
Imagem gerada por IA
Fed eleva juros pela primeira vez desde 2023 e desafia pressão de Trump por cortes
O Federal Reserve (Fed) elevou a taxa básica de juros dos Estados Unidos em 0,25 ponto percentual nesta quarta-feira (16), para a faixa de 3,75% a 4% ao ano, em resposta à persistência da inflação acima da meta de 2%. A decisão, aprovada por unanimidade pelos 12 integrantes do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC), marcou a primeira alta dos juros americanos desde julho de 2023.
A medida foi tomada durante a reunião de política monetária realizada nos dias 15 e 16 de setembro. O movimento também representou a primeira alteração dos juros em qualquer direção desde dezembro de 2025, quando o Fed havia reduzido a taxa.
O presidente do banco central americano, Kevin Warsh, afirmou após a reunião que a inflação permanece elevada há tempo excessivo e que a decisão busca favorecer um retorno mais rápido dos preços à meta estabelecida pelo Fed. “A inflação está alta demais e está assim há tempo demais”, declarou Warsh durante entrevista coletiva. O presidente do Fed classificou a decisão como “sóbria” e “responsável” e alertou para o risco de as expectativas de inflação perderem sua referência caso persista a alta dos preços.
As novas projeções do Fed indicam que a inflação medida pelo índice de preços dos gastos com consumo pessoal (PCE) deve terminar 2026 em 3,7%. A estimativa anterior, divulgada em junho, era de 3,6%. Para 2027, a projeção permaneceu em 2,3%.
Warsh afirmou que o banco central não consegue interferir diretamente em preços específicos, como os do petróleo ou dos alimentos, mas pode utilizar a política monetária para tentar impedir que essas altas se espalhem para outros setores da economia.
A avaliação do Fed é de que a economia americana permanece suficientemente resistente para absorver o aumento dos juros. As projeções divulgadas após a reunião elevaram a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos em 2026 de 2,2% para 2,3%. Para 2027, a previsão passou de 2,3% para 2,4%. A estimativa para a taxa de desemprego ficou em 4,1% tanto para 2026 quanto para 2027. Em junho, o Fed projetava desemprego de 4,3% para os dois anos.
As projeções apresentadas pelo FOMC indicam a possibilidade de um novo aumento dos juros antes do fim de 2026. A maioria dos integrantes do comitê prevê que a taxa básica alcance a faixa de 4% a 4,25% até dezembro.
O Fed ainda realizará duas reuniões de política monetária neste ano. Warsh, no entanto, evitou antecipar qual será a decisão do banco central e afirmou que não pretende fornecer indicações antecipadas sobre os próximos movimentos dos juros.
Para 2027, uma pequena maioria dos integrantes do FOMC projeta que a taxa poderá chegar à faixa de 4,25% a 4,50%. As projeções indicam posteriormente o início de reduções dos juros em 2028 e 2029, período em que a inflação também deve recuar gradualmente em direção à meta de 2%.
Alguns economistas questionam a necessidade do aumento anunciado nesta quarta-feira. Segundo a CGTN, esses analistas argumentam que parte das pressões recentes sobre os preços decorre de choques temporários ou de problemas de oferta, em vez de um excesso de demanda na economia americana.
Trump critica decisão do banco central
A alta dos juros ocorreu em meio a divergências entre o Federal Reserve e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que vinha defendendo publicamente a redução das taxas.
Antes da decisão, Trump afirmou no Truth Social que os juros americanos deveriam ficar em 1% ou menos. “REDUZAM AS TAXAS DE JUROS PARA OS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, E RÁPIDO!”, escreveu o presidente. Após o anúncio, Trump afirmou que continua confiando pessoalmente em Warsh, mas criticou o Conselho do Federal Reserve, responsável pelas decisões sobre os juros.
“Estou confiando em Kevin, mas ele tem um conselho muito difícil”, declarou Trump, segundo a BBC. O presidente americano classificou o colegiado como “hostil” e “muito político”. Warsh evitou entrar em confronto direto com Trump. Ao ser questionado sobre as pressões exercidas pelo presidente, afirmou que a independência do Fed é uma “via de mão dupla” e que os integrantes da instituição permanecem dentro de suas atribuições.
Warsh assumiu a presidência do Federal Reserve em maio de 2026, depois de ter sido indicado por Trump no início do ano. Ele substituiu Jerome Powell, que havia sido alvo de críticas recorrentes do presidente americano por sua condução da política monetária.
A decisão do Fed começou a repercutir sobre o custo do crédito nos Estados Unidos. JPMorgan, KeyCorp e BNY elevaram suas taxas preferenciais de empréstimos de 6,75% para 7% após o anúncio.
A alteração pode influenciar os juros cobrados em cartões de crédito e empréstimos pessoais. Taxas básicas mais elevadas tendem a encarecer o crédito e desestimular o consumo e os investimentos, mecanismos utilizados pelos bancos centrais para reduzir as pressões inflacionárias.
Os principais índices acionários americanos recuaram após o anúncio do Federal Reserve. O rendimento dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos com vencimento em dez anos avançou 2 pontos-base, para 5,012%, enquanto o dos papéis de 30 anos recuou 0,5 ponto-base, para 5,357%. O índice do dólar subiu 0,6%, para 100,3, segundo a CGTN.
A decisão também levou instituições financeiras a revisar suas expectativas para a política monetária americana. Goldman Sachs, JPMorgan Chase e Morgan Stanley passaram a considerar um aperto monetário adicional.
Apesar da sinalização de juros mais elevados, Warsh não indicou que o aumento desta semana necessariamente dará início a uma sequência prolongada de altas. O presidente do Fed afirmou que as próximas decisões dependerão da evolução da inflação e das condições da economia americana.
FUP Explica
A alta do Fed em setembro de 2026 não é um evento isolado: ela encerra um ciclo de estabilidade que durou cinco reuniões e sinaliza, pelo dot plot divulgado junto à decisão, que a maioria dos dirigentes quer apertar ainda mais antes do fim do ano. Isso muda o ambiente financeiro internacional de forma relevante. Juros mais altos nos EUA tornam os títulos do Tesouro americano mais atrativos em relação a ativos de mercados emergentes, o que pressiona o real para baixo e encarece o dólar para quem precisa dele, seja para importar insumos, pagar dívidas em moeda estrangeira ou fechar câmbio em operações de comércio exterior.
O problema para o Brasil é que o movimento acontece no sentido oposto ao da política monetária doméstica: o Copom cortou a Selic no mesmo dia em que o Fed subiu os juros, reduzindo o diferencial entre as duas taxas. Menos diferencial significa menos incentivo para o capital estrangeiro ficar aplicado em ativos brasileiros, o que tende a ampliar a pressão sobre o câmbio além do efeito direto da alta americana. Flávio Serrano, economista-chefe do Banco BMG, avaliou ao Money Times que o exterior deve continuar ditando o desempenho do Ibovespa nesse ambiente.
No plano político, a tensão entre Trump e o Fed adiciona uma camada de incerteza. Warsh resistiu à pressão pública do presidente e entregou uma decisão unânime, o que reforça a credibilidade institucional do banco central americano no curto prazo. Mas o histórico de conflito entre o Executivo e o Fed, e o fato de Trump ter classificado o conselho como "hostil" e "muito político", mantém viva a dúvida sobre até onde vai a independência operacional da instituição nas próximas reuniões, especialmente se a economia americana desacelerar e a pressão política por cortes se intensificar.




