A empresa, porém, não estabelece prazo para concluir a análise. Para as empresas, o cenário coloca no centro da discussão não apenas o custo de utilizar o WhatsApp, mas também o grau de dependência de uma plataforma que se tornou parte relevante da comunicação entre marcas e consumidores.
FUP Explica
O que está em jogo aqui é a dependência estrutural que empresas brasileiras construíram em torno de uma única plataforma privada. O WhatsApp deixou de ser um canal complementar e virou, para muitas operações, o principal ponto de contato com o cliente. Quando a Meta muda as regras, seja nos critérios de bloqueio, seja na precificação da API, o impacto cai direto sobre o custo operacional e a continuidade do atendimento, sem que as empresas tenham muito poder de negociação.
No plano econômico, a possível tarifação das mensagens de serviço a partir de outubro de 2026 é o ponto mais concreto de pressão. Operações com alto volume de interações, como cobranças, agendamentos e qualificação de leads, podem ver os custos crescerem de forma relevante dependendo da escala. Isso tende a forçar uma revisão de automações e, em alguns casos, a migração parcial para canais alternativos como SMS, e-mail ou aplicativos próprios, o que também tem custo e prazo de adaptação.
No plano institucional, o inquérito do Cade é o desdobramento mais relevante a médio prazo. A autoridade antitruste investigar restrições impostas a empresas de inteligência artificial abre espaço para questionamentos mais amplos sobre o poder de mercado da Meta no Brasil. Com mais de 40 empresas consultadas e multa diária de R$ 250 mil em jogo, o processo pode resultar em obrigações de conduta ou até em mudanças nas regras de acesso à plataforma, dependendo do que o Cade concluir. Para as empresas afetadas, o cenário de incerteza já é, por si só, um problema: planejar investimento em automação e atendimento digital fica mais difícil quando as condições de uso da principal plataforma podem mudar a qualquer momento.
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