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BRICS coloca comércio, pagamentos e IA no centro da agenda e amplia frentes de atenção para o Brasil
Propostas discutidas em Nova Delhi envolvem integração comercial, pagamentos internacionais e inteligência artificial, enquanto avanço das exportações brasileiras para a Índia mostra onde parte dessa agenda já começa a encontrar negócios concretos.
A 18ª Cúpula do BRICS, encerrada em 13 de setembro, em Nova Delhi, colocou comércio, pagamentos internacionais, inteligência artificial e integração das cadeias produtivas entre os principais temas econômicos do bloco, em um momento no qual as relações brasileiras com alguns de seus integrantes também ganham escala. Para o Brasil, a discussão vai além do peso político do agrupamento: propostas para reduzir obstáculos aos pagamentos transfronteiriços e ampliar mercados coincidem com uma expansão de 82,1% das exportações brasileiras para a Índia nos primeiros sete meses de 2026, enquanto os países tentam transformar a cooperação do BRICS em mecanismos mais concretos de comércio, tecnologia e investimento.
Segundo a Reuters, o presidente chinês, Xi Jinping, encerrou a cúpula defendendo maior cooperação entre os países do chamado “Greater BRICS”, com foco na estabilidade das cadeias industriais e de suprimentos e na formação de um mercado mais integrado.
Entre as propostas, Pequim pretende liderar a criação de uma BRICS AI Open Source Zone, voltada à cooperação em grandes modelos de linguagem, treinamento de inteligência artificial e desenvolvimento de um ecossistema aberto de IA. Xi também propôs uma parceria entre zonas econômicas especiais do bloco e anunciou que a China pretende sediar um fórum de comércio de serviços em 2027.
Outra frente com impacto potencial direto sobre o comércio exterior está nos pagamentos. A Índia defendeu a conexão das moedas digitais emitidas pelos bancos centrais dos países do BRICS, as chamadas CBDCs, para facilitar transações internacionais. A proposta dá continuidade à declaração adotada na cúpula de 2025, no Rio de Janeiro, que já defendia maior interoperabilidade entre sistemas de pagamentos para tornar operações cross-border mais eficientes.
Na prática, porém, o mecanismo ainda está distante de funcionar como uma infraestrutura comum. A adoção limitada das moedas digitais, a necessidade de acordos de swap cambial e as diferenças políticas entre os integrantes dificultam a integração.
Relações financeiras tensas entre Irã e Emirados Árabes Unidos e as preocupações indianas com segurança e conectividade financeira com a China estão entre os obstáculos apontados nas discussões. Além disso, Nova Delhi deixou claro que a proposta não tem como objetivo substituir o dólar, mas facilitar e acelerar pagamentos internacionais.
Para empresas brasileiras, essa distinção é relevante. A discussão atual não significa a existência de uma nova moeda do BRICS nem de um sistema de pagamentos já disponível para importadores e exportadores. Caso a interoperabilidade avance, entretanto, empresas que negociam com outros mercados emergentes poderiam passar a contar com novas alternativas para liquidação comercial. O efeito dependeria de questões como conversibilidade, custos, regulamentação, participação dos bancos e integração efetiva entre as infraestruturas financeiras nacionais.
O tamanho das relações econômicas dentro do bloco ajuda a explicar o interesse em reduzir essas fricções. A Emirates News Agency informou que o comércio não petrolífero dos Emirados Árabes Unidos com os países do BRICS ultrapassou US$ 312 bilhões em 2025, crescimento de 28,5% em relação ao ano anterior. O volume representou mais de 30% de todo o comércio não petrolífero do país, mostrando como alguns integrantes já concentram uma parcela relevante de suas relações comerciais dentro do agrupamento.
Apesar desse avanço, o comércio entre os membros ainda apresenta grandes desequilíbrios. De acordo com o Economic Times, as trocas de mercadorias da Índia com os demais países do BRICS passaram de US$ 203,1 bilhões no ano fiscal de 2021 para US$ 417,5 bilhões em 2026, mas as importações avançaram muito mais rapidamente do que as exportações. As compras indianas atingiram US$ 321,8 bilhões, enquanto as vendas ficaram em US$ 95,7 bilhões, levando o déficit da Índia com o bloco a US$ 226,1 bilhões, mais de três vezes os US$ 74,5 bilhões registrados cinco anos antes.
