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G20 condena pressão comercial sobre alimentos, mas diverge sobre excesso de produção industrial
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G20 condena pressão comercial sobre alimentos, mas diverge sobre excesso de produção industrial

02/10/2026·713 palavras

Ministros do Comércio chegam a acordo sobre medidas coercitivas envolvendo alimentos, enquanto diferenças sobre capacidade produtiva, trabalho forçado e políticas chinesas impedem posição conjunta

Reunidos em Milwaukee, nos Estados Unidos, os ministros do Comércio do G20 chegaram a um acordo nesta quinta-feira (1º) para condenar o uso de medidas comerciais coercitivas envolvendo alimentos, mas encerraram as discussões sem consenso sobre outros dois temas que ganharam espaço no encontro: o excesso estrutural de capacidade industrial e o trabalho forçado nas cadeias de suprimentos. As divergências surgiram em meio às preocupações de vários integrantes do grupo com o avanço de produtos chineses de baixo preço sobre seus mercados.

Excesso de capacidade industrial no G20 divide posições

Segundo a Reuters, o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou que muitos dos ministros presentes demonstraram preocupação com o excesso de capacidade industrial, especialmente na China. Na avaliação apresentada por ele, existe uma percepção entre os participantes de que os instrumentos comerciais disponíveis atualmente não são suficientes para responder ao problema, argumento usado por Washington para defender as tarifas adotadas pelo país para proteger suas indústrias.

O tema, no entanto, não conseguiu reunir apoio suficiente para uma posição conjunta. Greer não informou quais países se opuseram ao texto, mas a China havia rejeitado, durante uma reunião de autoridades financeiras do G20 realizada um mês antes, uma declaração contra o trabalho forçado e políticas econômicas não orientadas pelo mercado associadas ao excesso de exportações. Pequim também contesta as acusações de que suas políticas industriais tenham provocado excesso de capacidade e acusa países ocidentais de recorrer ao argumento para justificar medidas protecionistas.

A preocupação com o volume de produtos chineses também apareceu nas declarações da União Europeia. O comissário europeu de Comércio, Maros Sefcovic, defendeu uma ação coordenada para enfrentar o excesso de capacidade e afirmou que o problema cresceu ao longo da última década, aumentando a pressão sobre setores importantes da indústria europeia, entre eles o automobilístico e o siderúrgico. Segundo ele, a entrada de grandes volumes de mercadorias pode colocar setores inteiros em risco em questão de semanas ou meses.

Mesmo sem uma posição conjunta do G20, os Estados Unidos pretendem continuar tratando do assunto com outros parceiros comerciais. Greer afirmou que Washington manterá as discussões com países que compartilham dessas preocupações depois do encontro em Milwaukee, indicando que o debate sobre capacidade industrial deve continuar fora das negociações que envolvem todos os integrantes do grupo.

Nação Mais Favorecida e energia entram na pauta

Paralelamente, os Estados Unidos levaram ao encontro uma proposta para discutir mudanças no princípio da Nação Mais Favorecida, um dos pilares do sistema multilateral de comércio. Pelo mecanismo, os membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) devem, em linhas gerais, estender aos demais integrantes condições tarifárias concedidas a um parceiro comercial, salvo exceções previstas nas próprias regras da organização. Até então, as discussões sobre essas tarifas estavam concentradas na OMC.

Greer afirmou que Washington não buscou uma declaração conjunta do G20 sobre o assunto porque considera a eventual reforma uma discussão de longo prazo. Para o representante comercial americano, o modelo de tarifas incondicionais pode prejudicar a reciprocidade e o equilíbrio do sistema comercial e favorecer países que se beneficiam das regras sem oferecer condições equivalentes aos demais.

As conversas em Milwaukee também alcançaram o mercado de energia. Greer disse ter discutido com representantes da França, Alemanha e outros países europeus uma possível cooperação para liberar parte das reservas de diesel, numa tentativa de colocar mais combustível no mercado diante das restrições de oferta e dos preços elevados.

O representante americano, porém, não respondeu diretamente a uma informação publicada anteriormente pela Reuters de que autoridades dos Estados Unidos teriam alertado França e Alemanha sobre a possibilidade de restringir as exportações americanas de diesel caso os dois países não liberassem estoques emergenciais do combustível.

Alimentos como único ponto de convergência

Em um encontro marcado pelas divergências sobre indústria, tarifas e cadeias de suprimentos, o comércio de alimentos foi o ponto em que os integrantes conseguiram avançar para uma posição comum. O acordo para condenar medidas coercitivas envolvendo produtos alimentícios contrasta com a falta de consenso sobre como responder ao excesso de capacidade industrial, tema que deve continuar nas negociações entre Estados Unidos e outros parceiros comerciais após a reunião do G20.

FUP Explica

A reunião de Milwaukee expõe uma tensão que vai além do protocolo diplomático: o G20 comércio não consegue mais funcionar como fórum de consenso quando o assunto é China. O impasse sobre excesso de capacidade industrial não é novo, mas o fato de que nem mesmo uma declaração conjunta foi possível mostra o quanto a divisão entre economias ocidentais e Pequim se aprofundou. Para os Estados Unidos e a União Europeia, o problema é concreto: setores como o automobilístico e o siderúrgico europeus já sentem a pressão de importações baratas, e os instrumentos disponíveis, segundo o próprio representante americano, não dão conta da escala do fenômeno. Isso abre espaço para que cada bloco siga seu próprio caminho, com tarifas unilaterais e acordos bilaterais fora do guarda-chuva multilateral.

A proposta americana de revisar o princípio da Nação Mais Favorecida é o sinal mais claro de que Washington quer remodelar as regras do comércio internacional, não apenas aplicá-las. Se esse debate avançar, pode afetar a lógica de acesso a mercados que orienta acordos comerciais há décadas, com consequências para qualquer país que dependa do sistema da OMC para garantir condições tarifárias previsíveis. O fato de Greer tratar o tema como discussão de longo prazo reduz a urgência imediata, mas não elimina o sinal político.

No campo da energia, a tensão sobre estoques de diesel entre Estados Unidos e Europa revela que a cooperação entre aliados também tem limites quando os interesses domésticos entram em jogo. O único ponto de convergência real foi a condenação de medidas coercitivas sobre alimentos, o que, por si só, diz muito sobre o estado atual da governança comercial multilateral: o acordo foi possível justamente onde o tema é menos sensível para as grandes potências industriais.

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