FUP News
topo
topo
Geopolítica

Europa e EUA gastarão R$ 120,6 tri se não cooperarem com China

14/07/2026·583 palavras
Análise de impacto econômico de possível fragmentação comercial entre blocos geopolíticos (EUA/Europa vs. China), com implicações diretas para cadeias de suprimento e fluxos comerciais globais.

A fragmentação comercial entre os blocos ocidentais e a China pode custar até R$ 120,6 trilhões ao longo de 25 anos. É o que aponta uma análise da consultoria EY-Parthenon, divulgada pelo Financial Times, que quantifica pela primeira vez o preço fiscal e inflacionário de uma eventual dissociação econômica do Ocidente em relação a Pequim.

O custo da fragmentação comercial em números

Segundo a EY-Parthenon, os EUA precisariam investir US$ 13,7 trilhões — equivalente a R$ 70 trilhões — para substituir infraestrutura produtiva, logística, centros de pesquisa e softwares de origem chinesa ao longo de 25 anos. A Zona do Euro arcaria com US$ 9,1 trilhões (R$ 46,5 trilhões) para os mesmos fins, enquanto o Reino Unido teria um custo estimado em US$ 800 bilhões (R$ 4,08 trilhões).

O investimento anual combinado dos três blocos giraria em torno de US$ 940 bilhões. Os analistas consideram esse valor tecnicamente viável, mas ressaltam que representa gastos adicionais além dos planos já existentes em infraestrutura e defesa. Para a União Europeia, isso implicaria quase dobrar seu orçamento anual.

Inflação e juros como efeito colateral

A dissociação da economia chinesa não traria apenas um impacto fiscal. Como os preços praticados pela China são estruturalmente mais baixos do que os do Ocidente, a substituição de fornecedores elevaria os custos de produção — e esse aumento seria repassado ao consumidor. Na Europa, a projeção é de alta de preços entre 1% e 2,5% em determinados setores, com reflexos diretos sobre a taxa básica de juros.

Esse efeito inflacionário torna o debate sobre protecionismo mais complexo do que parece. Não se trata apenas de uma decisão política ou estratégica: há um custo econômico concreto e mensurável para quem optar pelo caminho da desconexão.

topo
topo

A dependência que resiste ao discurso político

A redução do comércio direto entre EUA e China desde 2017 não equivale à eliminação da dependência. Relatório da McKinsey mostrou que, no mesmo período, o comércio entre China e países da ASEAN cresceu — indicando que Pequim permanece integrada às cadeias globais por rotas alternativas, mesmo quando as trocas bilaterais recuam no papel.

Cerca de 10% do comércio mundial ainda envolve produtos com fornecimento altamente concentrado em poucos países, incluindo laptops, smartphones, ímãs permanentes e máquinas para semicondutores — majoritariamente de origem chinesa ou asiática. Isso demonstra que redesenhar origens de fornecimento é um processo lento e custoso, não uma decisão administrativa imediata.

O que muda para o operador de comex brasileiro

Para profissionais de comércio exterior no Brasil, o cenário de fragmentação comercial traz riscos e oportunidades concretas. Do lado dos riscos, setores dependentes de insumos chineses podem enfrentar pressão de custos caso fornecedores alternativos passem a disputar capacidade produtiva global com compradores ocidentais. A reconfiguração de rotas comerciais também pode alterar a competitividade de produtos brasileiros em mercados terceiros.

Por outro lado, o Brasil — como fornecedor de commodities estratégicas como minério de ferro, proteínas e grãos — pode se beneficiar da busca ocidental por diversificação de fornecedores. A reconfiguração de cadeias abre espaço para o país se posicionar como origem alternativa confiável em setores onde a dependência da China é hoje crítica. Importadores brasileiros, por sua vez, podem capturar preços mais competitivos de produtos chineses caso a demanda ocidental por esses bens recue.

O momento exige monitoramento ativo das tensões geopolíticas, revisão de estratégias de sourcing e atenção aos movimentos de defesa comercial — como antidumping e salvaguardas — que podem ser acionados em um contexto de acirramento entre Europa e China.

FUP Explica

O que a análise da EY-Parthenon deixa claro é que o discurso do 'decoupling' tem um preço — e ele é alto o suficiente para tornar improvável uma ruptura total e rápida entre o Ocidente e a China. Isso significa que, na prática, o cenário mais provável não é uma dissociação abrupta, mas uma fragmentação gradual e seletiva, com tensões pontuais em setores estratégicos como semicondutores, energia limpa e defesa. Para o operador de comex, isso se traduz em volatilidade de preços e prazos em cadeias que dependem de insumos chineses — mesmo que o fornecedor direto não seja a China.

Compartilhar:WhatsAppX (Twitter)LinkedIn

Leia também