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Inflação acelera nas maiores economias da zona do euro com choque nos preços de energia
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Inflação acelera nas maiores economias da zona do euro com choque nos preços de energia

30/09/2026·674 palavras

França, Alemanha, Itália e Espanha registraram índices acima da meta do BCE em setembro, enquanto alta do petróleo e do gás provocada pela guerra no Irã reacende o debate sobre os juros

O choque nos preços da energia provocado pela guerra no Irã começou a aparecer com mais força na inflação das maiores economias da zona do euro em setembro. França, Alemanha, Itália e Espanha registraram uma aceleração dos preços, em alguns casos acima das expectativas do mercado, à medida que petróleo, gás e combustíveis ficaram mais caros. O movimento ocorre às vésperas da divulgação da inflação do bloco e aumenta a atenção sobre os próximos passos do Banco Central Europeu (BCE), que já elevou os juros duas vezes neste ano.

Segundo a Reuters, a inflação harmonizada da França saltou de 2,6% em agosto para 3,4% em setembro, acima dos 3,1% esperados por analistas. Na Alemanha, o índice passou de 2,9% para 3,3%, enquanto a Itália registrou uma alta de 3,2% para 4,1%. A Espanha apresentou a maior taxa entre as quatro economias, chegando a 5%, ante 4,6% no mês anterior. Todos os resultados ficaram acima da meta de 2% perseguida pelo BCE.

Por trás desse movimento está, sobretudo, a energia. Na Alemanha, a inflação do segmento avançou de 10,5% em agosto para 14,9% em setembro. Na França, a pressão foi ainda maior: os preços de energia subiram 21,2% em relação ao mesmo mês de 2025, depois de uma alta de 16,7% em agosto, de acordo com o investingLive. O resultado foi influenciado principalmente pelo encarecimento dos derivados de petróleo e do gás.

Embora a energia concentre boa parte da pressão, outros componentes começam a exigir atenção. Na França, a inflação de serviços passou de 1,9% para 2,2%, enquanto a de alimentos avançou de 1,1% para 1,5%. Na Alemanha, por outro lado, o núcleo da inflação, que exclui energia e alimentos por serem mais voláteis, permaneceu em 2,4% pelo terceiro mês consecutivo. Até agora, portanto, o choque energético ainda não se espalhou de maneira uniforme pelos preços da região.

Esse comportamento será um dos pontos observados na divulgação da inflação consolidada da zona do euro, prevista para sexta-feira. Economistas consultados pela Reuters projetam que o índice passe de 3,2% em agosto para 3,6% em setembro. Caso a estimativa se confirme, a inflação permanecerá distante da meta do BCE justamente quando a Europa se aproxima do inverno, período de maior demanda energética.

O cenário também pode se estender para 2027. O BCE havia projetado inflação de 3,6% no último trimestre deste ano, depois de 3,3% no terceiro trimestre. Economistas, porém, avaliam que o pico pode ficar mais próximo de 4% diante dos atuais custos de energia. Em um cenário adverso elaborado pela própria instituição, a inflação alcançaria 4% tanto no quarto trimestre de 2026 quanto nos três primeiros meses do próximo ano.

Outro fator adiciona pressão aos custos europeus: a valorização recente do dólar. Como petróleo, gás e outras matérias-primas são negociados internacionalmente na moeda americana, um dólar mais forte torna essas importações mais caras em moeda local. A combinação entre câmbio e energia pode, assim, elevar os custos das empresas e favorecer novos repasses aos consumidores.

Com a inflação novamente em alta, os juros voltaram ao centro das discussões. Depois de dois aumentos promovidos pelo BCE neste ano, os mercados passaram a considerar outros quatro movimentos de alta ao longo dos próximos 12 meses. A presidente da instituição, Christine Lagarde, afirmou, no entanto, que o avanço recente dos preços ainda não provocou efeitos secundários considerados perigosos sobre a economia e defendeu uma resposta moderada da política monetária.

A duração do choque energético será determinante para os próximos meses. Rory Fennessy, economista sênior da Oxford Economics, avalia que a ausência de sinais de redução das tensões no Oriente Médio, combinada à aproximação do inverno europeu, diminui a possibilidade de uma correção dos preços de energia no curto prazo. Se os custos permanecerem elevados, a pressão pode chegar gradualmente a outros produtos e serviços e manter a inflação acima da meta também no início de 2027.

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O dado mais relevante aqui não é só a inflação em si, mas a velocidade com que o choque de energia está se espalhando, e o fato de que o núcleo da inflação na Alemanha ainda está comportado sugere que o contágio para o restante da economia ainda não aconteceu. Isso coloca o BCE numa posição desconfortável: apertar demais os juros pode frear uma economia europeia que já enfrenta custos de energia elevados, mas apertar de menos arrisca deixar a inflação se enraizar, especialmente se o inverno agravar a demanda por gás e petróleo.

A divergência entre Christine Lagarde, que pede moderação, e os mercados, que precificam quatro altas adicionais nos próximos 12 meses, é o nó político e econômico central. Se a inflação consolidada do bloco, prevista para esta sexta-feira, vier acima dos 3,6% projetados, a pressão sobre o BCE para agir com mais força vai crescer, e Lagarde terá menos espaço para defender o ritmo gradual. Por outro lado, uma leitura dentro do esperado pode dar fôlego à posição mais cautelosa da instituição.

O efeito do dólar valorizado sobre as importações de energia em euros é um amplificador que tende a ser subestimado no debate público. Ele significa que, mesmo que o preço do petróleo em dólar se estabilize, o custo em moeda local pode continuar subindo, o que reduz a margem de alívio espontâneo. Para empresas europeias com custos em energia e receitas em euros, esse é um risco concreto de compressão de margens e eventual repasse ao consumidor, o que tornaria o trabalho do BCE ainda mais difícil nos próximos trimestres.

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