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Desemprego juvenil supera 16% na China com avanço da inteligência artificial
Maior coorte de graduados chineses (12,7 milhões) enfrenta mercado de trabalho desorganizado pela IA, sinalizando pressão econômica e social em economia-chave para comex global.
A China enfrenta em 2026 a entrada de 12,7 milhões de recém-graduados no mercado de trabalho, maior contingente de formados de sua história, em um cenário de desemprego juvenil acima de 16%, redução de vagas tradicionais e avanço da inteligência artificial sobre atividades antes realizadas por profissionais em início de carreira. A pressão levou universidades chinesas a reformular milhares de cursos para aproximar a formação acadêmica das novas demandas do mercado.
A oferta de empregos para recém-formados não acompanhou o crescimento das matrículas universitárias chinesas nas últimas décadas, segundo o New York Times. Relatos reunidos pelo veículo mostram jovens que enviaram centenas de candidaturas sem conseguir uma colocação.
O desemprego entre os jovens supera 16%. O problema, entretanto, antecede a atual entrada de graduados no mercado. Em julho de 2024, a taxa estava em 17,1%, segundo dados publicados pela Deutsche Welle em setembro daquele ano.
A inteligência artificial acrescenta uma nova pressão a um mercado que já enfrentava dificuldades para absorver os jovens formados. Depois da automação de atividades na manufatura e na entrega de alimentos, ferramentas de IA passaram a executar tarefas associadas a empregos de escritório e profissões que exigem formação universitária.
Um recém-formado em design de produto ouvido pelo South China Morning Post, afirmou que atividades centrais de sua profissão, como modelagem e renderização, já podem ser executadas com inteligência artificial.
A mudança atinge principalmente tarefas que podem ser automatizadas, reduzindo a necessidade de trabalho humano em determinadas etapas. O impacto ocorre justamente em funções que tradicionalmente serviam como porta de entrada para recém-graduados no mercado.
O fenômeno também é observado fora da China. A Semafor cita o caso do Quênia, onde jovens com formação acadêmica trabalhavam na elaboração de trabalhos universitários para clientes ocidentais. Esse mercado perdeu espaço com a disseminação de ferramentas de inteligência artificial, que passaram a oferecer uma alternativa de menor custo aos contratantes.
A transformação do mercado levou o sistema universitário chinês a modificar a oferta de graduações. Entre 2021 e 2025, instituições de ensino superior cancelaram ou suspenderam 12.200 cursos e criaram 10.200, segundo dados do Ministério da Educação da China reportados pelo South China Morning Post.
O resultado foi uma redução de aproximadamente 2 mil cursos. Os cortes se concentraram em áreas como artes, humanidades, línguas estrangeiras e administração, classificadas como saturadas a partir do acompanhamento da empregabilidade dos formados.
Paralelamente, universidades passaram a criar graduações ligadas a tecnologias emergentes. Nove das principais instituições chinesas abriram cursos de inteligência incorporada, ou embodied intelligence, área que integra inteligência artificial a sistemas físicos, como robôs.
O campo não existia como graduação formal no país cinco anos atrás. Também foram criados programas relacionados a interfaces cérebro-computador, robótica agrícola e tecnologias voltadas à neutralidade de carbono.
As dificuldades enfrentadas pelos jovens chineses no mercado de trabalho têm fatores que antecedem a atual expansão da inteligência artificial. Em análise publicada em setembro de 2024, a Deutsche Welle relacionou o cenário aos efeitos da pandemia de covid-19, à recuperação econômica posterior e às tensões comerciais entre a China e países ocidentais.
A publicação também associou parte da deterioração do mercado de trabalho às medidas adotadas pelo governo de Xi Jinping nos setores de tecnologia, mercado imobiliário e educação privada entre 2020 e 2021.
Segundo a Deutsche Welle, grandes empresas chinesas de tecnologia perderam mais de US$ 1 trilhão em valor de mercado no período. O mercado imobiliário também enfrentou uma crise, enquanto mudanças regulatórias atingiram o setor de educação privada, que atendia cerca de 75 milhões de alunos e registrou demissões em massa.
Esses fatores, somados ao crescimento do número de universitários, ajudam a explicar por que a dificuldade de absorção de recém-formados antecede a atual disseminação das ferramentas de inteligência artificial.
A interpretação dos números de desemprego juvenil também exige considerar alterações na metodologia oficial chinesa. Quando a taxa chegou a 21,3% em maio de 2023, o governo interrompeu a divulgação da série.
A publicação dos dados foi retomada seis meses depois, após uma revisão metodológica que passou a excluir estudantes do cálculo. A alteração contribuiu para uma redução de quase um terço na taxa apresentada em dezembro de 2023.
A mudança dificulta a comparação direta entre os indicadores produzidos antes e depois da revisão. Analistas citados pela Deutsche Welle também apontam limitações na representação de milhões de trabalhadores rurais, que enfrentam maiores dificuldades para conseguir empregos em tempo integral do que os trabalhadores urbanos.
FUP Explica
O que está acontecendo na China é um estresse simultâneo em três frentes: volume recorde de formandos, mercado de trabalho que não expande na mesma velocidade e automação acelerando a obsolescência de funções que eram consideradas seguras para quem tem diploma. O resultado é uma geração qualificada sem absorção, e isso tem peso político relevante para o governo de Xi Jinping, que precisa manter a estabilidade social num momento em que a economia ainda carrega as marcas da repressão aos setores de tecnologia, imobiliário e educação privada feita no começo da década.
A reforma universitária mostra que o governo reconhece o descasamento entre o que as universidades produzem e o que a economia absorve, mas reformar currículo leva anos para gerar efeito no mercado. Os 12,7 milhões de graduados de 2026 já estão formados com as grades antigas, e os novos cursos em robótica e IA vão formar turmas daqui a quatro ou cinco anos, quando o cenário tecnológico pode ser diferente do atual. Há, portanto, uma janela de vulnerabilidade que a política educacional não consegue fechar no curto prazo.
O dado sobre a metodologia de cálculo do desemprego juvenil também merece atenção: quando um governo para de publicar estatística porque o número ficou alto demais e depois muda o critério para reduzir o indicador, a leitura do problema fica comprometida. Isso dificulta tanto a formulação de política pública quanto a avaliação externa da situação real, e tende a ampliar a desconfiança sobre outros dados econômicos chineses divulgados oficialmente.




