
Imagem: Marcos Oliveira/Agência Senado
O que os candidatos à Presidência propõem para o comércio exterior brasileiro
Planos divergem sobre Mercosul, BRICS, OCDE e abertura comercial, mas convergem em pontos como agregação de valor às exportações, atração de investimentos e busca por novos mercados
Da redução de tarifas de importação ao fortalecimento do Mercosul e do BRICS+, os candidatos à Presidência apresentam caminhos distintos para definir como o Brasil deve se relacionar comercialmente com outros países nos próximos anos. As propostas de Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passam por abertura comercial, acordos internacionais, exportações, minerais críticos, atração de investimentos e reorganização da diplomacia, com diferenças principalmente sobre os blocos e parceiros que devem ocupar maior espaço na política externa brasileira.
Entre os principais pontos de divergência estão Mercosul, BRICS e Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Zema propõe transformar o Mercosul de união aduaneira em zona de livre comércio, retirar o Brasil do BRICS e acelerar a entrada na OCDE. Lula, por outro lado, defende fortalecer Mercosul e BRICS+, enquanto Caiado propõe discutir a modernização do bloco sul-americano, manter a atuação brasileira no BRICS e, ao mesmo tempo, buscar uma aproximação pragmática com a OCDE. Flávio Bolsonaro também prevê retomar o processo de adesão à organização.
Na estratégia voltada diretamente às exportações, Augusto Cury (Avante) propõe criar cinco Corredores Estratégicos de Exportação conectados a portos, aeroportos e ferrovias, acompanhados da retirada de entraves tributários aos exportadores. O programa também prevê cinco Zonas Francas ou Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs), localizadas em Fortaleza, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul, destinadas a agregar valor a produtos industriais, agrícolas, tecnológicos e ligados à energia limpa antes da venda ao exterior.
O plano do Avante estabelece ainda duas metas comerciais: dobrar a corrente de comércio exterior brasileira em oito anos e multiplicar por dez as exportações de frutas. Para facilitar a entrada de pequenas e médias empresas no mercado internacional, Cury propõe expandir e simplificar linhas de financiamento, seguros de crédito e garantias voltadas aos exportadores.
A diplomacia também seria reorganizada. Por meio das chamadas “Embaixadas Empreendedoras”, o candidato pretende transformar representações brasileiras em plataformas de promoção comercial e atração de investimentos. A proposta inclui deslocar cerca de 20% do efetivo diplomático dos Estados Unidos para Índia e outros mercados asiáticos e 10% daquele localizado na Europa para China e Oriente Médio. Cury também propõe um fundo internacional de combate à fome financiado por contribuições incidentes sobre fluxos comerciais internacionais e transações da indústria armamentista.
Renan Santos (Missão) concentra parte de sua estratégia na industrialização e no processamento de recursos antes da exportação. O plano prevê a implantação de Zonas Econômicas Especiais (ZEEs) industriais e de terras raras no Nordeste e no Sudeste, com o objetivo de desenvolver etapas produtivas dentro do Brasil antes que esses recursos sejam vendidos ao mercado externo.
No relacionamento comercial, Santos propõe acordos bilaterais com Estados Unidos, União Europeia, Japão, Índia, Canadá, Vietnã e Taiwan, acompanhados de cláusulas de transferência de tecnologia e compromissos de compra. O programa defende ainda uma política externa sem alinhamento automático a blocos e propõe que o Brasil exerça um papel de articulação entre países do Sul Global e lidere uma comunidade geopolítica lusófona.
Outra frente apresentada pelo Missão é posicionar o país como fornecedor internacional de alimentos, por meio do chamado “AgroBrasil 2030”, e de capacidade computacional, vinculada ao “Marco Brasileiro da IA”. Na América do Sul, a candidatura também propõe incentivar o uso do real como moeda de reserva e instrumento de integração econômica regional.
A abertura comercial ocupa posição central no programa de Romeu Zema (Novo). O candidato propõe aproximar gradualmente as tarifas brasileiras de importação da média praticada pelos países em desenvolvimento, medida apresentada como forma de reduzir os custos de entrada de máquinas, equipamentos e insumos.
Zema também defende uma mudança na estrutura do Mercosul. A proposta é transformar o bloco de união aduaneira em zona de livre comércio, o que permitiria ao Brasil negociar acordos comerciais individualmente. No campo diplomático, o programa prevê acelerar o processo de entrada do país na OCDE e promover uma saída programada do BRICS.
Para atração de investimentos, a candidatura do Novo propõe direcionar a atuação diplomática para a entrada de capital estrangeiro em setores como data centers, indústria aeroespacial, transição energética e biocombustíveis.
Flávio Bolsonaro (PL) também apresenta a abertura comercial e a OCDE entre os principais eixos relacionados à inserção econômica internacional. Seu programa prevê retomar imediatamente o cronograma de adesão à organização e eliminar gradualmente o IOF incidente sobre operações cambiais.
A candidatura propõe facilitar o acesso a bens de capital, insumos e tecnologias importadas e, paralelamente, apoiar a internacionalização de pequenas e médias empresas por meio do BNDES e da ApexBrasil. Na diplomacia, Flávio Bolsonaro defende restabelecer relações com parceiros considerados tradicionais, como Estados Unidos, Argentina e Israel, além de buscar acordos comerciais com diferentes polos econômicos, entre eles China, União Europeia, Estados Unidos e países asiáticos.
