FUP News
Irã desmente Trump e nega negociação direta sobre Estreito de Ormuz
Geopolítica

Imagem gerada por IA

Irã desmente Trump e nega negociação direta sobre Estreito de Ormuz

04/08/2026·683 palavras
Irã busca rota alternativa pelo estrecho de Ormuz em negociações com Omã, sinalizando impacto potencial nas rotas marítimas globais e custos de frete para exportadores brasileiros que dependem dessa passagem estratégica.

O Irã negou nesta terça-feira, 4 de agosto, manter qualquer negociação com os Estados Unidos e afirmou que as conversas em curso com Omã têm um objetivo específico: criar uma rota temporária de navegação no Estreito de Ormuz. A declaração foi feita pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmaeil Baqaei, e reproduzida pelo Portal Portuário com base na agência semioficial Fars e na Agência Anadolu.

Segundo Baqaei, as discussões com Mascate buscam unificar a rota sul, em águas omanenses, e a rota norte, em águas territoriais iranianas, em um único corredor bidirecional. "As conversações versam sobre um corredor de duplo sentido, não sobre duas ou três rotas separadas", afirmou o porta-voz, acrescentando que o traçado temporário se manterá até que uma alternativa permanente seja definida. As negociações seguem em curso, sem prazo definido para conclusão.

A declaração iraniana contraria diretamente a versão do presidente americano Donald Trump, que havia afirmado, antes do pronunciamento de Baqaei, que as conversas com o Irã começariam na tarde de 3 de agosto. Em publicação no Truth Social, Trump demonstrou otimismo quanto a um acordo sobre desnuclearização e segurança no estreito, indicando que a proposta incluiria a reabertura imediata e completa da passagem, conforme o Investing.com Brasil. Baqaei desmentiu essa versão de forma direta: "Não estamos sustentando negociações com os Estados Unidos."

O pano de fundo é uma escalada militar sem precedentes recentes. Entre 8 e 24 de julho de 2026, EUA e Irã trocaram ataques diretos: Washington bombardeou alvos em território iraniano, enquanto Teerã respondeu contra instalações militares americanas na Jordânia, no Bahrein e no Kuwait, de acordo com o Portal Portuário. A crise se aprofundou após um memorando de entendimento firmado entre as duas nações em junho de 2026, cujas negociações estancaram por divergências sobre garantias de segurança e liberdade de navegação no estreito.

O bloqueio parcial do Estreito de Ormuz pelo Irã teve início em 28 de fevereiro de 2026, após ataques de Israel e dos EUA, interrompendo a maior parte das exportações de petróleo e outros produtos do Golfo e provocando um choque energético.

Diante do bloqueio, a Arábia Saudita desviou mais de 70% de suas exportações diárias habituais de petróleo bruto para o porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Os embarques a partir de Yanbu registraram média de 4 milhões de barris por dia nas semanas seguintes, ante cerca de 973 mil barris por dia registrados um ano antes, segundo dados da Kpler e da Signal Ocean citados pela CNN Brasil em 23 de julho.

O volume total de petróleo que transitou pelo Estreito de Bab el-Mandeb somou 7,4 milhões de barris por dia em junho de 2026, representando cerca de 7% da produção mundial de petróleo, ante 4,2 milhões de barris por dia no ano anterior. Em 20 de julho, os Houthis, alinhados ao Irã, declararam um bloqueio naval contra a Arábia Saudita, abrindo uma possível nova frente no conflito e ameaçando também o Bab el-Mandeb. Naveen Das, analista sênior da Kpler, alertou à CNN Brasil que o fechamento simultâneo das duas passagens teria "consequências em cadeia enormes", afetando preços de energia, alimentos, custos de transporte e inflação.

O porta-voz iraniano condicionou qualquer mudança na situação do estreito ao comportamento americano: "A situação em Ormuz não cambiará enquanto os Estados Unidos mantiverem seus atos de agressão e seu bloqueio", declarou Baqaei, conforme o Portal Portuário.

A crise tem implicações diretas para o comércio exterior brasileiro. Segundo levantamento da consultoria Datamar em 6 de março de 2026, no ano anterior 158.300 contêineres partiram de portos brasileiros com destino a países do Golfo Pérsico, entre eles Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Irã, Iraque e Kuwait, todos dependentes da travessia pelo Estreito de Ormuz. Desses contêineres, cerca de 67,9% continham proteína animal, especialmente carne de frango; 13,4% eram produtos de madeira; e 2,8%, papel, conforme o mesmo levantamento.

Dados da consultoria MTM Logix, também indicam que cerca de 20% do petróleo mundial atravessa o Estreito de Ormuz, além de aproximadamente 25% dos fertilizantes e 35% dos produtos químicos e plásticos comercializados internacionalmente, e 15% de todos os grãos negociados no planeta.

FUP Explica

A negação iraniana de qualquer diálogo com Washington, ao mesmo tempo em que Teerã avança em negociações com Omã para um corredor temporário, revela uma estratégia de gestão da crise que não passa pelos EUA. Isso complica bastante qualquer expectativa de reabertura rápida do estreito, porque os dois lados nem sequer concordam se estão negociando. Enquanto Trump vende otimismo público, o Irã usa Omã como canal paralelo, o que sugere que a solução, se vier, será parcial e controlada por Teerã, não resultado de um acordo bilateral com Washington.

Para o Brasil, o impacto é concreto e já está em curso. Com mais de 158 mil contêineres embarcados para o Golfo Pérsico no ano anterior, e dois terços deles carregando proteína animal, qualquer prolongamento do bloqueio pressiona diretamente os exportadores de frango, que dependem dessa rota para acessar mercados como Arábia Saudita e Emirados. A rota alternativa pelo Bab el-Mandeb alivia parte do problema, mas o bloqueio naval declarado pelos Houthis em 20 de julho abre a possibilidade de que essa saída também seja fechada. Se as duas passagens ficarem comprometidas ao mesmo tempo, o custo de frete e o prazo de entrega para o Golfo sobem de forma expressiva.

No plano mais amplo, a crise já está redistribuindo fluxos de petróleo no mundo, com a Arábia Saudita escoando volumes muito maiores pelo Mar Vermelho. Isso tem efeito sobre preços de energia e, por consequência, sobre inflação e custo de produção em vários países, incluindo o Brasil, que importa fertilizantes e insumos químicos que também passam pelo estreito. A ausência de prazo definido para o corredor temporário com Omã e a condição iraniana de que nada muda enquanto os EUA mantiverem ataques indicam que a incerteza deve persistir por tempo indeterminado.

Compartilhar:WhatsAppX (Twitter)LinkedIn

Leia também