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IA pode reduzir anos no desenvolvimento de tratamentos contra o câncer
Rene Haas, CEO da Arm Holdings, afirmou à BBC, em entrevista publicada nesta segunda-feira (7), que acredita que a inteligência artificial poderá contribuir para a descoberta de uma cura para o câncer ainda nesta geração. Segundo o executivo, computadores mais sofisticados poderão processar modelos e volumes crescentes de dados biológicos para enfrentar problemas que atualmente são complexos demais para seres humanos e sistemas de IA.
“Acredito que, em nossa vida, a IA ajudará a curar o câncer”, declarou Haas ao podcast da BBC.
O executivo afirmou que modelar uma célula, um ser humano ou a forma como um marcador de DNA é afetado pelo câncer ainda representa um problema de elevada complexidade tanto para pesquisadores quanto para os computadores atuais. Na avaliação de Haas, essa limitação deve diminuir à medida que mais modelos sejam incorporados aos computadores e as máquinas utilizadas para executá-los se tornem mais sofisticadas.
Chris Bakal, professor do Institute of Cancer Research, de Londres, e CEO da Sentinal4D, ponderou que um dos principais desafios para o uso da inteligência artificial na medicina está nos dados fornecidos aos sistemas. Em laboratórios como o de Bakal, pesquisadores treinam modelos de IA com informações produzidas a partir de amostras de pacientes, em vez de conteúdo coletado da internet.
“O futuro da IA médica não pertencerá a quem constrói o maior computador, mas a quem tem as medições certas”, afirmou Bakal.
Segundo o pesquisador, previsões produzidas a partir desse tipo de abordagem podem reduzir em anos o tempo necessário para o desenvolvimento de novos tratamentos.
Para Haas, uma das principais limitações à expansão dos sistemas de inteligência artificial está na disponibilidade de semicondutores. O executivo descreveu o setor como um “ambiente absolutamente restrito em oferta”.
A expansão da infraestrutura de IA elevou a procura por memória e capacidade de processamento, enquanto empresas de tecnologia destinam centenas de bilhões de dólares à construção de novos centros de dados. Segundo Haas, novas fábricas de semicondutores podem custar dezenas de bilhões de dólares e levar de dois a três anos para entrar em operação, o que limita a velocidade de crescimento da oferta.
O executivo citou projetos de centros de dados com capacidade de múltiplos gigawatts na França e nos Estados Unidos, além de propostas para instalações no espaço. Para Haas, entretanto, o aumento da capacidade de fabricação de semicondutores precisa ocorrer antes da execução de projetos desse porte.
“Precisamos de mais fábricas antes de podermos colocar um centro de dados no espaço”, afirmou.
Apesar da escassez, Haas disse não considerar necessária a instalação de fábricas de semicondutores no Reino Unido. Segundo ele, essas unidades exigem investimentos elevados, profissionais especializados, disponibilidade de recursos naturais e um ecossistema industrial consolidado.
A fabricação dos componentes mais avançados permanece concentrada em empresas como a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC), de Taiwan.
A Arm projeta arquiteturas de processadores utilizadas em mais de 350 bilhões de chips distribuídos em dispositivos como celulares, automóveis e relógios inteligentes. Depois de décadas concentrada no licenciamento de propriedade intelectual para outras fabricantes, a empresa passou a fornecer processadores completos destinados a centros de dados.
Em março de 2026, a Arm anunciou o AGI CPU, seu primeiro processador dentro dessa nova estratégia comercial. O componente é fabricado pela TSMC com tecnologia de 3 nanômetros.
A Meta Platforms foi a principal parceira da Arm no desenvolvimento do processador. Entre os clientes anunciados para o AGI CPU estão OpenAI, Cloudflare, SAP e SK Telecom.
Segundo Haas, a procura pelos novos processadores da companhia cresceu rapidamente. Em entrevista à BBC, o executivo afirmou que a demanda pelo produto Neoverse passou de aproximadamente US$ 1 bilhão para mais de US$ 2 bilhões em cinco meses.
A Arm é controlada majoritariamente pelo conglomerado japonês SoftBank, que mantém investimentos em diferentes empresas de tecnologia, incluindo a OpenAI. Haas, que deixou o conselho da farmacêutica AstraZeneca em abril de 2026, também ocupa uma função no SoftBank.
Segundo o executivo, metade dos funcionários da Arm permanece no Reino Unido, e a companhia é a maior empregadora de Cambridge. Além das aplicações da inteligência artificial na medicina, Haas prevê crescimento do uso de processadores da Arm em robôs capazes de aprender novas tarefas.
Segundo ele, esses equipamentos poderão ser utilizados em maior escala ao longo da próxima década em atividades como manufatura, limpeza, segurança, construção e reparos.
Sobre os possíveis efeitos da inteligência artificial no mercado de trabalho, Haas considerou exageradas as estimativas de substituição completa de grande quantidade de empregos por máquinas. Segundo o executivo, haverá mudanças para os trabalhadores, mas também deverão surgir novas oportunidades.
FUP Explica
A declaração de Haas sobre a cura do câncer tem apelo imediato, mas o núcleo da entrevista é econômico e industrial: a escassez de chips está freando o ritmo de expansão da IA em aplicações de alto impacto, da medicina à infraestrutura de data centers. Isso pressiona governos e empresas a acelerarem investimentos em capacidade de fabricação de semicondutores, um mercado dominado pela TSMC e altamente concentrado geograficamente.
O movimento da Arm de sair do modelo puro de licenciamento e passar a vender chips próprios para data centers é uma mudança de posicionamento com consequências diretas para o setor. A demanda de mais de US$ 2 bilhões pelo AGI CPU em poucos meses indica que há espaço para novos competidores no segmento de processadores para IA, historicamente dominado pela Nvidia. Isso tende a diversificar a cadeia de fornecimento e, a médio prazo, pode aliviar parte da pressão sobre os preços.




