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95% das empresas não obtêm retorno com IA generativa, aponta estudo
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95% das empresas não obtêm retorno com IA generativa, aponta estudo

08/09/2026·659 palavras
Executiva da SAS alerta sobre desperdício em projetos de IA nas empresas. Análise de tendência tecnológica relevante para gestão de supply chain e operações, mas sem urgência imediata.

O desperdício em projetos de inteligência artificial pode estar relacionado menos à tecnologia em si e mais à forma como as empresas escolhem onde aplicá-la. É o que aponta Manisha Khanna, head de marketing de produto para IA da SAS, em entrevista publicada pelo Exame nesta terça-feira (8). Segundo a executiva, o crescimento dos gastos com tokens, unidade utilizada na cobrança de modelos de linguagem, pode ser um sinal de experimentação excessiva, especialmente quando empresas recorrem à IA generativa para executar tarefas que poderiam ser realizadas por sistemas determinísticos, com resultados previsíveis e custos mais fáceis de controlar.

“Estamos tentando usar a tecnologia certa nos lugares errados”, afirmou Khanna. A questão ganha relevância em grandes empresas reguladas e submetidas a estruturas rígidas de governança, nas quais, segundo a executiva, o consumo excessivo de tokens pode indicar que a organização está experimentando mais do que deveria.

A dificuldade de transformar investimentos em IA em retorno financeiro também aparece em pesquisas e avaliações do setor. Segundo a Agência Brasil, o estudo “O Estado da IA nos Negócios em 2025”, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), apontou que, apesar de investimentos empresariais entre US$ 30 bilhões e US$ 40 bilhões em IA generativa, 95% das organizações analisadas obtiveram retorno zero.

Em março de 2026, Norbert Jung, CEO da Bosch Connected Industry, apresentou avaliação semelhante durante um evento relacionado à Hannover Messe. De acordo com ele, 95% dos projetos de IA não entregavam valor econômico naquele momento, apesar do entusiasmo em torno da tecnologia e do volume crescente de dados disponíveis nas empresas. Para Jung, um dos caminhos para gerar resultados está justamente na integração entre tecnologia e conhecimento humano. “A resposta está em trazer IA, máquinas e humanos juntos em uma forma de cointeligência na manufatura”, afirmou à Agência Brasil.

Como o projeto pode nascer com o objetivo errado

Khanna também identifica um sinal de alerta na própria formulação dos projetos. Segundo ela, quando o conselho de administração inicia a discussão perguntando quanto a empresa economizará com a adoção da tecnologia, há indícios de que o projeto pode estar partindo de uma premissa inadequada. Em alguns casos, acrescenta a executiva, a busca por redução de custos aparece associada diretamente à intenção de diminuir o quadro de funcionários.

“Não acredito que tecnologias como IA agêntica devam ser usadas para reduzir o quadro de funcionários. Humanos sempre serão importantes”, afirmou. Para Khanna, mesmo com o aumento da autonomia dos sistemas, a participação humana deve permanecer no processo para verificar os resultados, sobretudo em setores altamente regulados, nos quais decisões automatizadas podem afetar milhões de pessoas.

Desconfiança e custos imprevisíveis

Além da escolha inadequada da tecnologia para determinadas tarefas, Khanna aponta a confiança nos resultados como outro desafio. Segundo a executiva, um estudo recente mostrou que profissionais tendem a ignorar ou sobrepor decisões tomadas por sistemas de IA em produção, mesmo quando esses sistemas foram implementados com o objetivo de ganhar autonomia. Como exemplo, ela cita analistas de fraude que recebem resultados com níveis de confiança de 80% ou 90%, mas ainda assim podem contrariar a decisão apresentada pelo sistema.

Outro obstáculo está na dificuldade de prever os custos. Khanna afirma que implementações de agentes de IA ainda apresentam despesas difíceis de antecipar, o que complica o planejamento financeiro de CFOs e CIOs. Nesse cenário, definir previamente quais problemas realmente exigem IA generativa e quais podem ser resolvidos por arquiteturas tradicionais torna-se uma etapa importante para evitar o uso de modelos mais caros em tarefas que não necessitam desse tipo de tecnologia.

A incerteza sobre o retorno desses projetos também aparece nas projeções do Gartner citadas pelo Exame. Segundo a consultoria, mais de 40% dos projetos de IA agêntica devem ser cancelados até o fim de 2027 em razão de custos crescentes, valor de negócio pouco claro ou controles de risco inadequados, reforçando a pressão para que empresas estabeleçam objetivos, arquitetura e critérios de retorno antes de colocar novas iniciativas em produção.

FUP Explica

O ponto central aqui é que o problema, é de gestão. Empresas estão comprando IA como se fosse uma solução universal e aplicando modelos caros e imprevisíveis em tarefas que um sistema mais simples resolveria com fração do custo e com resultado auditável. Isso explica por que o investimento cresce, mas o retorno não aparece: o erro está na camada de decisão, não na ferramenta.

O alerta sobre a pergunta inicial do board é particularmente revelador. Quando a liderança entra num projeto de IA já perguntando quanto vai cortar de pessoal, o projeto nasce com objetivo errado. Eficiência operacional e redução de headcount são coisas diferentes, e confundir as duas tende a gerar resistência interna, baixa adoção e, no fim, mais desperdício. A desconfiança dos analistas nos resultados da IA, mencionada por Khanna, é um sintoma direto disso: se a organização não confia no sistema, ela não vai deixá-lo operar com autonomia, e aí o investimento vira custo sem função.

Para quem toma decisão de tecnologia nas empresas, a lição prática é mapear o tipo de problema antes de escolher a ferramenta. Tarefa com resultado previsível e replicável pede sistema determinístico. IA generativa e agentes autônomos fazem sentido onde há ambiguidade, volume de dados não estruturados ou necessidade de raciocínio contextual. Misturar os dois cenários é o caminho mais rápido para o retorno zero que o estudo do MIT identificou.

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