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Reino Unido volta a discutir possível retorno à União Europeia
Governo avalia alternativas para reduzir entraves ao comércio e reforçar a cooperação migratória; pesquisa indica 59% de apoio à reintegração, mas adesão dependeria de contrapartidas
Dez anos após o referendo que decidiu pela saída britânica da União Europeia, o primeiro-ministro Andy Burnham reabriu o debate sobre uma possível volta ao bloco. Durante a conferência do Partido Trabalhista, em Liverpool, em 29 de setembro, e em entrevistas no dia seguinte, ele anunciou que pretende avaliar diferentes caminhos para a relação com os parceiros europeus, argumentando que o Brexit prejudicou a economia e a cooperação migratória. As opções deverão ser apresentadas em torno de uma cúpula bilateral prevista para novembro.
Segundo a Reuters, Burnham afirmou que a saída trouxe mais prejuízos do que benefícios e não cumpriu a promessa de devolver controle ao país. Entre as alternativas estão manter a relação atual, participar de uma união aduaneira, retornar ao mercado único ou recuperar a condição de membro. O premiê, porém, indicou que uma decisão sobre um novo referendo ainda está distante e vinculou a discussão a um plano de dez anos para o país.
A proposta encontra uma opinião pública mais favorável à aproximação. Pesquisa da YouGov, realizada em 24 e 25 de setembro e divulgada no dia 30, mostrou que 59% dos britânicos apoiam o retorno ao bloco, enquanto 32% se opõem. O apoio era de 51% em janeiro de 2024, quando essa pergunta começou a ser feita no formato atual.
O maior respaldo, contudo, é para estreitar os laços sem retornar à União Europeia, ao mercado único ou à união aduaneira: 73% apoiam essa possibilidade e 15% são contrários. Entre os eleitores que votaram pela saída em 2016, 64% defendem essa aproximação. A disposição para recuperar a adesão plena tem limites: em um levantamento separado, predominou a oposição ao retorno caso o país não pudesse manter as exceções às regras europeias de que dispunha anteriormente.
Enquanto Burnham apresenta as alternativas, seus assessores procuram medir o alcance político da iniciativa. De acordo com o The Guardian, integrantes de Downing Street estão consultando institutos de pesquisa e especialistas sobre a reação dos eleitores a uma eventual promessa de retorno no próximo programa trabalhista. Alguns defendem o compromisso de negociar a readmissão; outros temem que a pauta fortaleça Nigel Farage e o Reform UK.
A reação europeia combina receptividade e cobrança. O presidente francês, Emmanuel Macron, considerou positiva uma eventual volta britânica, mas advertiu que Londres não poderia escolher apenas os benefícios desejados e rejeitar as demais obrigações. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, também manifestou disposição para receber o país de volta. Um porta-voz da União Europeia afirmou que o bloco permanece aberto a discutir as propostas britânicas.
Os obstáculos comerciais ajudam a explicar a busca por uma relação mais próxima. Em análise publicada pelo Channel 4 News, Georg von Harrach destacou a burocracia e os custos enfrentados por empresas britânicas para exportar ao continente, especialmente no setor de alimentos e bebidas. Nesse contexto, Shevaun Haviland, diretora-geral das Câmaras de Comércio Britânicas, defendeu um plano duradouro para tornar as vendas ao principal mercado de exportação do país mais simples, baratas e rápidas.
Entre os caminhos discutidos está o modelo norueguês, que permite participar do mercado único sem integrar formalmente o bloco. Em contrapartida, exige aceitar grande parte das normas europeias e fazer contribuições financeiras, com influência limitada sobre as decisões. Burnham reconheceu que melhorar o acesso de determinadas indústrias pode depender da aceitação de regras europeias e disse querer saber se os eleitores apoiariam essa troca.
A revisão confronta compromissos assumidos pelos trabalhistas na eleição de 2024, que excluíam o retorno ao bloco, ao mercado único e à união aduaneira. O Reform UK acusou Burnham de tentar conduzir o país de volta a Bruxelas, enquanto os conservadores contestaram a atribuição dos problemas econômicos ao Brexit. A saída foi aprovada no referendo de 2016, após mais de quatro décadas de participação britânica na União Europeia.
FUP Explica
O movimento de Burnham é, antes de tudo, um cálculo político de alto risco. A proposta confronta promessas feitas pelos trabalhistas na eleição de 2024 e pelo próprio premiê durante sua campanha para voltar ao Parlamento, o que abre flanco para acusações de inconsistência. Ao mesmo tempo, os dados do TMG sugerem que apostar na reintegração poderia render até 7 pontos percentuais ao partido nas próximas eleições, o que explica por que assessores de Downing Street estão medindo o terreno com institutos de pesquisa antes de qualquer compromisso formal.
O problema é que o apoio público é mais largo do que profundo. A YouGov mostra 59% favoráveis ao retorno pleno, mas 73% preferem apenas estreitar laços sem aderir formalmente ao bloco, ao mercado único ou à união aduaneira. Isso indica que a maioria dos britânicos quer os benefícios da proximidade com a UE sem as obrigações que vêm com ela, exatamente o que Macron avisou que não será possível. Qualquer avanço real na negociação vai exigir concessões que parte do eleitorado, incluindo ex-apoiadores do Brexit hoje favoráveis à aproximação, pode rejeitar quando confrontada com os detalhes.
No plano econômico e comercial, a motivação é concreta: o próprio Escritório de Responsabilidade Orçamentária britânico reconheceu que os ganhos dos acordos pós-Brexit foram insignificantes frente ao aumento de barreiras com a UE, o principal mercado do país. Para o comércio exterior, qualquer avanço nessa direção, seja uma união aduaneira, seja o retorno ao mercado único, reduziria custos e burocracia para exportadores britânicos, especialmente em setores como alimentos e bebidas. O risco político interno, porém, é que o debate revigore o Reform UK de Farage, que já tem explorado o tema para se posicionar como guardião do Brexit, e fragmente ainda mais o campo conservador.




