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IA faz mercado de memória disparar até 370%, enquanto China se prepara para ocupar espaço deixado pela crise
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IA faz mercado de memória disparar até 370%, enquanto China se prepara para ocupar espaço deixado pela crise

18/09/2026·776 palavras

Corrida por servidores de inteligência artificial direciona produção de chips para equipamentos de maior margem, faz preços de RAM, SSDs, cartões e smartphones dispararem e abre espaço para fabricantes chineses ganharem presença

Comprar mais memória para o computador, trocar o SSD, escolher um celular com mais armazenamento ou até levar um cartão microSD para casa ficou significativamente mais caro em 2026. Enquanto empresas de tecnologia expandem seus data centers para sustentar a corrida pela inteligência artificial, fabricantes de chips direcionam uma parcela maior da capacidade de produção para servidores e equipamentos de maior margem, reduzindo a oferta destinada aos eletrônicos de consumo.

O movimento já atravessa a cadeia e chega ao consumidor em diferentes países, justamente quando a China prepara uma ofensiva para ganhar participação nesse mercado.

A pressão começa nos dois tipos de chips que sustentam boa parte desses produtos. A DRAM funciona como memória de trabalho de computadores, celulares e servidores, enquanto a NAND armazena dados em SSDs, smartphones, pendrives e cartões de memória. Um levantamento feito pela TrendForce, indica que os preços contratuais da DRAM convencional chegaram a subir entre 90% e 95% somente no primeiro trimestre de 2026, enquanto os da NAND avançaram entre 55% e 60%.

No trimestre seguinte, as altas previstas foram de 58% a 63% para a DRAM e de 70% a 75% para a NAND, impulsionadas principalmente pela demanda de servidores de IA e data centers.

No varejo, o impacto torna-se ainda mais visível. Um levantamento publicado pela ComputerBas em setembro mostrou que os módulos de RAM acompanhados pelo site estavam, em média, 370% mais caros do que um ano antes, enquanto os SSDs acumulavam alta média de 129%. Um kit Kingston Fury Beast DDR5 de 64 GB, por exemplo, passou de € 213 para € 1.149, enquanto um Crucial Pro DDR5 de 32 GB saltou de € 84 para € 444.

O armazenamento portátil também entrou na conta. Houve uma alta mediana de 124,5% nos preços de cartões de memória e pendrives entre 2025 e 2026, com determinados produtos registrando aumentos de até 261%. Entre os SSDs, o Samsung 990 EVO Plus de 2 TB passou de aproximadamente US$ 113 para US$ 363 em um ano, um salto superior a 200%.

Nos smartphones, a memória deixou de representar uma parcela relativamente pequena do custo para se transformar em um dos componentes de maior peso no preço dos aparelhos.

Uma configuração comum de 8 GB de RAM e 256 GB de armazenamento teve seu custo contratual quase triplicado em um ano. Já a LPDDR4X e a LPDDR5X, tecnologias usadas nos aparelhos, registraram aumentos trimestrais de pelo menos 70% e 78%, respectivamente, no segundo trimestre. Com isso, fabricantes passaram a enfrentar maior dificuldade para absorver esses aumentos, pressionando os preços de venda e até a quantidade de memória oferecida em aparelhos novos.

A origem desse efeito dominó está na mudança de prioridade dos fabricantes. Memórias HBM, chips destinados a servidores e SSDs empresariais são mais disputados pela infraestrutura de IA e oferecem margens mais atraentes.

Assim, a expansão da inteligência artificial não encarece apenas os próprios data centers: ao disputar a mesma capacidade industrial, ela reduz a oferta disponível para PCs, notebooks, celulares, placas de vídeo, pendrives e outros eletrônicos usados diariamente.

É nesse cenário que a China tenta transformar a escassez em oportunidade. A Reuters revelou nesta sexta-feira (18) que a CXMT, maior fabricante chinesa de DRAM, prepara uma linha de pesquisa e produção de NAND em Pequim, entrando em uma área até agora dominada no país pela YMTC. O movimento colocaria a empresa em disputa direta com Samsung, SK Hynix e Micron, além da própria rival chinesa.

A estratégia conta com apoio estatal e ocorre enquanto Pequim busca reduzir sua dependência externa de semicondutores diante das restrições tecnológicas impostas pelos Estados Unidos.

A entrada chinesa, porém, ainda não significa memória barata no curto prazo. A oferta mundial continua apertada, e CXMT e YMTC também se beneficiaram desse cenário, chegando, em alguns contratos, a cobrar mais do que concorrentes estrangeiros. Ao mesmo tempo, a expansão das duas empresas cria uma nova frente de competição em um mercado que deve permanecer pressionado pelo menos até 2027.

Assim, enquanto a inteligência artificial transforma chips de memória em peças estratégicas da infraestrutura digital, o consumidor encontra a consequência nas prateleiras: mais dinheiro para aumentar a RAM, trocar um SSD, comprar armazenamento portátil ou levar um celular com a mesma capacidade de antes. E a China aposta justamente nesse desequilíbrio para tentar ganhar terreno em uma indústria na qual a memória deixou de ser apenas um componente eletrônico e passou a representar um dos recursos mais cobiçados da corrida pela inteligência artificial.

FUP Explica

Fabricantes como Samsung, SK Hynix e Micron têm incentivo claro para priorizar memórias HBM e SSDs empresariais, que pagam margens maiores, em vez de módulos DDR5 para o consumidor final. O resultado é que quem quer montar um PC, trocar o armazenamento do notebook ou comprar um celular novo paga a conta da infraestrutura de data centers sem ter pedido para entrar nessa disputa.

No plano econômico, altas da ordem de 370% em módulos de RAM e de mais de 200% em SSDs específicos não são absorvíveis por fabricantes de eletrônicos sem repasse ao preço final ou sem corte na configuração dos aparelhos, o que já aparece nos smartphones com menos memória oferecida em modelos novos.

Para o consumidor, isso significa inflação pontual em uma categoria de produto que costumava baratear ano a ano, revertendo uma tendência de décadas.

No plano geopolítico e industrial, o movimento da CXMT para entrar na produção de NAND é relevante porque sinaliza que a China não quer depender de um único campeão nacional por segmento. Ter CXMT competindo com YMTC em NAND, ao mesmo tempo em que ambas disputam Samsung, SK Hynix e Micron, aumenta a pressão sobre os líderes do setor, mas também pode gerar excesso de oferta chinesa no médio prazo, o que eventualmente derrubaria preços. Esse cenário, porém, depende de quanto as restrições tecnológicas dos Estados Unidos conseguem travar o avanço tecnológico dessas empresas, e o texto não permite concluir isso com certeza. O que se sabe é que o mercado deve seguir pressionado pelo menos até 2027.

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