
Irã avalia atacar ativos dos EUA na Europa se conflito escalar
Escalada de tensão EUA-Irã com potencial impacto em rotas de navegação, custos de frete e seguros de carga no comex global.
O Irã avaliou a possibilidade de atacar bases dos EUA na Europa caso o conflito no Oriente Médio se intensifique, segundo reportagem do Financial Times publicada nesta quarta-feira (19). A informação foi obtida pelo jornal britânico junto a duas fontes ligadas ao regime de Teerã. Entre os possíveis alvos, estão ativos americanos localizados na Bulgária e no Chipre, sem detalhar quais instalações específicas seriam visadas ou a natureza exata desses ativos.
As negociações entre Washington e Teerã para encerrar a guerra estão paralisadas. Na terça-feira (18), o presidente Donald Trump afirmou que não há conversas em andamento com o Irã e que não pretende retomá-las. Trump também descartou prorrogar o cessar-fogo de 60 dias que expirou na segunda-feira (17), depois de o acordo se desfazer na prática.
O conflito entre EUA, Israel e Irã se intensificou em 28 de fevereiro de 2026, quando os dois países lançaram um ataque conjunto coordenado contra alvos no território iraniano. A operação, batizada de Operação Leão Rugidor por Israel e Operação Fúria Épica pelo Departamento de Defesa americano, visava autoridades iranianas, comandantes militares e instalações, e incluiu o assassinato do líder supremo Ali Khamenei.
Em retaliação, o Irã lançou dezenas de drones e mísseis balísticos pelo Golfo Pérsico, atacando Israel e bases militares americanas na Jordânia, Cuaite, Barém, Catar, Iraque, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
A Otan afirmou estar preparada para enfrentar qualquer ameaça. Um representante da aliança declarou em 19 de agosto de 2026 que a organização "sempre fará o que for necessário para defender todos os aliados". O porta-voz citou como exemplo a interceptação de mísseis balísticos lançados do Irã em direção à Turquia em quatro ocasiões distintas durante 2026, afirmando que "nossa postura de dissuasão e defesa é forte e eficaz".
No mesmo dia, os Emirados Árabes Unidos anunciaram a suspensão de todo comércio, intercâmbio comercial e transações financeiras com o Irã até nova ordem. A medida veio um dia após o Ministério da Defesa emiradense informar ter detectado dois mísseis balísticos lançados do território iraniano em direção a suas águas territoriais. Os projéteis caíram no mar e não causaram danos ou vítimas. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, negou que Teerã tenha mirado o país vizinho.
Estreito de Ormuz sob pressão
Um dos principais pontos de atrito segue sendo o controle do Estreito de Ormuz, corredor central para o transporte de petróleo. Trump reiterou que a via está aberta e opera sob controle americano, mas o tráfego de embarcações na região continua extremamente baixo. Nesta quarta-feira (19), um ataque a um navio cargueiro que cruzava o estreito matou uma pessoa. A Fox News citou um porta-voz militar iraniano que declarou que navios que tentarem cruzar o estreito "vão encontrar alguns belos buracos em seus cascos".
Em reportagem de junho de 2025, a Agência Brasil registrou análise de historiador especializado em geopolítica segundo a qual os EUA buscam retirar o Irã da rota econômica construída pela China e pela Rússia na região da Eurásia, particularmente da rota Transcaspiana que liga o sudeste asiático à Europa via Cazaquistão, Azerbaijão e Mar Cáspio. O Irã aderiu à União Econômica Eurasiática em acordo de livre comércio que entrou em vigor em maio de 2025.
FUP Explica
A combinação de cessar-fogo expirado, negociações paralisadas e ameaça de extensão do conflito para o território europeu representa um salto qualitativo na escalada. Até aqui, os ataques iranianos se concentravam no Oriente Médio; avaliar alvos na Bulgária e no Chipre significa que o Irã sinaliza disposição de arrastar a Otan para o conflito de forma mais direta, o que muda o cálculo político de todos os membros da aliança, inclusive os europeus que até agora tentavam manter alguma distância da crise.
O ponto mais sensível no curto prazo é o Estreito de Ormuz. Com tráfego já extremamente baixo, ataques a navios em curso e declarações abertas de um porta-voz militar iraniano ameaçando embarcações, o corredor que escoa parte relevante do petróleo mundial segue sob pressão severa. Isso tende a manter os custos de frete e os prêmios de seguro marítimo elevados para qualquer rota que passe pela região, e pode pressionar o preço do petróleo dependendo de quanto tempo a situação se prolongar.
A suspensão total de comércio e transações financeiras dos Emirados com o Irã adiciona outra camada de instabilidade. Os Emirados são um hub comercial e financeiro de peso no Golfo, e o rompimento com o Irã fecha canais que ainda funcionavam como válvula de alívio para parte do comércio regional. O cenário geral é de conflito sem prazo de encerramento à vista, com múltiplas frentes abertas e poucos interlocutores dispostos a negociar.




