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UE suspende importações de carnes e outros produtos de origem animal do Brasil
A UE suspendeu importações de carnes, pescados, ovos e mel do Brasil por falhas no controle de antimicrobianos. Exportações afetadas somaram US$ 1,84 bi em 2025
A União Europeia suspendeu, a partir de quinta-feira (3), as importações de determinados produtos brasileiros de origem animal nos 27 países do bloco, incluindo carnes bovina, suína e de frango, pescados, ovos e mel. A medida ocorre após as autoridades europeias considerarem insuficientes as garantias apresentadas pelo Brasil sobre o controle do uso de antimicrobianos na produção animal, e a retomada dos embarques dependerá da comprovação de que as cadeias produtivas atendem às regras estabelecidas pela UE.
Segundo Erika Forner, CEO da European Cargo, o embargo da UE a carnes brasileiras não partiu da identificação de contaminação em produtos do país, mas da avaliação de que o Brasil ainda não conseguiu comprovar que seus sistemas de controle atendem às exigências europeias.
"A União Europeia não está dizendo que encontrou carne brasileira contaminada. O argumento europeu é outro. O bloco considera que o Brasil não apresentou garantias suficientes de que os controles sobre o uso de antimicrobianos na produção animal atendem às exigências europeias", afirma Forner.
Dados do Ministério da Agricultura indicam que o embargo alcança um fluxo comercial de US$ 1,84 bilhão em exportações brasileiras de produtos de origem animal, considerando os valores registrados em 2025. Desse total, US$ 1,05 bilhão corresponde às vendas de carne bovina e US$ 763 milhões às de carne de frango, enquanto a União Europeia respondeu por 5,8% da receita brasileira obtida com as exportações de carne bovina e foi destino de cerca de 8% dos embarques brasileiros de frango no período.
A suspensão havia sido anunciada após o Brasil ficar fora da lista de países considerados em conformidade com as exigências europeias e, desde então, autoridades brasileiras mantêm negociações com representantes do bloco para restabelecer as exportações.
Para Forner, o episódio demonstra que o acesso ao mercado europeu depende não apenas do cumprimento das normas, mas também da capacidade dos países exportadores de comprovar que seus processos produtivos estão de acordo com as condições estabelecidas pelo bloco.
"Para vender para a Europa, não basta produzir. É preciso conseguir provar que você produz dentro das regras que a Europa exige", diz.
No caso da proteína animal, a regulamentação europeia proíbe o uso de antimicrobianos como promotores de crescimento ou para elevar a produtividade dos animais e também restringe o emprego, em animais destinados à produção de alimentos, de determinados medicamentos reservados ao tratamento de infecções em seres humanos.
As medidas estão relacionadas ao combate à resistência antimicrobiana, pois o uso excessivo desses medicamentos em animais pode favorecer o desenvolvimento de bactérias resistentes e dificultar o tratamento de determinadas infecções em seres humanos.
A Comissão Europeia avaliou que o Brasil não apresentou garantias suficientes sobre o controle dessas substâncias ao longo da cadeia produtiva. Em abril de 2026, o governo brasileiro proibiu parte dos antimicrobianos utilizados como promotores de crescimento, mas as mudanças não foram consideradas suficientes pelas autoridades europeias, entendimento contestado pelo governo brasileiro, que sustenta que a legislação nacional estabelece restrições ao uso dessas substâncias com base em referências internacionais.
Para Forner, a retomada das exportações para a União Europeia deve ocorrer em ritmos diferentes, conforme as características e o ciclo produtivo de cada setor, com possibilidade de avanço mais rápido nas cadeias de frango e mel, enquanto a carne bovina tende a exigir mais tempo para comprovar o atendimento às regras do bloco.
"Há auditorias em andamento envolvendo cadeias como frango e mel, que podem abrir espaço para uma retomada mais rápida nesses segmentos", afirma.
Técnicos da União Europeia realizaram uma auditoria no Brasil nos setores de aves e mel, com conclusão prevista para 4 de setembro. Após o encerramento do trabalho, os inspetores ainda precisam elaborar as conclusões da visita, que serão analisadas pelas autoridades europeias.
O ciclo produtivo mais curto do frango pode favorecer uma adequação mais rápida às exigências europeias, enquanto, na pecuária bovina, segundo Forner, o processo tende a ser mais demorado porque a comprovação de conformidade deve acompanhar o animal ao longo de um período maior até o abate.
As empresas associadas à Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) habilitadas a vender carne bovina para a União Europeia aderiram a um protocolo privado de controle do uso de antimicrobianos que, segundo a entidade, reúne todas as associadas autorizadas a atuar no mercado europeu e integra as garantias apresentadas pelo Brasil.
Não há, até o momento, um prazo único para o restabelecimento das exportações, e a Comissão Europeia informou que mantém diálogo com as autoridades brasileiras e que os embarques poderão ser retomados quando o país demonstrar conformidade com as exigências estabelecidas pelo bloco.
Risco de perda de acesso ao mercado europeu
O episódio serve de alerta às empresas brasileiras que pretendem exportar para mercados com regras específicas, já que conhecer previamente as exigências do país de destino é parte do processo necessário para evitar barreiras comerciais quando a mercadoria já estiver pronta para embarque.
"Quem quer vender para a Europa precisa entender a regra europeia antes de produzir e não depois que o produto está pronto para embarcar", afirma Erika Forner.
Enquanto o embargo permanecer em vigor, parte da produção anteriormente destinada à União Europeia poderá buscar outros compradores, mas o redirecionamento depende das características dos produtos e das exigências sanitárias e comerciais de cada destino. No caso das carnes, a substituição do mercado europeu não ocorre necessariamente de forma imediata, pois os países compradores apresentam demandas distintas em relação aos produtos e cortes comercializados.
A discussão, portanto, vai além dos efeitos imediatos da suspensão sobre as vendas brasileiras, uma vez que a capacidade de demonstrar o cumprimento das normas estabelecidas pelos compradores pode determinar a permanência de empresas e países em determinados mercados.
"Não é simplesmente sobre carne, é sobre acesso a mercado. E, no comércio internacional, quem não consegue comprovar conformidade pode perder acesso até mesmo a um dos mercados mais importantes do mundo", conclui Forner.
FUP Explica
O caso ilustra um risco que vai além deste embargo específico: países e empresas que não conseguem documentar e comprovar seus processos produtivos de acordo com as exigências do comprador ficam vulneráveis a barreiras não tarifárias, independentemente de cumprirem ou não as normas na prática.




