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EUA endurecem regras para data centers enquanto Brasil oferece R$ 5,2 bilhões em incentivos
Enquanto os EUA aumentam o controle sobre custos e impactos dos data centers, Brasil oferece R$ 5,2 bilhões em incentivos em meio a pressões sobre água, energia e licenciamento.
Enquanto comunidades e legisladores dos Estados Unidos intensificam a pressão por limites, transparência e divisão dos custos associados aos data centers, o Brasil avança com incentivos para atrair novos projetos, justamente quando conflitos por água, energia e licenciamento começam a aparecer no país. O contraste ganhou força nesta semana, com novas medidas na Califórnia e no Congresso americano, de um lado, e a sanção do Redata pelo governo brasileiro, de outro, em meio ao avanço de empreendimentos no Ceará e em São Paulo impulsionados pela corrida por infraestrutura para inteligência artificial.
Nos Estados Unidos, a resistência já ultrapassa o debate ambiental. Segundo a Reuters, moradores e organizações de San Jose, no Vale do Silício, pressionam por análises públicas mais rígidas, maior transparência sobre o consumo de água e eletricidade e estudos de impacto antes da aprovação de novos projetos.
A Califórnia também discute leis para impedir que os custos da expansão da rede elétrica sejam transferidos aos demais consumidores. Embora San Jose estime arrecadar entre US$ 3 milhões e US$ 6 milhões por ano com cada instalação, parte da população questiona se os benefícios compensam a pressão sobre os recursos locais.
A reação também chegou a Washington. O InfoMoney informa que a Câmara dos Representantes aprovou, por 417 votos a 3, um projeto que determina que os reguladores estaduais avaliem se grandes consumidores, incluindo os data centers, devem arcar com os custos adicionais da infraestrutura elétrica necessária para atendê-los.
Uma pesquisa da Universidade de Massachusetts Amherst indicou ainda que apenas 11% dos norte-americanos apoiariam a instalação de um data center de inteligência artificial em sua própria comunidade.
No Brasil, o movimento do governo federal é de atração de investimentos. A aprovação da Lei 15.504 pelo Senado criou o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o Redata, com suspensão do Imposto de Importação, do PIS/Cofins e do IPI para equipamentos e renúncia fiscal estimada em R$ 5,2 bilhões em 2026.
Em troca, as empresas deverão cumprir contrapartidas, como destinar parte da capacidade ao mercado brasileiro, investir em pesquisa e desenvolvimento e contratar energia de fontes limpas ou renováveis. Parte dos critérios técnicos e de fiscalização ainda depende de regulamentação.
Enquanto os incentivos avançam, os impactos começam a aparecer nos processos de licenciamento. No Ceará, o data center ligado ao TikTok, em construção no Complexo do Pecém, virou alvo de ação do Ministério Público Federal e da Defensoria Pública da União. A previsão de consumo de água passou de 19,7 mil para 144 mil litros por dia entre duas etapas do licenciamento, o que representa uma alta superior a 600%. O projeto prevê ainda a instalação de mais 120 geradores a diesel.
A instalação terá potência de 300 MW e consumo estimado em 5.040 MWh por dia, equivalente ao de mais de 843 mil residências.
O Cimi relata que o MPF e a DPU também questionam a falta de consulta prévia ao povo indígena Anacé e pedem a realização de EIA/Rima antes do início da operação. Na mesma região, outro data center, da Voltalia, foi aprovado para a ZPE Ceará, com investimento previsto de R$ 181,7 bilhões, embora ainda dependa de licenciamento ambiental.
A pressão também aparece na rede elétrica. A Data Center Dynamics informa que a Aneel autorizou projetos da Ascenty em Campinas e Vinhedo com cargas de até 297 MW até 2029. Pareceres do ONS apontam que trechos da rede paulista já apresentam níveis reduzidos de tensão e que as novas cargas tendem a agravar essa condição, exigindo reforços na transmissão.
E a demanda tende a crescer. Estudo da Kearney citado pelo Canal Solar estima que o consumo elétrico dos servidores dedicados à inteligência artificial dobre até 2030. Nesse contexto, Fávio Veras, em artigo na CNN Brasil, ressalta que receber data centers não significa automaticamente promover o desenvolvimento tecnológico local, já que essas estruturas podem consumir recursos sem criar conexões relevantes com fornecedores, universidades e profissionais da região.
Assim, enquanto os Estados Unidos intensificam o debate sobre limites e sobre quem deve pagar pela infraestrutura exigida pelo setor, o Brasil acelera os incentivos para atrair novos projetos. Ao mesmo tempo, casos já em andamento mostram que a discussão brasileira começa a migrar do volume de investimentos prometido para os custos territoriais, hídricos e energéticos necessários para sustentá-los.
FUP Explica
O Redata resolve um problema imediato do setor: desde o início de 2026, sem regime tributário específico, as empresas de tecnologia operavam em limbo, recorrendo a ZPEs e ao Reidi enquanto esperavam uma solução permanente. A lei fecha essa janela de incerteza e sinaliza que o governo quer posicionar o Brasil na corrida por infraestrutura de inteligência artificial, num momento em que a demanda por capacidade computacional cresce em ritmo acelerado. O argumento de soberania de dados, com cerca de 60% dos dados de brasileiros armazenados fora do país segundo o Startups, dá cobertura política ao pacote.
O problema é que o modelo de atração via renúncia fiscal pressupõe que as contrapartidas sejam cumpridas e fiscalizadas, e é exatamente aí que a lei ainda tem lacunas. Parte dos critérios técnicos e de fiscalização depende de regulamentação que ainda não saiu. Sem isso, o risco é que os R$ 5,2 bilhões de renúncia em 2026 se concretizem antes dos compromissos de investimento em P&D, energia limpa e acesso ao mercado interno. O histórico de regimes especiais no Brasil, com contrapartidas de difícil verificação, alimenta essa preocupação.
O que os casos do Ceará e de São Paulo mostram é que a discussão brasileira está começando a migrar do volume de investimento prometido para os custos reais de sustentá-los: água, energia, rede de transmissão e direitos de comunidades locais. Nos EUA, esse debate chegou ao Congresso e às ruas depois de anos de expansão acelerada. No Brasil, ele aparece enquanto o país ainda está na fase de atração, o que abre espaço para que as regras do jogo sejam definidas antes que os conflitos se multipliquem, mas exige que a regulamentação pendente do Redata chegue rápido e com dentes.
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