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Setor produtivo considera corte da Selic insuficiente para destravar investimentos
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Setor produtivo considera corte da Selic insuficiente para destravar investimentos

06/08/2026·579 palavras

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a taxa Selic de 14,25% para 14,00% ao ano na reunião dos dias 4 e 5 de agosto de 2026, corte de 0,25 ponto percentual, conforme publicado pelo Monitor Mercantil. A decisão confirmou o cenário que os contratos de Opções de Copom negociados na B3 precificavam como majoritário, com probabilidade de 75,5% atribuída a esse movimento.

A reação do setor produtivo foi de reconhecimento cauteloso. A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) afirmou que o corte é positivo, mas que o nível ainda elevado da taxa mantém o crédito caro e restringe os investimentos e a expansão industrial. Para a entidade, a redução gradual é necessária, porém insuficiente para alterar de forma consistente o quadro de restrição enfrentado pelo setor.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) adotou posição semelhante já na reunião anterior do Copom, em junho de 2026, quando a Selic foi reduzida para 14,25%. Na ocasião, classificou aquele corte como incapaz de reverter o cenário de estagnação e asfixia financeira, conforme reportado pela CNN Brasil. O presidente da CNI, Ricardo Alban, declarou que "enquanto os juros reais continuarem tão elevados, beneficiando diretamente o capital especulativo, o custo do crédito vai seguir inviabilizando os planos de produção e expansão da indústria". A entidade estimou, em junho, que o patamar de 14,25% ainda estava 3,1 pontos percentuais acima da taxa de equilíbrio, que a CNI calcula em 11,1%.

A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) reconheceu melhora nas condições de crédito e investimento após o corte de junho, mas ressaltou que os desafios permanecem elevados para setores dependentes de financiamento. A Força Sindical, por sua vez, chamou o corte de agosto de "ajustinho econômico" com impacto muito limitado sobre a economia. Em nota assinada pelo presidente Miguel Torres, a entidade afirmou que "juros estratosféricos representam um mecanismo de concentração de renda nas mãos de banqueiros e especuladores".

Endividamento das empresas e desempenho industrial

Os dados divulgados pela CNI em junho de 2026 ajudam a dimensionar o cenário de fundo. Segundo a Serasa Experian, o Brasil atingiu a marca de 9 milhões de CNPJs negativados em abril de 2026, aumento de 1,5 milhão em um ano, com dívidas totalizando R$ 221 bilhões. Desse total, 8,5 milhões são micro e pequenas empresas. No âmbito das famílias, o endividamento compromete cerca de 50% da renda acumulada, e 30% do orçamento mensal é destinado ao pagamento de juros e amortizações.

O Sebrae-SP aponta, em publicação no Diário do Comércio, que a Selic elevada desacelera a atividade econômica ao reduzir consumo e investimentos e encarecer o capital de giro, e que micro e pequenas empresas sentem mais esse efeito por dependerem mais de financiamento, terem menos garantias e pagarem spreads mais altos.

No campo do desempenho setorial, a indústria de transformação cresceu apenas 0,4% no primeiro semestre de 2026, segundo o IBGE. A Firjan acrescenta que o ambiente externo continua desafiador, com tensões geopolíticas, volatilidade de commodities e incertezas no comércio internacional pressionando cadeias produtivas e custos de insumos.

O Banco Central, em estudo sobre o mecanismo de transmissão da Selic às taxas de crédito, aponta que mesmo reduções integralmente repassadas ao custo de captação resultam em queda percentual menor nas taxas finais cobradas ao tomador, pois a Selic é apenas um dos componentes na formação do custo total. Quanto maior a inadimplência em determinada modalidade, menor o impacto relativo do corte sobre a taxa final.

FUP Explica

O corte de 0,25 ponto percentual confirma um ciclo de afrouxamento monetário, mas o ritmo lento é o ponto central do debate. Com a Selic em 14%, os juros reais brasileiros continuam entre os mais altos do mundo, o que significa que o custo do dinheiro para empresas e famílias ainda é proibitivo para quem precisa de crédito para investir ou manter o capital de giro. A CNI estima que a taxa ainda está 2,9 pontos percentuais acima do que considera o equilíbrio, ou seja, mesmo com o novo corte, a distância é grande.

O dado dos 9 milhões de CNPJs negativados, com dívidas de R$ 221 bilhões, mostra que o problema não é só de custo do crédito novo, mas de empresas que já estão presas em dívidas antigas contraídas num ambiente de juros altos. Para esse grupo, um corte de 0,25 ponto percentual tem efeito marginal. O mecanismo de transmissão descrito pelo próprio Banco Central reforça isso: a Selic é só um componente do custo final do crédito, e em modalidades com inadimplência alta, o repasse é ainda menor.

No médio prazo, o que importa é a trajetória, não o patamar de um único mês. Se o Copom mantiver o ciclo de cortes nas próximas reuniões, o efeito acumulado começa a aparecer no crédito e no investimento. Mas qualquer pressão inflacionária ou deterioração do cenário fiscal pode interromper esse ciclo, e aí o setor industrial volta a operar num ambiente de restrição prolongada.

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