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IA faz mercado de memória disparar até 370%, enquanto China se prepara para ocupar espaço deixado pela crise
Corrida por servidores de inteligência artificial direciona produção de chips para equipamentos de maior margem, faz preços de RAM, SSDs, cartões e smartphones dispararem e abre espaço para fabricantes chineses ganharem presença
Comprar mais memória para o computador, trocar o SSD, escolher um celular com mais armazenamento ou até levar um cartão microSD para casa ficou significativamente mais caro em 2026. Enquanto empresas de tecnologia expandem seus data centers para sustentar a corrida pela inteligência artificial, fabricantes de chips direcionam uma parcela maior da capacidade de produção para servidores e equipamentos de maior margem, reduzindo a oferta destinada aos eletrônicos de consumo.
O movimento já atravessa a cadeia e chega ao consumidor em diferentes países, justamente quando a China prepara uma ofensiva para ganhar participação nesse mercado.
A pressão começa nos dois tipos de chips que sustentam boa parte desses produtos. A DRAM funciona como memória de trabalho de computadores, celulares e servidores, enquanto a NAND armazena dados em SSDs, smartphones, pendrives e cartões de memória. Um levantamento feito pela TrendForce, indica que os preços contratuais da DRAM convencional chegaram a subir entre 90% e 95% somente no primeiro trimestre de 2026, enquanto os da NAND avançaram entre 55% e 60%.
No trimestre seguinte, as altas previstas foram de 58% a 63% para a DRAM e de 70% a 75% para a NAND, impulsionadas principalmente pela demanda de servidores de IA e data centers.
No varejo, o impacto torna-se ainda mais visível. Um levantamento publicado pela ComputerBas em setembro mostrou que os módulos de RAM acompanhados pelo site estavam, em média, 370% mais caros do que um ano antes, enquanto os SSDs acumulavam alta média de 129%. Um kit Kingston Fury Beast DDR5 de 64 GB, por exemplo, passou de € 213 para € 1.149, enquanto um Crucial Pro DDR5 de 32 GB saltou de € 84 para € 444.
O armazenamento portátil também entrou na conta. Houve uma alta mediana de 124,5% nos preços de cartões de memória e pendrives entre 2025 e 2026, com determinados produtos registrando aumentos de até 261%. Entre os SSDs, o Samsung 990 EVO Plus de 2 TB passou de aproximadamente US$ 113 para US$ 363 em um ano, um salto superior a 200%.
Nos smartphones, a memória deixou de representar uma parcela relativamente pequena do custo para se transformar em um dos componentes de maior peso no preço dos aparelhos.
Uma configuração comum de 8 GB de RAM e 256 GB de armazenamento teve seu custo contratual quase triplicado em um ano. Já a LPDDR4X e a LPDDR5X, tecnologias usadas nos aparelhos, registraram aumentos trimestrais de pelo menos 70% e 78%, respectivamente, no segundo trimestre. Com isso, fabricantes passaram a enfrentar maior dificuldade para absorver esses aumentos, pressionando os preços de venda e até a quantidade de memória oferecida em aparelhos novos.
A origem desse efeito dominó está na mudança de prioridade dos fabricantes. Memórias HBM, chips destinados a servidores e SSDs empresariais são mais disputados pela infraestrutura de IA e oferecem margens mais atraentes.
Assim, a expansão da inteligência artificial não encarece apenas os próprios data centers: ao disputar a mesma capacidade industrial, ela reduz a oferta disponível para PCs, notebooks, celulares, placas de vídeo, pendrives e outros eletrônicos usados diariamente.
É nesse cenário que a China tenta transformar a escassez em oportunidade. A Reuters revelou nesta sexta-feira (18) que a CXMT, maior fabricante chinesa de DRAM, prepara uma linha de pesquisa e produção de NAND em Pequim, entrando em uma área até agora dominada no país pela YMTC. O movimento colocaria a empresa em disputa direta com Samsung, SK Hynix e Micron, além da própria rival chinesa.
A estratégia conta com apoio estatal e ocorre enquanto Pequim busca reduzir sua dependência externa de semicondutores diante das restrições tecnológicas impostas pelos Estados Unidos.
A entrada chinesa, porém, ainda não significa memória barata no curto prazo. A oferta mundial continua apertada, e CXMT e YMTC também se beneficiaram desse cenário, chegando, em alguns contratos, a cobrar mais do que concorrentes estrangeiros. Ao mesmo tempo, a expansão das duas empresas cria uma nova frente de competição em um mercado que deve permanecer pressionado pelo menos até 2027.
Assim, enquanto a inteligência artificial transforma chips de memória em peças estratégicas da infraestrutura digital, o consumidor encontra a consequência nas prateleiras: mais dinheiro para aumentar a RAM, trocar um SSD, comprar armazenamento portátil ou levar um celular com a mesma capacidade de antes. E a China aposta justamente nesse desequilíbrio para tentar ganhar terreno em uma indústria na qual a memória deixou de ser apenas um componente eletrônico e passou a representar um dos recursos mais cobiçados da corrida pela inteligência artificial.
FUP Explica
Fabricantes como Samsung, SK Hynix e Micron têm incentivo claro para priorizar memórias HBM e SSDs empresariais, que pagam margens maiores, em vez de módulos DDR5 para o consumidor final. O resultado é que quem quer montar um PC, trocar o armazenamento do notebook ou comprar um celular novo paga a conta da infraestrutura de data centers sem ter pedido para entrar nessa disputa.
No plano econômico, altas da ordem de 370% em módulos de RAM e de mais de 200% em SSDs específicos não são absorvíveis por fabricantes de eletrônicos sem repasse ao preço final ou sem corte na configuração dos aparelhos, o que já aparece nos smartphones com menos memória oferecida em modelos novos.
Para o consumidor, isso significa inflação pontual em uma categoria de produto que costumava baratear ano a ano, revertendo uma tendência de décadas.
No plano geopolítico e industrial, o movimento da CXMT para entrar na produção de NAND é relevante porque sinaliza que a China não quer depender de um único campeão nacional por segmento. Ter CXMT competindo com YMTC em NAND, ao mesmo tempo em que ambas disputam Samsung, SK Hynix e Micron, aumenta a pressão sobre os líderes do setor, mas também pode gerar excesso de oferta chinesa no médio prazo, o que eventualmente derrubaria preços. Esse cenário, porém, depende de quanto as restrições tecnológicas dos Estados Unidos conseguem travar o avanço tecnológico dessas empresas, e o texto não permite concluir isso com certeza. O que se sabe é que o mercado deve seguir pressionado pelo menos até 2027.




