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Uber se aproxima de sindicatos para enfrentar avanço dos robotáxis
A Uber está reformulando sua estratégia competitiva em 2026 diante do avanço acelerado dos robotáxis nos Estados Unidos. A empresa que transformou o transporte por aplicativo agora se aproxima de sindicatos de motoristas e pressiona autoridades por regras que mantenham veículos autônomos e condutores humanos dentro das mesmas plataformas, segundo apurado pelo Financial Times.
A preocupação tem uma explicação direta: a Uber reúne cerca de 10,2 milhões de motoristas e entregadores ativos e construiu uma rede ampla de conexão entre passageiros e condutores. À medida que empresas de robotáxis passam a operar suas próprias frotas e aplicativos independentes, essa vantagem pode perder força. Apesar do desempenho operacional positivo, as ações da companhia acumulavam queda de cerca de 8% em 2026.
A principal pressão vem da Waymo, controlada pela Alphabet. De acordo com o TechCrunch, a empresa iniciou em setembro operações para passageiros em Denver, San Diego e Tampa, levando seus serviços autônomos a 14 cidades americanas, com frota que ultrapassou 4 mil veículos. Diferentemente do modelo da Uber, a Waymo capta passageiros diretamente por seu próprio aplicativo, reduzindo a necessidade de uma plataforma intermediária.
A Tesla também intensificou sua presença no setor. A companhia abriu em setembro um formulário para empresas interessadas na compra de frotas do Cybercab, veículo desenvolvido sem volante ou pedais, além de infraestrutura e participação em sua futura rede de robotáxis. Os detalhes comerciais ainda não foram definidos, mas a iniciativa indica que a Tesla avalia ampliar o modelo para além de uma frota controlada pela própria empresa.
A Zoox, subsidiária da Amazon, avança com um veículo criado especificamente para transporte autônomo, sem controles tradicionais de direção. Conforme o site da própria Zoox, o serviço foi aberto ao público em Las Vegas, com acesso de passageiros selecionados também em San Francisco. A empresa levou seus robotáxis para Austin e Miami e anunciou expansão para Houston e San Diego.
O avanço dos concorrentes empurrou a Uber para uma posição incomum. A companhia e sindicatos de taxistas e motoristas passaram a atuar juntos em algumas regiões para limitar ou desacelerar a implantação de serviços totalmente autônomos. Em cidades como San Francisco e Los Angeles, a própria Uber reconheceu sinais de redução na utilização e nos ganhos por hora de motoristas diante da maior presença dos robotáxis.
A relação com a Waymo, no entanto, não é apenas de concorrência. As duas empresas trabalharam juntas em cidades como Phoenix, Austin e Atlanta, mas passaram a defender modelos regulatórios diferentes. Enquanto a Uber pressiona por uma rede híbrida, a Waymo se posicionou contra medidas que restrinjam veículos autônomos a determinados tipos de plataforma.
Ao mesmo tempo, a Uber não abandonou os veículos autônomos. A companhia mantém investimentos e parcerias com mais de 30 empresas ligadas à tecnologia e criou a divisão AV Labs para coletar e compartilhar dados de direção com desenvolvedores.
Em agosto de 2026, a própria empresa prometeu investir mais de US$ 10 bilhões nos próximos anos para colocar em operação 120 mil veículos sem motorista. O diretor-executivo Dara Khosrowshahi afirmou que o caixa recorde ajudará a empresa a se tornar a "vencedora de longo prazo em veículos autônomos" e que o grupo planeja operar serviços de robotáxis em pelo menos 15 cidades ainda em 2026.
A Uber registrou um recorde de US$ 2,8 bilhões em fluxo de caixa livre no segundo trimestre de 2026, elevando o total acumulado em 12 meses para cerca de US$ 10,1 bilhões, segundo a Folha de São Paulo. Internacionalmente, a empresa também expandiu suas alianças: em agosto de 2026, anunciou que sua parceira britânica Wayve recebeu autorização da Transport for London para lançar um serviço comercial de robotáxis em Londres, com um motorista de segurança ao volante, em 15 veículos Ford Mustang Mach-E modificados pela Wayve.
FUP Explica
O que está em jogo aqui é o modelo de negócio inteiro da Uber. A empresa foi construída sobre a ideia de ser o intermediário indispensável entre quem precisa de uma carona e quem dirige. Quando o motorista some da equação, a plataforma perde seu principal argumento de existência. É por isso que a Uber está fazendo o que parece contraditório: investir pesado em veículos autônomos e, ao mesmo tempo, se aliar a sindicatos para frear a expansão dos concorrentes que já operam sem motorista. É uma aposta de tempo: segurar o ritmo da concorrência enquanto constrói sua própria posição no mercado autônomo.
O problema é que o tempo pode não estar do lado da Uber. A Waymo passou de projeto experimental para 14 cidades e mais de 4 mil veículos. A Zoox, com o respaldo financeiro da Amazon, está em múltiplos mercados. A Tesla tem escala industrial e uma base de clientes corporativos que pode converter em frotas de Cybercab. Nenhum desses concorrentes precisa da rede de motoristas da Uber para funcionar, o que torna a principal vantagem competitiva da empresa progressivamente menos relevante. A queda de 8% nas ações em 2026, mesmo com resultados operacionais positivos, sugere que o mercado financeiro já está precificando essa fragilidade estrutural.
Para os motoristas parceiros da Uber, o cenário é ainda mais direto: a própria empresa reconheceu queda na utilização e nos ganhos por hora em cidades onde os robotáxis avançaram. A aliança com sindicatos pode desacelerar esse processo em algumas jurisdições, mas dificilmente vai revertê-lo. A disputa regulatória que se desenha nos EUA, sobre se robotáxis devem ou não operar dentro de plataformas híbridas, vai definir quanto espaço os motoristas humanos ainda terão nesse mercado nos próximos anos.




