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IA acelera retomada de usinas e novos projetos nucleares nos EUA
A crescente demanda de energia provocada pela expansão da inteligência artificial e dos data centers está acelerando uma nova onda de investimentos em energia nuclear nos Estados Unidos, reunindo gigantes de tecnologia, empresas do setor elétrico e startups em projetos que vão da reativação de usinas desativadas ao desenvolvimento de pequenos reatores modulares e unidades flutuantes. O movimento ganhou novo impulso em setembro de 2026, com apoio bilionário do governo norte-americano e novos aportes privados, principalmente para garantir geração contínua de eletricidade diante do rápido crescimento da infraestrutura digital.
Um dos principais exemplos está no estado de Iowa, onde o Duane Arnold Energy Center, fechado desde 2020, deverá voltar a operar com apoio do Departamento de Energia dos Estados Unidos e do Google. O governo federal fechou um compromisso de empréstimo de até US$ 1,9 bilhão para ajudar a NextEra Energy a reativar o único reator de 615 megawatts da instalação, próxima a Cedar Rapids. A usina havia sido desligada depois que uma forte tempestade danificou sua estrutura, em um período no qual a operação nuclear também enfrentava dificuldades econômicas.
O Yahoo Finance informou que a retomada está prevista para 2029 e ocorre em um cenário bastante diferente daquele de seis anos atrás.
Com o avanço da IA e da eletrificação da economia, empresas de energia passaram a buscar novas fontes capazes de fornecer eletricidade de forma constante. O Google avalia construir até seis data centers nas proximidades da usina, uma vez que a demanda de eletricidade dos novos data centers poderá quase triplicar até 2035, reforçando a busca do setor de tecnologia por fontes firmes de geração.
Nesse contexto, a reativação de instalações existentes tornou-se apenas uma das frentes dessa expansão. O EnergyTech aponta que Google, Microsoft, Meta e Amazon vêm destinando recursos a contratos de longo prazo e projetos nucleares. A Microsoft, por exemplo, mantém um acordo com a Constellation Energy para reativar uma unidade de Three Mile Island, enquanto Meta e Amazon também avançam em iniciativas envolvendo pequenos reatores modulares.
O próprio Google firmou um contrato de compra de energia de 25 anos com a NextEra para apoiar a retomada de Duane Arnold.
Ao mesmo tempo, novas tecnologias nucleares começam a disputar espaço nesse mercado. Segundo o TechCrunch, a TerraPower, fundada por Bill Gates, prepara seu primeiro projeto voltado a data centers e aposta no reator Natrium, de 345 megawatts. A tecnologia combina geração nuclear com armazenamento térmico em sal fundido: quando a demanda elétrica está menor, o calor excedente pode ser armazenado e, nos momentos de maior consumo, utilizado para aumentar a produção de vapor e eletricidade. Esse modelo busca responder às oscilações rápidas de carga provocadas pelo uso intensivo de GPUs em aplicações de inteligência artificial.
Em janeiro, a Meta acertou a compra de energia de oito usinas Natrium da TerraPower, enquanto outro projeto da empresa, com início de obras previsto para 2027, deverá atender um data center ainda não identificado. A proposta aumenta a busca por sistemas capazes de reunir a alta disponibilidade característica da energia nuclear com maior flexibilidade operacional.
Outra iniciativa parte da Bluecore Energy, startup que levantou US$ 50 milhões em uma rodada seed, poucos meses depois de captar US$ 10 milhões em uma rodada pré-seed. A empresa desenvolve pequenos reatores modulares instalados em barcaças flutuantes para fornecer energia a portos e infraestruturas próximas.
Sediada no Porto de Long Beach, a Bluecore lançou duas barcaças e submete seu projeto à análise de órgãos reguladores norte-americanos. Além disso, a companhia afirma ter recebido interesse de portos, comunidades e data centers de IA.
Com diferentes modelos tecnológicos e financeiros, os projetos mostram como a expansão da inteligência artificial está alterando a estratégia energética do setor de tecnologia. Entre a recuperação de usinas existentes, novos reatores modulares e soluções móveis, empresas buscam garantir grandes volumes de eletricidade contínua para sustentar uma infraestrutura digital que cresce rapidamente, e que, cada vez mais, coloca a energia nuclear de volta no centro das decisões sobre geração nos Estados Unidos.
FUP Explica
Durante anos, usinas nucleares foram fechadas porque não conseguiam competir com gás natural barato e com renováveis subsidiadas. Agora, a IA virou o argumento que faltava para justificar o custo e o prazo longo de projetos nucleares: data centers precisam de eletricidade 24 horas por dia, sete dias por semana, sem interrupção, e fontes intermitentes como solar e eólica não resolvem esse problema sozinhas.
Do ponto de vista econômico, o movimento tem duas camadas. A primeira é o dinheiro público: um empréstimo federal de até US$ 1,9 bilhão para reativar Duane Arnold mostra que o governo norte-americano trata a capacidade nuclear como prioritária para sustentar a infraestrutura digital do país. A segunda é o dinheiro privado: contratos de longo prazo firmados por Google, Microsoft, Meta e Amazon funcionam como garantia de receita para viabilizar projetos que, de outra forma, teriam dificuldade de atrair financiamento. Esse modelo, em que a big tech banca a demanda e o governo banca o risco de crédito, tende a se repetir em outros projetos.
No médio prazo, o ponto de atenção é regulatório. Projetos como o da Bluecore Energy, com reatores em barcaças flutuantes, ainda dependem de aprovação de órgãos reguladores norte-americanos, e esse processo pode ser lento. O reator Natrium da TerraPower também é uma tecnologia que ainda não tem histórico operacional em escala comercial. Ou seja, a demanda existe e o dinheiro está se movendo, mas boa parte dessa capacidade prometida ainda precisa passar pelo teste da execução real.




