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Ibovespa abre sob impacto do corte da Selic e do comunicado do Copom
Ibovespa reage ao corte da Selic para 14% a.a. e acompanha dados de emprego nos EUA; dólar recua 0,05%. Contexto macroeconômico relevante para importadores/exportadores, mas sem medidas específicas de comex.
O corte da Selic de 14,25% para 14% ao ano, aprovado de forma unânime pelo Comitê de Política Monetária (Copom) na reunião dos dias 4 e 5 de agosto, pauta o Ibovespa nesta quinta-feira (6). A decisão representa a quarta redução consecutiva no ciclo de afrouxamento iniciado em março, quando a taxa ainda estava em 15% ao ano.
O Banco Central justificou o movimento como compatível com a estratégia de convergência da inflação para a meta, estendendo o horizonte relevante de avaliação até o primeiro trimestre de 2028.
Na sessão de quarta-feira, o Ibovespa encerrou com queda de 0,09%, aos 177.726,17 pontos, operando em compasso de espera pela decisão do Copom, anunciada após o fechamento do pregão. Para Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, "o pregão foi mais sensível ao macro, uma vez que o Copom deixa o mercado no compasso de espera para entender se a porta fica aberta para mais cortes de juros olhando à frente", conforme declarou à Veja.
O dólar à vista encerrou a quarta-feira cotado a R$ 5,1282, com recuo marginal de 0,05%, de acordo com o N1 Mais. Nos contratos de juros futuros, a taxa de DI para janeiro de 2027 fechou a 13,770%, e o contrato para janeiro de 2036 encerrou o dia a 14,315%.
O comunicado do Copom foi avaliado por economistas como mais duro do que o esperado, o que pode pressionar os juros futuros, segundo o E-Investidor e o Estadão. O Comitê adotou redação mais enxuta em relação ao comunicado de junho e reafirmou que a magnitude total do ciclo de ajuste será definida conforme novas informações sobre a dinâmica dos riscos inflacionários.
O colegiado deixou aberta a possibilidade de encerrar o ciclo com uma redução final na reunião de setembro, marcada para os dias 15 e 16. Analistas da Warren Rena, incluindo Luis Felipe Vital, Cecília Mazzoni e Felipe Figueiró, projetam movimento contido na curva de juros futuros, avaliando que a decisão seguiu a precificação majoritária do mercado, de acordo com o N1 Mais. Gabriel Santos, head de research da Bloxs, destaca que a reação da curva de juros dependerá mais do tom do comunicado do que do corte em si.
No contexto inflacionário, o IBGE informou que o IPCA-15 desacelerou para 0,06% em julho, ante 0,41% em junho, resultado explicado principalmente pela queda nos preços de alimentos. Nos comunicados anteriores à decisão, o Copom havia chamado atenção para o risco fiscal e para a piora das expectativas de inflação, que se afastaram da meta central de 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual.
No exterior, o relatório ADP divulgado na quarta-feira mostrou criação de apenas 44 mil vagas no setor privado dos EUA em julho, abaixo das 75 mil esperadas pelo mercado, conforme apurado pelo E-Investidor e pelo Estadão. Para esta quinta-feira, os investidores acompanham os pedidos semanais de auxílio-desemprego nos EUA, com expectativa de 205 mil novos pedidos na semana encerrada em 1º de agosto, ante 197 mil na semana anterior.
O custo unitário da mão de obra no segundo trimestre também entra no radar, com projeção de alta de 1,3% na comparação trimestral. Esses dados são monitorados em busca de sinais sobre os próximos passos do Federal Reserve.
Na Europa, as vendas no varejo da zona do euro caíram 0,3% em junho ante maio, contrariando a expectativa de alta de 0,5% dos analistas consultados pela FactSet. Na comparação anual, o setor registrou crescimento de 0,7% em junho, segundo a Eurostat.
No mercado de petróleo, às 7h30 de Brasília desta quinta-feira, o barril do WTI para setembro avançava 0,74% na Nymex, a US$ 75,78, e o Brent para outubro subia 0,89% na ICE, a US$ 80,16, com o mercado sensível às negociações entre Estados Unidos e Irã sobre a reabertura do Estreito de Ormuz.
No campo corporativo, o Bradesco (BBDC3; BBDC4) anunciou lucro líquido recorrente de R$ 7,050 bilhões no segundo trimestre de 2026, crescimento de 16,2% ante igual período de 2025 e alta de 3,5% em relação ao primeiro trimestre. O retorno sobre o patrimônio líquido (ROAE) ficou em 16,2% em junho, ante 14,6% um ano antes. Após o fechamento do pregão desta quinta-feira, a Petrobras (PETR3; PETR4) divulga seus resultados do segundo trimestre. Às 7h30 de Brasília, os ADRs da Petrobras avançavam 1,8% e os da Vale operavam com ganhos de 0,27% no pré-mercado de Nova York.
FUP Explica
O comunicado mais duro do que o esperado é o ponto que merece mais atenção do que o corte em si. Quando o Copom sinaliza cautela mesmo reduzindo a taxa, o mercado entende que o ciclo de afrouxamento pode estar chegando ao fim, e isso tende a segurar os juros longos em patamares elevados por mais tempo. A reunião de setembro vira, portanto, um evento decisivo: se o Comitê confirmar uma última redução e encerrar o ciclo, a curva de juros futuros vai precificar esse cenário rapidamente, com reflexo direto no custo de crédito e na atratividade relativa da renda fixa frente à bolsa.
O cenário externo adiciona uma camada de incerteza. A criação de vagas nos EUA bem abaixo do esperado em julho aumenta a pressão sobre o Fed para cortar juros, o que, se confirmado, tende a enfraquecer o dólar e beneficiar moedas emergentes como o real. Por outro lado, um mercado de trabalho americano mais fraco pode sinalizar desaceleração econômica mais ampla, o que pesa sobre commodities e sobre os papéis de empresas exportadoras listadas na bolsa brasileira. Os dados desta quinta-feira, portanto, não são só ruído: eles podem mover o câmbio e o Ibovespa de forma mais pronunciada do que o próprio corte da Selic.
Para quem acompanha o ambiente de negócios no Brasil, a Selic em 14% ainda representa custo de capital elevado. O risco fiscal e as expectativas de inflação afastadas da meta, mencionados pelo próprio Copom, indicam que o Banco Central não tem espaço para acelerar o ritmo de cortes, o que limita o alívio financeiro para empresas e consumidores no curto prazo.



