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Houthis tomam porto de Mokha e avançam em direção ao Estreito de Bab el-Mandeb
Os Houthis assumiram nesta quinta-feira (10) o controle de Mokha, cidade portuária na costa oeste do Iêmen, após dias de combates contra forças ligadas ao governo reconhecido internacionalmente. A tomada da cidade, confirmada por fontes militares do governo iemenita ao The Guardian, posiciona o grupo rebelde mais próximo do Estreito de Bab el-Mandeb, passagem essencial entre o Mar Vermelho e o Golfo de Áden.
Fontes militares do governo iemenita confirmaram a perda da cidade e informaram que tropas e aliados recuavam para Dhubab, localizada diretamente às margens do estreito, diante da ilha de Perim. Não havia, no momento da apuração, uma confirmação pública formal do governo sobre a queda de Mokha. Simultaneamente, unidades houthis avançavam contra ilhas no Mar Vermelho, incluindo Hanish.
Mokha fica cerca de 150 quilômetros ao sul de Hodeidah e funcionava como uma das principais bases das forças governistas na costa do Mar Vermelho.
Segundo o Commonspace.eu, o controle da cidade fortalece a posição dos rebeldes diante de Bab el-Mandeb. O analista de defesa Wolfgang Pusztai afirmou à Al Jazeera que o estreito tem cerca de 20 quilômetros de largura, contra aproximadamente 50 quilômetros em Hormuz, o que permitiria ameaçar a navegação até mesmo com sistemas de artilharia instalados na costa.
A ofensiva sobre Mokha vinha sendo construída desde o início de agosto, quando mais de 25 mísseis atingiram a região em poucos dias e provocaram a suspensão das operações portuárias, conforme apurado pela Euronews. A publicação afirma que os Houthis buscam expandir o domínio sobre a costa e potencialmente interferir no fluxo por Bab el-Mandeb, que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e, por meio do Canal de Suez, às rotas entre a Europa e a Ásia. Em conjunto, Bab el-Mandeb e Hormuz concentram uma parcela relevante dos embarques mundiais de petróleo e do comércio marítimo, segundo a Euronews.
Escala dos combates e crise humanitária
Os confrontos se espalharam por outras regiões do país. A Arábia Saudita realizou dezenas de ataques aéreos contra posições Houthis, enquanto o grupo lançou drones e mísseis contra cidades e instalações econômicas sauditas. Segundo o The Guardian, a organização de monitoramento de conflitos Acled estimou 276 mortes em um período de cinco dias.
Os rebeldes reivindicaram, além de Mokha, o controle da cidade de Hays e da base militar Khalid ibn al-Walid, com uma estimativa ligada ao grupo indicando avanço sobre cerca de 6 mil quilômetros quadrados. O jornal também relacionou a escalada à alta do petróleo, que superou US$ 100 por barril depois de ser negociado perto de US$ 80 nas semanas anteriores.
A crise também provoca consequências humanitárias. De acordo com o Times of Israel, centenas de mulheres e crianças deixaram Mokha em direção a Lahj e Aden, enquanto mais de 20 mil pessoas foram deslocadas por confrontos nas províncias de Taiz e Hodeidah nas últimas duas semanas. Autoridades sauditas informaram que ataques houthis deixaram 73 feridos no sul do país.
No plano diplomático, o Paquistão transmitiu à Teerã um pedido saudita para conter o grupo, mas um alto funcionário iraniano respondeu que o país não controla os Houthis.
A retomada dos combates ameaça encerrar o período de relativa redução das hostilidades iniciado com a trégua mediada pela ONU em 2022. Os houthis controlam grande parte do noroeste do Iêmen e a capital, Sanaa, desde 2014, enquanto uma coalizão liderada pela Arábia Saudita intervém no conflito desde 2015 em apoio ao governo reconhecido internacionalmente. Com Mokha sob controle rebelde e novos avanços em direção a Dhubab, Perim e outras posições no Mar Vermelho, a disputa volta a se concentrar em Bab el-Mandeb.
FUP Explica
O que está em jogo aqui vai muito além do Iêmen. Bab el-Mandeb é um dos pontos de estrangulamento do comércio marítimo mundial: quem controla ou ameaça aquela faixa de 20 quilômetros tem poder de pressão sobre rotas que ligam a Ásia à Europa, incluindo o fluxo de petróleo e de cargas em contêineres que passa pelo Canal de Suez. Com Mokha nas mãos dos Houthis e as forças governistas recuando para Dhubab, o grupo passa a ter capacidade de alcançar embarcações em trânsito com artilharia costeira, o que é qualitativamente diferente de lançar mísseis ou drones de posições mais distantes.
No plano econômico, o sinal mais imediato é o petróleo acima de US$ 100 por barril, nível que tende a pressionar custos de frete e de energia em todo o mundo. Qualquer interrupção relevante no fluxo por Bab el-Mandeb obriga armadores a desviar pelo Cabo da Boa Esperança, o que adiciona dias de navegação e custo operacional às rotas entre Ásia e Europa, com reflexo direto em prazos e preços de importação no Brasil e em outros países dependentes dessas cadeias.
Politicamente, a ofensiva expõe os limites da trégua de 2022 e da capacidade de contenção iraniana sobre os Houthis, o que complica qualquer negociação regional. A Arábia Saudita segue respondendo com ataques aéreos, mas sem conseguir reverter o avanço terrestre, e o canal diplomático via Paquistão não produziu resultado concreto. O risco de uma escalada mais ampla envolvendo Irã, Arábia Saudita e potências ocidentais com interesse na segurança da navegação permanece aberto.




