Brasil aparece entre os países com projetos capazes de contribuir para novas cadeias de abastecimento, mas fabricação de ímãs permanece como desafio
Na corrida para reduzir a dependência da China em materiais essenciais à indústria, os países ocidentais poderão diversificar o fornecimento de terras raras em três a cinco anos. O representante francês para minerais estratégicos, Benjamin Gallezot, apresentou a avaliação nesta quarta-feira (28), em Sydney, na Austrália. Durante uma conferência de mineração, ele defendeu a aceleração de projetos em diferentes países, incluindo o Brasil, para criar alternativas de abastecimento destinadas a setores como defesa, tecnologia e energia renovável.
Segundo a Reuters, Gallezot citou iniciativas na Austrália, nos Estados Unidos, no Japão, na Índia e no Brasil, além de projetos europeus conduzidos pela belga Solvay e pela francesa Carester. Para ele, esses empreendimentos, considerados em conjunto, podem proporcionar uma diversificação relevante dentro do período estimado. O resultado, porém, dependerá do avanço das iniciativas e não representa uma previsão de independência completa em relação ao mercado chinês.
Para o Brasil, a presença nessa lista sinaliza uma possibilidade de participação em novas cadeias internacionais de fornecimento. A busca por outras origens pode favorecer projetos nacionais, embora a declaração não represente anúncio de investimentos, contratos ou encomendas para o país. A reportagem também não identifica quais empreendimentos brasileiros Gallezot considerou nem apresenta seus cronogramas.
Produção industrial será decisiva
O desafio vai além da extração mineral. Gallezot afirmou que, apesar do progresso das minas e das estruturas de refino, a capacidade de fabricação de ímãs ainda pode limitar a diversificação. Portanto, aumentar a oferta de matérias-primas precisa ser acompanhado pelo desenvolvimento das etapas industriais que permitem transformar esses materiais em componentes utilizados pelos fabricantes.
Nesse cenário, a oportunidade brasileira deve ser entendida como potencial de inserção comercial e industrial. Transformá-la em fornecimento competitivo exige conectar produção, processamento e demanda. Não é possível concluir, apenas com a declaração, quanto o Brasil poderá exportar ou qual participação terá no abastecimento ocidental durante os próximos anos.
A concentração chinesa ajuda a explicar a mobilização. O país responde por até 90% da produção de alguns tipos especializados de ímãs de terras raras, conforme o material que embasa a declaração. Esse percentual se refere a componentes específicos e não deve ser interpretado como participação na extração mundial de todos os elementos desse grupo.
Restrições aceleraram busca por alternativas
Os riscos dessa dependência ficaram evidentes em 2025. De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), os controles chineses anunciados em abril daquele ano atingiram determinados elementos de terras raras, compostos e ímãs. A queda das exportações dificultou o abastecimento de montadoras, levando algumas empresas a reduzir a atividade ou interromper temporariamente a produção.
Ainda assim, o caminho para diversificar o mercado enfrenta dúvidas sobre os investimentos e o conhecimento técnico necessários. Gallezot considera que a dimensão limitada da demanda permite avançar sem criar centenas de minas. Sua avaliação é que acelerar os projetos existentes pode produzir resultados em poucos anos, embora a fabricação de ímãs continue sendo um ponto de atenção.
A estratégia também integra os compromissos do G7. Conforme a declaração de 17 de junho de 2026, publicada no site do Palácio do Eliseu, o grupo pretende reduzir para menos de 60%, até 2030, a dependência de um único fornecedor situado fora do bloco e de seus países parceiros, no caso de terras raras e ímãs permanentes. A ambição seguinte é alcançar 50% assim que possível.