O programa do PL também incorpora a agenda ambiental ao comércio exterior. A proposta prevê internacionalizar o RenovaBio e utilizar ativos ambientais e créditos de carbono brasileiros no mercado internacional.
No plano de Ronaldo Caiado (PSD), a política externa é apresentada como instrumento para o desenvolvimento econômico brasileiro. O candidato propõe evitar alinhamentos automáticos e direcionar as relações internacionais para resultados comerciais e econômicos.
Entre as prioridades estão a consolidação do acordo entre Mercosul e União Europeia, a discussão sobre a modernização do bloco sul-americano e a busca por novos mercados na Ásia, África e região do Indo-Pacífico. Caiado também propõe uma aproximação pragmática com a OCDE, ao mesmo tempo em que mantém a participação brasileira em fóruns como ONU, Organização Mundial do Comércio (OMC), G20 e BRICS.
As representações diplomáticas também teriam papel comercial mais direto. O programa prevê estabelecer metas de exportação, atração de investimentos e apoio às pequenas e médias empresas brasileiras nas embaixadas. Para minerais críticos e terras raras, a proposta é condicionar parcerias internacionais ao processamento dentro do país, à pesquisa e à transferência de tecnologia.
Já Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apresenta uma estratégia baseada na integração regional e no multilateralismo. O programa estabelece como prioridades o fortalecimento das relações do Brasil com América do Sul e América Latina, Mercosul, BRICS+, África e Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
Na política comercial, Lula propõe buscar acordos considerados equilibrados e alinhados à estratégia de neoindustrialização da Nova Indústria Brasil (NIB), citando negociações do Mercosul com União Europeia, EFTA e Singapura. O programa também prevê instrumentos de defesa comercial para proteger setores da economia brasileira.
A agenda ambiental aparece associada à captação internacional de recursos, ao mercado regulado de carbono, a títulos sustentáveis e ao Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF). No campo multilateral, Lula defende mudanças na governança do Conselho de Segurança da ONU, OMC, Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial, além do fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento, ligado ao BRICS.
Os minerais críticos também entram nessa estratégia. A proposta do PT é estabelecer uma política nacional que reduza a exportação desses recursos sem processamento, buscando manter no Brasil etapas de produção capazes de gerar maior valor aos produtos vendidos ao exterior.
Apesar das diferenças na política externa, a agregação de valor às exportações aparece em programas de diferentes candidaturas.
Cury aposta em corredores de exportação e ZPEs; Santos e Flávio Bolsonaro defendem o processamento nacional de terras raras e minerais críticos para evitar a exportação de matéria bruta; Caiado vincula parcerias minerais ao processamento local e à transferência de tecnologia; e Lula relaciona os minerais estratégicos às diretrizes de neoindustrialização, uma política que busca reindustrializar o país aliando inovação tecnológica, digitalização e transição ecológica com incentivo público.
As diferenças ficam mais evidentes na forma como cada candidatura pretende organizar a inserção internacional do país. Enquanto Zema propõe flexibilizar o Mercosul, retirar o Brasil do BRICS e acelerar a entrada na OCDE, Lula defende fortalecer Mercosul e BRICS+. Caiado busca conciliar a participação em fóruns multilaterais com uma aproximação à OCDE, enquanto Cury, Santos e Flávio Bolsonaro apresentam estratégias próprias para diversificar parceiros, estimular exportações e utilizar a diplomacia como instrumento de promoção comercial.
FUP Explica
O mapa de propostas revela que a disputa eleitoral de 2026 vai colocar em jogo escolhas estruturais para o comércio exterior brasileiro, não apenas ajustes de margem. A questão do Mercosul é a mais concreta: transformar o bloco em zona de livre comércio, como propõe Zema, daria ao Brasil autonomia para negociar acordos bilaterais, mas implicaria renegociar a Tarifa Externa Comum com Argentina, Uruguai e Paraguai, um processo politicamente complexo e sem prazo definido. Manter o bloco como união aduaneira, como preferem Lula e, em parte, Caiado, preserva a coerência do bloco, mas limita a velocidade de abertura unilateral.
A posição sobre BRICS e OCDE também tem peso econômico real. A OCDE exige convergência regulatória em áreas como tributação, concorrência e meio ambiente, o que pode facilitar o acesso a mercados desenvolvidos, mas impõe custos de adaptação. O BRICS, por outro lado, representa acesso a financiamento via Novo Banco de Desenvolvimento e articulação com economias emergentes, especialmente China e Índia. Candidatos que propõem sair do BRICS e entrar na OCDE ao mesmo tempo estão, na prática, apostando numa reorientação completa da inserção internacional do país, com ganhos e perdas que dependem de como cada parceiro reagirá.
No campo dos minerais críticos, a convergência entre candidaturas é mais aparente do que real: todos falam em agregar valor antes de exportar, mas os mecanismos propostos variam de ZEEs a condicionantes em parcerias bilaterais, e nenhum programa detalha como isso seria implementado sem afastar investidores que buscam justamente a matéria-prima bruta. Quem ganhar a eleição herdará essa tensão entre atrair capital externo e reter valor dentro do país, e a forma como resolver isso vai definir o perfil das exportações brasileiras por anos.




