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Hong Kong abandona disputa por volume e aposta em tecnologia para reposicionar porto
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Hong Kong abandona disputa por volume e aposta em tecnologia para reposicionar porto

21/09/2026·646 palavras

Plano para 2026-2030 prevê modernização dos terminais de Kwai Tsing, uso de blockchain, combustíveis verdes e maior conexão com portos da Grande Baía

Depois de anos marcados pela queda na movimentação de contêineres, Hong Kong decidiu reposicionar seu porto e reduzir a dependência da disputa por volume de cargas. A mudança faz parte do primeiro Plano Quinquenal de Desenvolvimento Econômico e Social da cidade, apresentado em 16 de setembro, e estabelece as prioridades para o período de 2026 a 2030. A estratégia pretende estabilizar o fluxo de contêineres e, ao mesmo tempo, aumentar a participação de serviços marítimos e logísticos de maior valor, por meio da modernização dos terminais, da digitalização das operações, da integração regional e de investimentos em soluções de menor impacto ambiental.

Segundo o Container News, o próprio governo define o movimento como uma transição do desenvolvimento baseado em volume para um modelo orientado a valor.

Um dos principais focos será a transformação dos terminais de contêineres de Kwai Tsing. Entre as medidas previstas estão a ampliação do uso de veículos elétricos autônomos, guindastes operados remotamente e instalações de fornecimento de energia elétrica em terra para embarcações. Ao mesmo tempo, Hong Kong pretende fortalecer seu Port Community System, plataforma criada para ampliar o compartilhamento e o uso de dados entre diferentes participantes das cadeias logística e portuária.

A digitalização também deverá avançar para o rastreamento internacional de cargas. De acordo com a Hong Kong Business, mais de 8 mil empresas já se registraram no Port Community System desde seu lançamento. Após mais de 20 operações bem-sucedidas de financiamento comercial utilizando dados confiáveis sobre o fluxo das cargas, o governo pretende ampliar a cobertura da plataforma com rastreamento de mercadorias do comércio offshore baseado em blockchain.

A administração local também planeja apoiar pequenas e médias empresas na adoção de soluções logísticas integradas ao sistema.

Além da tecnologia, o plano estabelece metas ambientais para a próxima década. Hong Kong pretende reduzir em 30% as emissões de carbono dos terminais de Kwai Tsing até 2030, tendo 2021 como referência, além de criar cinco Corredores de Energia Verde. A meta também prevê que combustíveis marítimos verdes representem 7% do consumo das embarcações registradas na cidade até o fim da década.

Outro eixo da estratégia será ampliar a integração do porto com outras regiões da China. O governo pretende desenvolver conexões intermodais envolvendo ferrovias, transporte marítimo, rodoviário e fluvial para alcançar novas origens de carga e fortalecer Hong Kong como centro de transbordo de mercadorias de maior valor. Segundo as estimativas oficiais, as conexões entre Chongqing, Chengdu, Shenzhen e Hong Kong podem reduzir de duas a quatro semanas para aproximadamente três dias o transporte entre a região de Chengdu-Chongqing e Hong Kong.

A cooperação com os portos da Grande Baía também ganha espaço. O plano prevê maior aproximação com Shenzhen, Huizhou, Nansha e outros complexos da região, incluindo novos modelos de transporte transfronteiriço de contêineres e serviços integrados entre rios e mar. Conforme destacou o Splash247, a estratégia ainda inclui a possibilidade de criar uma estrutura operacional para testes e implantação de embarcações autônomas em Hong Kong e na Grande Baía.

O reposicionamento ocorre após uma sequência de retrações na movimentação portuária. Hong Kong, que chegou a ocupar a posição de maior porto de contêineres do mundo no início do século, movimentou 12,995 milhões de TEUs em 2025, queda de 5,1% em relação ao ano anterior. No primeiro semestre de 2026, o volume recuou outros 3%, para 6,38 milhões de TEUs.

Nesse cenário, a estratégia para os próximos anos busca diminuir a importância do volume isolado como indicador de competitividade. Além de modernizar a infraestrutura existente, Hong Kong pretende atrair cargas entre a América Central e do Sul e a Grande Baía, avançar em mercados como a Oceania e fortalecer sua posição como centro internacional de logística, serviços marítimos, tecnologia e transporte de cargas de maior valor agregado.

FUP Explica

O movimento de Hong Kong é, no fundo, uma admissão de que a batalha por volume de contêineres com Xangai, Shenzhen e Ningbo está perdida. Esses portos cresceram, modernizaram e absorveram cargas que antes passavam por Hong Kong, e tentar reverter isso só na base de capacidade física não faz mais sentido. A aposta em valor, tecnologia e serviços é uma saída razoável para um porto que ainda tem reputação, infraestrutura jurídica sólida e posição geográfica relevante, mas que perdeu a corrida do volume.

O ponto mais concreto do plano, no curto prazo, é a integração com a Grande Baía. Se as conexões intermodais com Chengdu e Chongqing saírem do papel e reduzirem o tempo de transporte de semanas para dias, Hong Kong pode se tornar uma porta de entrada relevante para cargas do interior da China, especialmente as de maior valor agregado, que são mais sensíveis a prazo do que a custo de frete. Isso também fortalece a posição da cidade como hub de transbordo para rotas que conectam a China ao resto do mundo, incluindo a América do Sul.

Para o Brasil, o cenário ainda é especulativo: as fontes pesquisadas não detalham impactos diretos sobre operadores ou terminais brasileiros. Mas vale monitorar: se Hong Kong avançar como hub de transbordo para cargas entre a Grande Baía e a América do Sul, isso pode influenciar a escolha de rotas e escalas que hoje passam por outros pontos. O crescimento das importações brasileiras vindas da Ásia, registrado no Porto de Santos no primeiro semestre de 2026, reforça que esse corredor comercial está em expansão, e qualquer mudança relevante na estrutura portuária da região pode ter reflexos aqui.

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