China, Emirados Árabes Unidos e Rússia responderam juntos por quase 84% das importações indianas provenientes do BRICS em 2026.
A concentração reforça um desafio que acompanha a tentativa de ampliar o comércio dentro do grupo: o crescimento das trocas não ocorre de maneira equilibrada. No conjunto, as 11 economias exportaram US$ 5,67 trilhões em mercadorias em 2025, mas apenas cerca de US$ 1,1 trilhão teve como destino outros integrantes do próprio BRICS. O espaço para expansão existe, portanto, ao lado de disputas por acesso a mercados, redução de barreiras e diversificação de fornecedores.
É nesse cenário que a relação com a Índia ganha importância para o Brasil. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que a corrente bilateral chegou a US$ 10,1 bilhões entre janeiro e julho de 2026, uma alta de 32,9% sobre igual período do ano anterior. As exportações brasileiras alcançaram US$ 5,89 bilhões, um avanço de 82,1%. Em 2025, o comércio bilateral já havia atingido US$ 15,2 bilhões, com crescimento de 25,4%.
A pauta brasileira para a Índia também ajuda a mostrar onde podem surgir oportunidades comerciais. Petróleo, óleos vegetais, minério de ferro, açúcares e algodão têm participação relevante, enquanto produtos hortícolas, matérias plásticas, bombas, centrífugas e compressores de ar, máquinas não elétricas e itens de perfumaria estiveram entre os produtos que ampliaram vendas recentemente.
Ao mesmo tempo, Brasil e Índia discutem a expansão do acordo comercial entre Mercosul e Índia, além de acesso a mercados, barreiras comerciais, diversificação das exportações e investimentos.
Assim, para o comércio exterior brasileiro, a agenda econômica do BRICS tem duas dimensões distintas. A primeira ainda depende de desenvolvimento institucional, como a interoperabilidade entre moedas digitais e as novas iniciativas de inteligência artificial. A segunda já aparece nos fluxos comerciais, principalmente na expansão da relação Brasil–Índia.
Nesse contexto, o avanço do bloco pode criar novas condições institucionais, mas a possibilidade de ganho para exportadores brasileiros continuará dependendo de fatores mais concretos, como demanda, tarifas, barreiras, logística, meios de pagamento e competitividade de cada produto.
FUP Explica
A cúpula de Nova Delhi mostra que o BRICS segue tentando transformar peso econômico coletivo em mecanismos concretos de cooperação, mas o caminho entre proposta e realidade ainda é longo. No campo dos pagamentos, a ideia de conectar CBDCs é politicamente atraente para países que querem reduzir dependência do sistema financeiro ocidental, mas esbarra em desconfiança mútua entre os próprios membros, como a tensão entre Índia e China e o isolamento financeiro do Irã. Enquanto isso não se resolve, importadores e exportadores brasileiros seguem operando nos mesmos trilhos de sempre.
No campo comercial, os números revelam uma assimetria importante: o bloco cresce em volume de trocas, mas a distribuição é concentrada. A Índia, por exemplo, compra muito mais do que vende dentro do BRICS, e a China domina esse fluxo. Para o Brasil, isso significa que a agenda do bloco não se traduz automaticamente em mercado aberto: cada ganho depende de negociação produto a produto, tarifa a tarifa. O crescimento de 82,1% nas exportações brasileiras para a Índia em 2026 é real e expressivo, mas reflete uma relação bilateral em construção, não um efeito direto da arquitetura do BRICS.
A proposta chinesa de uma zona de IA de código aberto e o fórum de comércio de serviços previsto para 2027 apontam para uma disputa de influência tecnológica dentro do próprio bloco. Para o Brasil, que ainda não tem posição consolidada nessa frente, o risco é participar da conversa sem capacidade de moldar as regras. A curto prazo, o que importa para quem opera no comércio exterior é acompanhar o avanço das negociações Mercosul-Índia e monitorar se as discussões sobre pagamentos saem do papel, porque são esses dois trilhos que têm potencial de mudar condições concretas de negócio.




