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Pressão sobre o consumo de água e energia leva diferentes governos a reforçar controle sobre data centers
A expansão acelerada dos data centers, impulsionada principalmente pelo avanço da inteligência artificial e dos serviços digitais, está levando governos a reforçar o controle sobre o consumo de água e energia dessas instalações. Nesta segunda-feira (21), a Comissão Europeia propôs novas regras para obrigar data centers a divulgar indicadores de eficiência no uso desses recursos. A iniciativa ocorre enquanto autoridades de diferentes países enfrentam o desafio de conciliar o crescimento da infraestrutura digital com a pressão sobre redes elétricas e reservas de água.
Pela proposta europeia, data centers com capacidade de 500 quilowatts ou mais terão sua eficiência energética e hídrica informada por meio de um sistema de classificação desenvolvido pela União Europeia. Segundo a Reuters, a medida não estabelece limites de consumo nem exige a divulgação da quantidade total de eletricidade utilizada, mas pretende dar mais transparência aos indicadores de eficiência.
As empresas também deverão informar a relação entre o uso de água e o nível de estresse hídrico de cada localidade, além de indicar se conseguem oferecer serviços ao sistema energético e reaproveitar o calor gerado pelas operações.
A preocupação acompanha os planos do bloco para expandir significativamente sua infraestrutura digital. Atualmente, os data centers respondem por cerca de 2,5% do consumo de eletricidade da União Europeia. A capacidade instalada, que era de 12 gigawatts no ano passado, deve mais que dobrar até 2030 e chegar a 28 gigawatts.
O crescimento busca atender à demanda relacionada à inteligência artificial e reduzir a dependência de grandes empresas norte-americanas de tecnologia.
Esse debate não está restrito à Europa. Nos Estados Unidos, o Texas também passou a exigir que empresas do setor forneçam informações sobre o consumo hídrico. O governador Greg Abbott determinou que a agência estadual responsável pelo planejamento da água penalize data centers que não informarem quanto consomem.
De acordo com o The Texas Tribune, menos de 30% das 329 instalações consultadas em 2025 responderam ao levantamento estadual. O governo considera essas informações necessárias para projetar a demanda de água do Texas nas próximas décadas.
A cobrança ocorre em um estado que concentra centenas de empreendimentos e enfrenta períodos recorrentes de seca. Conforme o The Guardian, os data centers texanos consumiram cerca de 25 bilhões de galões de água em 2025, segundo estimativa do Houston Advanced Research Center. Esse volume pode chegar a 161 bilhões de galões por ano até 2030.
Além disso, o governo estadual determinou uma auditoria sobre o consumo, as fontes de abastecimento e as tecnologias de refrigeração dos data centers que buscam conexão com a rede elétrica.
Em Nevada, onde há mais de 70 data centers em operação ou planejados, a discussão também envolve a forma como os servidores são resfriados. Segundo o The Nevada Independent, sistemas evaporativos podem demandar grandes quantidades de água, enquanto circuitos fechados, que fazem o líquido circular por tubulações seladas, podem reduzir o consumo em até 70%. No sul do estado, a refrigeração evaporativa para data centers foi proibida em 2023.
Data centers e consumo de água no Brasil: o caso do Pecém
No Brasil, um projeto ligado ao TikTok também colocou o consumo hídrico no centro do debate. O data center destinado a atender à empresa no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, no Ceará, tornou-se alvo de uma ação civil pública do Ministério Público Federal e da Defensoria Pública da União. Os órgãos questionam, entre outros pontos, mudanças nas estimativas de consumo de água apresentadas durante o processo de licenciamento e defendem uma avaliação ambiental mais detalhada do empreendimento. A ação também pede consulta prévia ao povo indígena Anacé, que vive nas proximidades.
Embora as regras e condições variem entre os países, os casos mostram um desafio comum: o crescimento da infraestrutura necessária para sustentar serviços digitais e sistemas de inteligência artificial também eleva a necessidade de acompanhar seus efeitos sobre recursos naturais e redes de energia.
Na União Europeia, os países-membros e legisladores terão dois meses para apresentar eventuais objeções às novas regras. Caso isso não ocorra, elas entrarão em vigor e poderão abrir caminho para futuros padrões mínimos de eficiência energética e hídrica no setor.
FUP Explica
O que está em jogo aqui é a tensão entre dois objetivos que os governos perseguem ao mesmo tempo: expandir a infraestrutura digital para não ficar para trás na corrida pela inteligência artificial e, ao mesmo tempo, não comprometer recursos naturais que já estão sob pressão. A proposta europeia de um selo de eficiência é, por ora, uma medida de transparência, não de limite: ela não proíbe consumo alto, apenas obriga as empresas a mostrarem seus números. Isso pode parecer pouco, mas cria o registro público que viabiliza regulação mais dura no futuro, e a própria Comissão sinaliza que padrões mínimos de eficiência podem vir a seguir.
Nos Estados Unidos, a abordagem é mais reativa e fragmentada: cada estado age por conta própria diante de uma pressão concreta, seja a seca recorrente no Texas, seja a escassez hídrica em Nevada. O fato de menos de 30% das instalações texanas terem respondido ao levantamento estadual mostra que o setor ainda resiste à transparência, o que tende a acelerar a resposta regulatória, não a freá-la. Quando o governo precisa auditar para obter dados básicos, a tendência é que as exigências se tornem mais rígidas, não mais brandas.
No Brasil, o caso do Pecém adiciona uma dimensão jurídica e social que vai além do debate técnico sobre eficiência. A ação do Ministério Público Federal e da Defensoria questiona o próprio processo de licenciamento e levanta o direito de consulta de uma comunidade indígena, o que pode travar ou redesenhar o empreendimento independentemente de qualquer decisão sobre padrões de consumo. Para o setor de data centers como um todo, o sinal que vem de três continentes é o mesmo: a fase em que essas instalações operavam sem escrutínio sobre seu impacto ambiental está se encerrando.




