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Tráfego volta a crescer em Ormuz enquanto EUA e Arábia Saudita reforçam cerco ao Irã
Geopolítica

Tráfego volta a crescer em Ormuz enquanto EUA e Arábia Saudita reforçam cerco ao Irã

31/07/2026·893 palavras

O Estreito de Ormuz voltou a registrar movimento crescente de embarcações no fim de julho de 2026, mesmo com a retomada das hostilidades entre Estados Unidos e Irã e a imposição de novas sanções americanas a petroleiros e seguradoras ligadas ao regime iraniano. A combinação de três movimentos simultâneos, a recuperação parcial do tráfego, o aperto das sanções e a articulação de uma coalizão naval saudita, redesenha o cenário de risco nas principais rotas de energia do Oriente Médio.

Segundo a empresa de inteligência de mercado Kpler, 14 embarcações transportando commodities atravessaram o Estreito de Ormuz nos dois sentidos em 29 de julho de 2026, número superior ao registrado na semana anterior, quando o movimento ficou abaixo de dez navios por dia, conforme apuração do Transporte Moderno. Os dados ainda podem ser revisados conforme novas informações sejam incorporadas, de acordo com ressalva da própria Kpler.

Na madrugada de 30 de julho, o navio Al Areesh deixou o Golfo Pérsico com uma carga de gás natural liquefeito do Catar, sendo a primeira exportação catariana em três semanas. No mesmo período, o transportador de gás liquefeito de petróleo CYH Yongchun cruzou o estreito com o transponder aparentemente desligado, de acordo com dados de rastreamento citados pelo mesmo veículo. De forma preliminar, um superpetroleiro foi reservado para carregar petróleo em um porto não identificado do Golfo Pérsico com destino à China, com fretamento fechado por cerca de US$ 500 mil por dia.

O secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, confirmou à Bloomberg Radio que as Forças Armadas americanas estão escoltando embarcações pelo estreito. Wright informou que cerca de 6,5 milhões de barris de petróleo por dia deixaram o Golfo Pérsico pela passagem na última semana, dado de 30 de julho de 2026.

O contexto imediato é de instabilidade persistente. O conflito entre EUA e Irã havia se intensificado em meados de julho com ataques americanos contra território iraniano e retaliações de Teerã contra países da região, incluindo o Kuwait, o que provocou queda acentuada no tráfego pelo estreito. Uma breve trégua foi seguida pela retomada das hostilidades, mas o fluxo de navios voltou a crescer mesmo assim.

Em 30 de julho de 2026, o Departamento do Tesouro dos EUA emitiu uma nova rodada de sanções relacionadas ao Irã, segundo o Portal Portuário, com base em apuração da Reuters. A Ofac (Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros) designou dez entidades e oito petroleiros adicionais. Entre as entidades sancionadas estão a Persian Gulf Marine Insurance Co. e a HormuzSafe Marine Services Authority, descritas pelo Tesouro como parte de um esquema para extrair ativos digitais e outras receitas de navios em trânsito pelo estreito por meio de apólices de seguro.

O secretário do Tesouro, Scott Bessent, justificou as medidas afirmando que o Irã enfrenta "uma economia em queda livre e inflação de três dígitos" e está "desesperado por caixa". Bessent declarou ainda que os EUA "não permitirão que o Irã mantenha o comércio mundial como refém nem que utilize o transporte marítimo internacional para financiar o terrorismo, a agressão e a repressão do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica".

Jess Hoversen, ex-funcionária da Ofac e economista-chefe do banco digital Column, avaliou, que a Ofac tem atuado em "ritmo operacional", sancionando logística marítima, infraestrutura de câmbio e redes de aquisição em paralelo à intensificação dos ataques militares. Desde o início de 2026, a Ofac sancionou mais de 100 embarcações vinculadas à chamada "frota paralela" iraniana, utilizada para manter o fluxo de receitas petrolíferas do país a despeito das restrições internacionais. As oito embarcações desta rodada se somam a esse total acumulado.

