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Em meio a alertas sobre um El Niño extremo, entenda o fenômeno que volta a preocupar o mundo
Geopolítica

Imagem: Mílton Jung

Em meio a alertas sobre um El Niño extremo, entenda o fenômeno que volta a preocupar o mundo

08/10/2026·866 palavras

Previsão de um episódio muito forte em 2026 reacende temores sobre secas, enchentes e ondas de calor e levanta uma questão: até que ponto a ação humana tem relação com o fenômeno?

Secas, enchentes, ondas de calor, incêndios e alterações no regime de chuvas e rios estão entre os possíveis efeitos associados ao El Niño que voltou a se fortalecer no Pacífico em 2026. Com previsões indicando que o episódio pode atingir intensidade muito forte até o fim do ano, alertas sobre suas consequências voltaram a ocupar espaço no noticiário, muitas vezes acompanhados da expressão “super El Niño”. Em meio às projeções sobre eventos extremos e seus riscos para a população, uma pergunta acaba ficando em segundo plano: afinal, o que é o El Niño, de onde ele veio e, diante de um planeta cada vez mais quente, somos responsáveis por ele?

Para entender essa história, é preciso começar pelo Pacífico Equatorial. O El Niño é a fase quente do El Niño-Oscilação Sul (ENSO), um fenômeno climático natural produzido pela interação entre o oceano e a atmosfera. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (WMO), ele ocorre quando temperaturas anormalmente elevadas nas águas superficiais das regiões central e oriental do Pacífico aparecem associadas a mudanças na atmosfera. Não se trata, portanto, apenas de água mais quente: ventos, pressão atmosférica, circulação do ar e transporte de umidade também sofrem alterações.

É justamente essa combinação que permite que uma mudança iniciada no Pacífico interfira no clima a milhares de quilômetros de distância.

Ao reorganizar a circulação atmosférica, o El Niño modifica as probabilidades de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta. Sua fase oposta é a La Niña, marcada pelo resfriamento anormal das águas do Pacífico Equatorial, enquanto entre os dois extremos existe a fase neutra. Os episódios costumam ocorrer em intervalos de dois a sete anos, sem calendário regular, e seus efeitos variam conforme intensidade, duração, época do ano e interação com outros sistemas climáticos.

Embora “super El Niño” seja uma expressão recorrente fora do meio científico, a WMO não utiliza essa classificação e divide os episódios em categorias como fraco, moderado, forte e muito forte. O evento atual chama atenção justamente por estar avançando para o extremo superior dessa escala. Em setembro, previsões indicavam que o fenômeno continuaria se fortalecendo nos meses seguintes e poderia alcançar intensidade muito forte antes de atingir seu pico no fim de 2026.

Mas, se eventos tão intensos acontecem em um período marcado pelo aquecimento do planeta, seria o El Niño mais uma consequência da ação humana? Para encontrar parte dessa resposta, é preciso voltar milhares de anos no tempo.

Um estudo publicado em 2026 na revista científica Global and Planetary Change, baseado na análise de corais fósseis, reconstruiu mais de 2,2 mil anos de variabilidade climática dentro de um período situado entre aproximadamente 5,8 mil e 2,6 mil anos atrás. Os pesquisadores encontraram evidências da variabilidade do ENSO muito antes da industrialização e apontaram a dinâmica interna do próprio sistema climático como seu principal motor naquele período.

O próprio nome surgiu muito depois. Pescadores e navegadores peruanos perceberam que, em determinados períodos, águas excepcionalmente quentes apareciam próximas à costa perto do Natal e vinham acompanhadas de mudanças nas condições de pesca. A corrente recebeu o nome “El Niño”, em referência ao menino Jesus. Somente com o avanço da meteorologia e da oceanografia ficou claro que aquela alteração observada no litoral peruano fazia parte de uma interação muito maior entre o Pacífico e a atmosfera.

A existência do fenômeno milhares de anos antes da Revolução Industrial permite responder a uma parte da pergunta: a atividade humana não criou o El Niño. Isso, no entanto, não significa que o aquecimento provocado pelas emissões de gases de efeito estufa esteja fora dessa história.

Uma análise publicada na Nature Reviews Earth & Environment identificou aumento da variabilidade das temperaturas da superfície do mar associadas ao ENSO desde 1960. Mais de três quartos dos modelos climáticos avaliados reproduziram esse crescimento, enquanto grandes conjuntos de simulações apontaram aumento de aproximadamente 10% que não seria explicado somente pela variabilidade interna do sistema climático. Os pesquisadores ressaltam, contudo, que novos estudos ainda são necessários para determinar com maior segurança quanto desse comportamento pode ser atribuído às mudanças climáticas.

A WMO também mantém cautela nessa relação e afirma que ainda não há evidências de que as mudanças climáticas estejam aumentando diretamente a frequência ou a intensidade dos eventos de El Niño. Há, porém, outro componente importante: mesmo sendo natural, o fenômeno agora acontece em um planeta mais quente. Oceanos e atmosfera aquecidos disponibilizam mais energia e umidade para o sistema climático, condições que podem potencializar extremos associados ao El Niño, como ondas de calor e episódios de chuva intensa.

É justamente aí que a discussão atual ganha outra dimensão. O El Niño não nasceu das emissões humanas e acompanha o sistema climático há milênios, mas os efeitos de um fenômeno natural não acontecem isoladamente das condições do planeta. A ciência agora tenta determinar quanto um clima aquecido pela atividade humana pode modificar seu comportamento e tornar algumas de suas consequências mais severas, uma diferença essencial para compreender por que um fenômeno tão antigo continua despertando preocupações cada vez mais atuais.

FUP Explica

O ponto central desta notícia não é político nem econômico no sentido imediato, mas tem peso social e institucional relevante. Um El Niño classificado como muito forte afeta diretamente a vida de populações em várias regiões, especialmente as mais vulneráveis a secas e enchentes. No Brasil, isso tende a se traduzir em pressão sobre abastecimento de água, produção agrícola e geração de energia hidrelétrica, setores que já convivem com instabilidade climática crescente. Quanto mais intenso o episódio, maior a demanda por resposta do poder público, e a capacidade de antecipação dos governos depende diretamente da qualidade das previsões e da comunicação científica.

Há também uma dimensão institucional importante no texto: a distinção entre o que a ciência confirma e o que ainda está em aberto. A WMO afirma que não há evidências de que as mudanças climáticas aumentem diretamente a frequência ou a intensidade dos eventos de El Niño, mas reconhece que um planeta mais quente pode amplificar seus efeitos. Essa nuance tende a se perder no noticiário, que frequentemente usa o rótulo "super El Niño" sem a precisão técnica que a própria WMO rejeita. Para quem toma decisões com base em previsões climáticas, seja no setor público ou privado, essa diferença entre o que é confirmado e o que é possível não é detalhe: é o que separa uma resposta proporcional de um alarme mal calibrado.

Por fim, o texto aponta que a ciência ainda está tentando quantificar quanto o aquecimento provocado pela ação humana modifica o comportamento do El Niño. Isso significa que as respostas mais precisas ainda estão por vir, e que as políticas de adaptação climática precisam ser desenhadas com essa incerteza em mente, sem subestimar os riscos nem tratar projeções como certezas.

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