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Petróleo russo e agricultura travam acordo comercial entre Índia e EUA
Washington ameaça impor tarifas de até 100% aos produtos indianos, enquanto Nova Délhi tenta proteger setores sensíveis e obter condições mais favoráveis para suas exportações
As negociações para um acordo comercial entre Índia e Estados Unidos voltaram a esbarrar em divergências nesta semana, apesar de meses de conversas entre os dois países. De um lado, Washington pressiona Nova Délhi a reduzir as compras de petróleo russo e abrir setores do mercado agrícola; do outro, o governo indiano tenta proteger segmentos considerados sensíveis e garantir melhores condições para suas exportações ao maior mercado externo do país. O impasse ocorre após um entendimento firmado em fevereiro ter criado a expectativa de avanço nas tratativas.
A dificuldade em chegar a um consenso foi reconhecida pelos dois governos. Ao The Hindu, a ministra das Finanças da Índia, Nirmala Sitharaman, afirmou que as negociações chegaram a um “platô”, enquanto o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, declarou que um acordo não é iminente. Na semana passada, o ministro indiano do Comércio, Piyush Goyal, reuniu-se com Greer durante um encontro ministerial do G20 nos Estados Unidos e disse que as discussões foram produtivas e buscaram uma conclusão antecipada para um acordo provisório.
A pressão aumentou com uma nova legislação americana que abre caminho para tarifas de até 100% sobre produtos indianos em razão das compras de petróleo russo. Nova Délhi não reduziu significativamente essas importações e sustenta que a escolha de fornecedores é determinada pelas necessidades energéticas de uma população superior a 1,4 bilhão de habitantes. Segundo a Reuters, o petróleo russo ganhou espaço depois da invasão da Ucrânia por ser comercializado com descontos, enquanto os conflitos no Oriente Médio e as interrupções no abastecimento reforçaram as preocupações indianas com segurança energética.
O risco tarifário ganha peso porque os Estados Unidos são o maior mercado das exportações indianas. Entre abril e agosto, os embarques de mercadorias para o país chegaram a US$ 42,79 bilhões, acima dos US$ 40,39 bilhões registrados no mesmo período do ano anterior. No ano fiscal de 2025/26, a Índia acumulou superávit comercial de quase US$ 34 bilhões com os americanos. Medicamentos genéricos e smartphones, duas categorias importantes da pauta exportadora, não estão sujeitos atualmente à tarifa básica de 10%.
Além do petróleo, a abertura do mercado agrícola permanece como um dos principais entraves. Washington busca melhores condições de acesso para seus produtos, enquanto Nova Délhi tenta manter laticínios, aves, arroz, trigo e outros alimentos fora dos compromissos mais abrangentes de liberalização. Frutas e castanhas também estão entre as categorias discutidas, com a possibilidade de concessões limitadas por parte da Índia em troca de tratamento preferencial para seus exportadores.
A BMI, unidade da Fitch, avaliou à FreshPlaza que a Índia deve resistir a concessões de maior custo se os Estados Unidos não oferecerem uma vantagem clara em relação aos concorrentes. A tarifa efetiva indiana sobre produtos americanos está em 13,6%, ante o patamar de aproximadamente 35% considerado no início das negociações. Uma alternativa seria fechar um acordo provisório mais restrito, com reduções tarifárias em setores específicos, e deixar os temas agrícolas mais sensíveis para negociações posteriores.
Outro fator dificulta a definição das condições comerciais. Os Estados Unidos ainda conduzem uma investigação pela Seção 301 sobre países acusados de excesso de capacidade industrial, para avaliar se essa produção prejudica ou reduz a competitividade das empresas americanas. Enquanto o processo não for concluído, a Índia não sabe quais tarifas adicionais poderão atingir seus produtos, o que reduz a margem para oferecer concessões sem conhecer previamente as condições de acesso ao mercado americano.
O impasse comercial ocorre ainda em meio a desgastes políticos entre os dois países. Conforme a Modern Diplomacy, as relações foram pressionadas por um ataque militar americano contra uma embarcação próxima a Omã, que matou três marinheiros indianos, e pela rejeição de Nova Délhi às declarações do presidente Donald Trump de que teria intermediado um cessar-fogo entre Índia e Paquistão. Esses episódios acrescentaram tensão a uma negociação que já envolve interesses comerciais, energéticos e geopolíticos.
Apesar das diferenças, os canais de negociação permanecem abertos. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, deve visitar a Índia ainda neste mês, enquanto o primeiro-ministro Narendra Modi e Trump, que conversaram por telefone em 30 de setembro, devem voltar a discutir o andamento das tratativas. Modi também deve viajar aos Estados Unidos em dezembro para a reunião de líderes do G20. Até lá, a combinação entre tarifas, acesso ao mercado agrícola e petróleo russo continuará determinando as chances de um acordo.
FUP Explica
O que torna esse impasse relevante é a combinação de pressões que raramente aparecem juntas numa mesma negociação: sanções energéticas, abertura agrícola e desgaste diplomático, tudo ao mesmo tempo. Do lado econômico, o risco imediato para a Índia é concreto: os Estados Unidos absorvem uma fatia expressiva das exportações indianas, e tarifas de até 100% sobre produtos específicos poderiam afetar setores que hoje operam sem essa sobrecarga, como medicamentos genéricos e eletrônicos. A incerteza gerada pela investigação da Seção 301 agrava o problema, porque a Índia não consegue calcular o custo real de qualquer concessão que faça agora.
No plano político, a situação é delicada para o governo Modi. Abrir o mercado agrícola para produtos americanos toca num eleitorado sensível internamente, e qualquer recuo em laticínios, aves ou grãos pode ter custo político elevado. Por outro lado, manter as compras de petróleo russo expõe o país a represálias tarifárias que também pesam sobre a economia. O episódio dos marinheiros mortos e a disputa sobre o cessar-fogo com o Paquistão mostram que a relação bilateral carrega atritos que vão além do comércio e que podem contaminar as negociações mesmo quando há interesse mútuo em avançar.
A saída mais provável, segundo a própria BMI citada no texto, é um acordo provisório e restrito, que resolva o que for possível agora e empurre os temas mais espinhosos para rodadas futuras. Esse tipo de solução reduz o risco imediato de escalada tarifária, mas não elimina a incerteza de médio prazo, especialmente enquanto a investigação da Seção 301 seguir em aberto. As visitas previstas de Rubio e Modi nos próximos meses serão o termômetro mais claro de se as duas partes conseguem ao menos estabilizar o impasse antes que ele se agrave.




