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Déficit de bunker pode chegar a 218 mil barris por dia e pressionar navegação
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Déficit de bunker pode chegar a 218 mil barris por dia e pressionar navegação

08/09/2026·719 palavras
Análise de risco de desabastecimento de combustível marítimo por tensões geopolíticas; impacto direto em custos operacionais de frete internacional.

O setor de transporte marítimo enfrenta risco crescente de escassez de óleo combustível marítimo, o bunker, em 2026, com um déficit projetado de 218 mil barris por dia no terceiro trimestre. A redução da oferta ocorre em meio a ataques contra infraestruturas energéticas, restrições à navegação em áreas de conflito e à priorização de derivados mais rentáveis pelas refinarias, enquanto desvios de rotas aumentam o consumo de combustível pelos navios, segundo dados da consultoria Energy Aspects citados pelo Portal Portuario.

A redução da disponibilidade já pressiona os preços nos principais centros de abastecimento. Em Singapura, maior polo de reabastecimento marítimo do mundo, o combustível de muito baixo teor de enxofre subiu 76% desde o início do conflito com o Irã e chegou a aproximadamente US$ 825 por tonelada métrica, o equivalente a cerca de US$ 130 por barril. No mesmo período, o petróleo Brent avançou 40%.

A projeção da Energy Aspects para o terceiro trimestre representa o primeiro déficit significativo de bunker desde 2025. Além das interrupções provocadas pelos conflitos, as refinarias têm direcionado uma parcela maior do petróleo para a produção de diesel e outros derivados com margens mais elevadas, reduzindo a disponibilidade de óleo combustível para o setor marítimo.

A refinaria Dangote, na Nigéria, exemplifica esse movimento. A unidade aumentou as vendas de diesel enquanto reduziu as de combustível marítimo.

A oferta também foi afetada pela redução das exportações de importantes regiões produtoras. Ataques com drones contra instalações energéticas russas contribuíram para que as exportações do combustível do país caíssem para 591 mil barris por dia em agosto, o menor nível recente.

No Oriente Médio, as exportações recuaram 45% entre março e agosto de 2026. A refinaria Al-Zour, no Kuwait, que exportava 191 mil barris por dia no início do ano, realizou apenas um carregamento de 26 mil barris desde março.

A redução da oferta também aparece nos estoques dos principais centros de distribuição. Os volumes armazenados em Singapura, Roterdã e Fujairah estão 30% abaixo das médias sazonais dos últimos três anos.

Ao mesmo tempo que a oferta diminui, as restrições à navegação elevam a demanda por combustível. Embarcações que evitam o Mar Vermelho e o Estreito de Bab el-Mandeb devido aos ataques dos Houthis precisam percorrer trajetos mais longos, o que aumenta o consumo de combustível por viagem.

Grandes companhias de navegação, como Maersk, Hapag-Lloyd, CMA CGM e MSC, alteraram rotas para evitar o eixo formado pelo Canal de Suez e pelo Estreito de Bab el-Mandeb e passaram a desviar embarcações pelo Cabo da Boa Esperança.

Os trajetos mais longos elevam o tempo de viagem e o consumo de combustível. As companhias também aplicam sobretaxas relacionadas a riscos e combustíveis sobre cargas destinadas ao Mar Vermelho, ao Golfo e à África Oriental.

A Ásia está entre as regiões mais expostas à redução da oferta. Singapura importa mais da metade de sua demanda diária de bunker, próxima a 1 milhão de barris, e depende de carregamentos provenientes do Golfo Pérsico, afetados pelo conflito com o Irã.

Alta do diesel também pressiona mercado brasileiro

O cenário internacional ocorre em um momento de aumento dos preços do diesel no Brasil. Desde o início dos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro de 2026, o preço do litro do combustível no país subiu cerca de 20%.

Em 14 de março, a Petrobras reajustou o preço do diesel em R$ 0,38. O Brasil importa cerca de 30% do combustível que consome.

No mesmo mês, 166 municípios do Rio Grande do Sul, o equivalente a aproximadamente um terço das cidades do estado, relataram problemas no abastecimento de diesel. Na ocasião, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) afirmou que não havia falta do produto e atribuiu os problemas a questões logísticas.

Para reduzir os efeitos da alta dos preços, o governo federal zerou as alíquotas de PIS e Cofins incidentes sobre o diesel e mantém uma subvenção de R$ 0,32 por litro produzido ou importado.

A pressão sobre os combustíveis ocorre em meio à redução do fornecimento de petróleo proveniente do Golfo. A Agência Internacional de Energia classificou o episódio como a maior interrupção de oferta já registrada no mercado, com redução estimada em pelo menos 10 milhões de barris por dia provenientes dos países da região, segundo informações da Reuters.

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O que está acontecendo é uma tempestade perfeita no mercado de combustível marítimo: a oferta caiu por dois lados ao mesmo tempo, com ataques destruindo infraestrutura de refino no Oriente Médio e na Rússia, enquanto a demanda sobe porque os navios precisam dar voltas maiores para evitar zonas de conflito. O resultado é um déficit que não tem solução rápida, porque refinaria não se reconstrói em semanas.

No plano do comércio exterior, o encarecimento do bunker se traduz em fretes mais altos e em sobretaxas aplicadas pelos armadores, o que eleva o custo de importação e exportação de qualquer produto transportado por via marítima. Setores como agronegócio, que dependem de longas rotas oceânicas, e indústrias que importam insumos da Ásia ou do Golfo tendem a sentir esse custo adicional nas margens. A duração do conflito é a variável que vai determinar se isso é um choque temporário ou uma mudança estrutural nos custos logísticos.

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