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Reino Unido e Japão alertam para inflação persistente e pressão sobre juros
Negociações salariais preocupam dirigente britânica, enquanto autoridade japonesa aponta riscos ligados à energia, às matérias-primas e ao câmbio
Com os preços ainda pressionados, representantes dos bancos centrais do Reino Unido e do Japão reforçaram nesta terça-feira (6) a preocupação com a dificuldade de estabilizar a inflação. Em declarações em Londres e Tóquio, Catherine Mann, integrante do comitê de política monetária britânico, e Kazuo Ueda, presidente do Banco do Japão, apontaram riscos associados a salários, custos de produção e expectativas de preços, reforçando o debate sobre novas altas dos juros para manter a inflação em torno da meta de 2%.
Segundo a Reuters, Mann avalia que a inflação acima da meta se incorporou à economia britânica e pode se consolidar nas negociações salariais do início de 2027. Ueda, por sua vez, sinalizou que o banco central japonês continuará elevando os custos dos empréstimos para reduzir o estímulo monetário e evitar que as pressões inflacionárias prejudiquem a economia.
As declarações antecedem reuniões que podem trazer novos sinais sobre a trajetória das taxas. No Japão, o encontro de política monetária terminará em 30 de outubro, quando serão divulgadas projeções trimestrais de crescimento e inflação. No Reino Unido, os mercados financeiros já esperam uma mudança nos juros em novembro, após a manutenção das taxas desde o início da guerra no Irã.
A principal preocupação de Mann é a perspectiva de a inflação britânica alcançar cerca de 4% na virada do ano. Esse período concentra boa parte das negociações anuais de reajuste salarial, o que, na avaliação da dirigente, pode contribuir para prolongar a pressão sobre os preços e dificultar o retorno à meta.
Durante uma conferência organizada pela consultoria econômica TS Lombard, ela afirmou que a inflação permaneceu bem acima do objetivo do banco central desde sua entrada no comitê, em 2021. Mann já vinha defendendo uma resposta mais firme: nas reuniões de julho e setembro, votou por uma elevação de 0,25 ponto percentual nos juros.
Na semana anterior, a dirigente também criticou a comunicação da instituição em março, logo após o início da guerra. Para ela, o banco errou ao permitir que investidores entendessem que estava confortável em aguardar antes de elevar as taxas. Outros integrantes do comitê acompanham possíveis reajustes salariais elevados, mas ressaltam que o mercado de trabalho está mais fraco do que durante o avanço inflacionário de 2022.
No Japão, Ueda afirmou que a atividade e os preços seguem, de modo geral, as projeções do banco central. A economia apresenta recuperação moderada, e a pesquisa empresarial Tankan indica confiança sólida entre as companhias. Entretanto, o encarecimento das matérias-primas pressiona os preços no atacado, com efeitos sobre os consumidores, enquanto as expectativas de inflação de longo prazo continuam subindo.
Entre os riscos, o dirigente citou a guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, a forte demanda relacionada à inteligência artificial e a desvalorização do iene. Mesmo depois da alta dos juros em setembro, para o maior nível em 31 anos, Ueda considera que as condições financeiras continuam favorecendo a atividade, justificando novos ajustes para conter o risco de inflação excessiva.
No Reino Unido, Mann descreveu a demanda como positiva, embora sem força expressiva, e relatou adaptações empresariais aos custos de energia, como a instalação de painéis solares por uma fabricante. Também observou que revisões recentes nos dados de produtividade decorreram da redução das horas trabalhadas, movimento que, em sua avaliação, pode limitar a capacidade da economia de crescer sem gerar novas pressões sobre os preços.
FUP Explica
O recado dos dois bancos centrais é claro: a inflação está demorando mais para ceder do que o esperado, e isso mantém a pressão sobre os juros. No Reino Unido, o risco mais imediato é o ciclo de negociações salariais que se concentra na virada do ano. Se os trabalhadores conseguirem reajustes elevados num momento em que a inflação pode estar perto de 4%, isso tende a alimentar uma espiral de custos que dificulta ainda mais o trabalho do banco central. Mann já vinha votando por alta de juros e a crítica à comunicação da instituição em março sugere tensão interna sobre o ritmo e a clareza das decisões, o que por si só pode afetar a credibilidade do banco junto ao mercado.
No Japão, o cenário é diferente, mas igualmente delicado. O país saiu de décadas de deflação e agora tenta normalizar a política monetária sem sufocar uma recuperação que ainda é moderada. A combinação de matérias-primas mais caras, iene fraco e expectativas de inflação em alta cria um ambiente em que o banco central sente que precisa agir, mesmo que as condições financeiras ainda sejam favoráveis. A referência à guerra no Irã e à demanda por inteligência artificial como fatores de risco mostra que parte da pressão vem de fora e escapa ao controle da política doméstica.
Para quem acompanha o ambiente de negócios internacional, o ponto central é que dois países relevantes sinalizam juros mais altos por mais tempo. Isso tende a afetar o custo do crédito, o câmbio e o apetite por investimento em economias emergentes, incluindo o Brasil, mesmo que nenhuma das declarações desta terça-feira trate diretamente de relações bilaterais ou de comércio exterior.




