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Trump e Xi chegam a nova cúpula com comércio, Taiwan, terras raras e IA no centro das negociações
Encontro em Washington pode repercutir sobre o Brasil, já que China e Estados Unidos concentram cerca de 40% das exportações e importações brasileiras.
Donald Trump e Xi Jinping se reúnem nesta semana em Washington em uma cúpula que pode repercutir sobre o comércio brasileiro. China e Estados Unidos são os dois principais destinos das exportações brasileiras e também as duas maiores origens das importações do país, o que torna relevantes para empresas nacionais as decisões sobre tarifas, compras agrícolas, terras raras e tecnologia, além dos desdobramentos geopolíticos do encontro.
Xi chega à capital norte-americana nesta quarta-feira (23), para sua primeira visita a Washington em mais de uma década, enquanto as conversas formais com Trump estão previstas para quinta-feira, quatro meses depois da última reunião entre os dois líderes, em Pequim.
O tamanho dessa exposição ajuda a dimensionar o interesse brasileiro. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que, entre janeiro e agosto de 2026, a China recebeu $ 77,1 bilhões em produtos brasileiros, o equivalente a 30,7% das exportações do país, enquanto os Estados Unidos compraram US$ 24,1 bilhões, ou 9,6%.
Nas importações, a China respondeu por 26,4% do total e os Estados Unidos, por 14%. Somados, portanto, os dois países concentraram aproximadamente 40% tanto das vendas quanto das compras externas brasileiras no período.
Segundo a Reuter, um dos principais pontos da cúpula será a possível extensão da trégua tarifária entre Washington e Pequim, que vence em 10 de novembro. O acordo interrompeu uma escalada na qual as duas maiores economias do mundo chegaram a ameaçar produtos uma da outra com tarifas recíprocas superiores a 100%, pressionando cadeias mundiais de suprimentos. Agora, as conversas envolvem agricultura, barreiras não tarifárias e uma redução mútua de tarifas sobre cerca de US$ 30 bilhões em mercadorias.
Para o Brasil, o resultado pode produzir efeitos em diferentes direções. Uma nova escalada tarifária entre Estados Unidos e China poderia alterar fluxos internacionais de produtos, preços e decisões de fornecimento, enquanto uma redução das barreiras pode modificar as condições de concorrência entre empresas norte-americanas, chinesas e fornecedores de outros países.
O tema é especialmente relevante para as exportações brasileiras, já que Pequim é um mercado central para produtos como soja, petróleo, minério de ferro e carne bovina. No agronegócio, a atenção se volta também para os esforços de Washington para aumentar as vendas agrícolas norte-americanas ao mercado chinês.
A Casa Branca afirmou após o encontro de maio que a China havia assumido o compromisso de comprar ao menos US$ 17 bilhões por ano em produtos agrícolas dos Estados Unidos entre 2026 e 2028. Washington também espera resultados na abertura chinesa para produtos como carne bovina.
Caso esses compromissos cresçam ou sejam acompanhados por cortes tarifários, exportadores brasileiros precisarão observar como as novas condições afetam a concorrência no mercado chinês. Ao mesmo tempo, dificuldades entre os dois países podem novamente redirecionar a demanda para fornecedores alternativos, como ocorreu em fases anteriores da disputa comercial.
A negociação sobre as terras raras e os minerais críticos também interessa ao Brasil pelo impacto potencial sobre cadeias industriais.
Washington pressiona Pequim para facilitar os embarques desses materiais, utilizados nos setores automotivo, aeroespacial, eletrônico e de defesa, enquanto a China busca evitar novas limitações ao acesso de suas empresas a tecnologias norte-americanas. A concentração é elevada: estimativas da AlixPartners indicam que a China controla até 70% da mineração mundial de terras raras, 85% da capacidade de refino e cerca de 90% da produção de ligas e ímãs. Novas restrições, portanto, podem afetar preços e disponibilidade de insumos utilizados por indústrias de diversos países, inclusive brasileiras.
E essa disputa tecnológica se estende também à inteligência artificial. Autoridades norte-americanas e chinesas discutiram a possibilidade de criar um diálogo bilateral sobre IA, incluindo um mecanismo de notificação para incidentes com implicações para a segurança nacional.