A designação pela Ofac impede que entidades americanas ou que operem em dólares mantenham qualquer relação comercial com as empresas e embarcações listadas.

Arábia Saudita articula coalizão no Mar Vermelho

Enquanto isso, a Arábia Saudita formalizou, em 31 de julho de 2026, a proposta de criação de uma coalizão multinacional de defesa marítima voltada à proteção da navegação no Mar Vermelho, com base em apuração da Reuters. A iniciativa surge em resposta direta aos ataques dos Houthis, milícia iemenita alinhada ao Irã, que vêm perturbando o corredor.

O Ministério da Defesa saudita confirmou que delegados de 43 países e da União Europeia participaram de um encontro para avaliar a proposta. Quatorze nações assinaram uma declaração conjunta de apoio, entre elas Turquia, Paquistão, Egito, Sudão e Djibuti. Notavelmente, Omã e os Emirados Árabes Unidos, ambos membros do Conselho de Cooperação do Golfo, não figuraram entre os signatários.

Os objetivos declarados da aliança incluem garantir o livre trânsito náutico, resguardar as rotas do comércio internacional e do abastecimento de energia, e proteger os interesses marítimos no Estreito de Bab el-Mandeb e no Golfo de Áden. Em 20 de julho de 2026, os Houthis haviam declarado um bloqueio naval à Arábia Saudita no Mar Vermelho, anunciando o fechamento do Estreito de Bab el-Mandeb às embarcações sauditas, conforme cobertura anterior da FUP. Em resposta, a Arábia Saudita realizou bombardeios aéreos contra instalações militares houthis na cidade iemenita de Hodeida.

Alguns petroleiros foram vistos entrando no Golfo de Áden com intenção de atracar no porto saudita de Yanbu, apesar da ameaça houthi, enquanto compradores asiáticos passaram a retirar cargas no porto egípcio de Sidi Kerir, no Mediterrâneo, terminal utilizado pela Arábia Saudita para exportação de petróleo bruto. A estrutura operacional, o financiamento e as regras de engajamento da coalizão ainda não foram divulgados.

FUP Explica

O que se vê no fim de julho de 2026 é uma crise de dois chokepoints ao mesmo tempo: o Estreito de Ormuz, por onde passa parcela expressiva do petróleo mundial, e o Estreito de Bab el-Mandeb, porta de entrada do Mar Vermelho para o Oceano Índico. Quando os dois pontos operam sob ameaça simultânea, o mercado de energia não tem rota alternativa fácil, e o custo de frete e seguro marítimo sobe para qualquer embarcação que precise passar por um deles.

A retomada parcial do tráfego em Ormuz, com escolta militar americana, reduz o risco imediato de desabastecimento, mas não elimina a incerteza. O fretamento de superpetroleiro a US$ 500 mil por dia é um termômetro claro de quanto o mercado ainda precifica o risco da rota. As novas sanções da Ofac, por sua vez, encolhem ainda mais a oferta de petroleiros disponíveis para o Golfo Pérsico, porque embarcações listadas ficam fora do sistema financeiro em dólar e seguradoras convencionais não as cobrem. Com mais navios sancionados e menos oferta de cobertura de seguro legítima, os fretes tendem a se manter pressionados mesmo que o tráfego físico aumente.

A coalizão saudita está em fase embrionária e enfrenta resistências dentro do próprio Conselho de Cooperação do Golfo, com Omã e Emirados de fora. Isso limita sua capacidade operacional imediata, mas o simples anúncio com 43 países na sala já sinaliza que a Arábia Saudita quer internacionalizar a resposta aos Houthis em vez de agir sozinha. Para o Brasil, que importa petróleo e derivados e exporta commodities agrícolas por rotas que dependem do Canal de Suez e do Mar Vermelho, qualquer normalização duradoura dessas passagens alivia custos de frete e reduz o prêmio de risco embutido nos seguros marítimos.

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