Apesar desse espaço de cooperação, analistas avaliam que a competição por liderança tecnológica deve limitar acordos mais abrangentes. Para o Brasil, mudanças nas restrições de acesso a tecnologias, semicondutores e sistemas avançados podem repercutir sobre empresas que dependem de equipamentos e componentes produzidos nas duas economias.
Taiwan, porém, deve ser um dos pontos mais difíceis das conversas. Segundo fontes ouvidas pela Reuters, Xi deve pressionar Trump a interromper as vendas norte-americanas de armas à ilha, com base na interpretação chinesa de um comunicado bilateral de 1982. Pequim considera Taiwan parte de seu território, posição rejeitada pelo governo taiwanês. Os Estados Unidos não mantêm relações diplomáticas formais com Taiwan, mas a legislação norte-americana prevê o fornecimento de meios para que a ilha possa se defender.
Trump ainda não aprovou um novo pacote de armamentos estimado em até US$ 14 bilhões, depois de sua administração ter autorizado outro, de aproximadamente US$ 11 bilhões, em dezembro de 2025. Fontes ouvidas pela Reuters disseram também que a China quer interromper entregas de equipamentos já adquiridos por Taiwan. Embora a questão seja principalmente geopolítica, uma escalada no estreito poderia produzir consequências econômicas muito além da região devido à importância de Taiwan nas cadeias mundiais de tecnologia e semicondutores.
O Irã adiciona outra camada às negociações. A China mantém relações próximas com Teerã e é o maior comprador de petróleo iraniano, enquanto autoridades norte-americanas esperam que Xi utilize sua influência para pressionar o governo do país em meio à guerra no Oriente Médio.
Fontes ouvidas pela Reuters disseram ainda que Pequim poderia oferecer colaboração nessa frente durante as discussões com Trump. Para o Brasil, mudanças no conflito podem repercutir principalmente nos preços internacionais do petróleo, nos custos de combustível, nos fretes e nas rotas logísticas.
A cúpula, portanto, não interessa ao Brasil apenas pela relação política entre Washington e Pequim. Com China e Estados Unidos ocupando os dois primeiros lugares entre os mercados das exportações brasileiras, decisões tomadas pelas duas potências podem alterar condições de concorrência, demanda por commodities, disponibilidade de insumos e custos das cadeias mundiais de suprimentos. Em agosto, somente China e Estados Unidos responderam por 34,8% das vendas externas brasileiras.
Para empresas de comércio exterior, acompanhar o encontro significa observar não apenas se Trump e Xi reduzirão suas próprias tensões, mas também como eventuais acordos entre eles podem alterar a posição de setores brasileiros nas cadeias de comércio que conectam as três economias.
FUP Explica
A cúpula chega menos como uma negociação sobre um único grande acordo e mais como uma tentativa de administrar simultaneamente diferentes pontos de atrito. O vencimento da trégua tarifária em novembro cria uma pressão de calendário real: sem prorrogação, os dois países voltam ao risco de uma nova escalada que já chegou a tarifas acima de 100% de ambos os lados, com efeito direto sobre cadeias de suprimentos industriais no mundo inteiro, inclusive as que abastecem o Brasil de insumos e equipamentos.
O jogo de forças, porém, é assimétrico. Trump enfrenta desgaste político interno e os custos da guerra com o Irã, o que reduz sua margem para pressionar Xi por concessões rápidas. Pequim, por outro lado, tem incentivo para prolongar a estabilidade sem ceder muito: cada mês de trégua é tempo para a China avançar em semicondutores, IA e processamento de minerais críticos, reduzindo vulnerabilidades que os EUA tentam explorar. O analista da Brookings citado pela Folha resume bem esse cálculo.
Nas terras raras, o desequilíbrio é ainda mais explícito. Com controle de até 70% da mineração e 90% da produção de ligas e ímãs, a China tem alavancagem concreta sobre indústrias que os EUA consideram prioritárias para defesa e tecnologia. Qualquer acordo nessa área tende a ser mais favorável a Pequim do que parece à primeira vista. Já em Taiwan, a decisão de Trump de manter suspenso o pacote de US$ 14 bilhões como "instrumento de negociação" sinaliza que segurança e comércio seguem entrelaçados, o que torna qualquer concessão comercial politicamente mais cara para Washington do que os números isolados sugerem.
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