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Lucros industriais da China desaceleram com demanda interna enfraquecida
Geopolítica

Imagem: Douglas Johnson

Lucros industriais da China desaceleram com demanda interna enfraquecida

28/09/2026·583 palavras

Avanço caiu de 11,2% em julho para 4,2% em agosto, enquanto tecnologia sustenta resultados e consumo fraco aumenta a dependência das fábricas em relação às exportações

O crescimento dos lucros das grandes indústrias chinesas perdeu força em agosto, pressionado pela demanda doméstica enfraquecida e pelo excesso de capacidade em alguns setores, apesar do avanço expressivo da fabricação de equipamentos ligados à tecnologia e à inteligência artificial. Dados divulgados nesta segunda-feira (28), em Pequim, pelo Escritório Nacional de Estatísticas da China (NBS) mostram que os ganhos das empresas industriais cresceram 4,2% em relação ao mesmo mês de 2025, abaixo dos 11,2% registrados em julho, em um cenário que tem levado fabricantes a buscar nos mercados externos melhores margens para seus produtos.

Segundo a Reuters, no acumulado dos oito primeiros meses de 2026, os lucros industriais aumentaram 15,7%, também abaixo dos 17,6% registrados entre janeiro e julho. As estatísticas consideram empresas com receita anual de pelo menos 20 milhões de yuans, cerca de US$ 2,98 milhões, em suas principais operações.

A desaceleração, porém, não ocorre de maneira uniforme. A indústria de computadores, equipamentos de comunicação e outros eletrônicos liderou os ganhos, com alta de 110% nos lucros entre janeiro e agosto. O resultado acompanha o crescimento das atividades relacionadas à inteligência artificial, que tem sustentado parte da produção industrial chinesa.

Enquanto a tecnologia avança, segmentos mais dependentes do consumo interno enfrentam dificuldades. A indústria de vinhos, bebidas e chá processado ficou entre os piores desempenhos do período, com queda de 34,7% nos lucros. A diferença entre os setores evidencia um dos desequilíbrios da economia chinesa: a capacidade produtiva permanece elevada, mas a demanda das famílias não cresce no mesmo ritmo.

Esse cenário também pressiona a capacidade das empresas de sustentar preços e margens no mercado doméstico. Com o consumo enfraquecido e excesso de oferta em determinados segmentos, parte das fábricas chinesas tem recorrido aos mercados internacionais em busca de maior rentabilidade, reforçando o peso das exportações nos resultados da indústria.

A maior dependência das vendas externas, entretanto, surge em um momento de atenção crescente sobre o superávit comercial chinês e de tensões entre Pequim e alguns de seus principais parceiros. Na semana passada, China e Estados Unidos concordaram em reduzir tarifas sobre US$ 30 bilhões em mercadorias e abrir um diálogo sobre riscos e benefícios da inteligência artificial durante a visita do presidente chinês, Xi Jinping, a Washington. Apesar do movimento, permanecem divergências comerciais e geopolíticas entre as duas maiores economias do mundo.

Ao mesmo tempo, o avanço da inteligência artificial pode aprofundar o descompasso entre produção e consumo. No início de setembro, um conselheiro do banco central chinês alertou que a tecnologia pode reforçar o desequilíbrio entre uma oferta robusta e uma demanda mais fraca, aumentando a pressão por medidas capazes de estimular os gastos das famílias e fortalecer a economia doméstica.

Para Ding Meng, economista-chefe do China CITIC Bank International, a evolução dos resultados industriais dependerá de uma recuperação mais consistente do consumo. O economista defendeu medidas para elevar a renda das famílias, estimular os gastos e fortalecer a demanda doméstica como forma de sustentar o crescimento dos lucros das empresas.

Os números de agosto mostram, assim, uma indústria que continua lucrativa, mas com diferenças cada vez mais acentuadas entre os setores. Enquanto tecnologia e eletrônicos avançam impulsionados pela inteligência artificial, atividades mais expostas ao consumo enfrentam margens pressionadas. Nesse ambiente, o desempenho da demanda doméstica e o acesso aos mercados externos devem continuar influenciando os resultados da indústria chinesa nos próximos meses.

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O dado de agosto revela um problema estrutural que o governo chinês enfrenta há anos: a economia cresce pela produção, mas não pelo consumo. Quando as famílias não gastam no ritmo em que as fábricas produzem, o excedente precisa sair por algum lugar, e esse lugar costuma ser o mercado externo. O resultado é um superávit comercial que irrita parceiros e alimenta disputas tarifárias, como a que China e Estados Unidos tentam administrar com o acordo anunciado na semana passada. A redução de tarifas sobre US$ 30 bilhões em mercadorias é um sinal de distensão, mas não resolve o desequilíbrio de fundo: enquanto o consumo doméstico chinês não ganhar tração, a pressão exportadora continuará existindo e continuará gerando atrito.

O alerta do conselheiro do banco central sobre a inteligência artificial acrescenta uma camada a mais nessa equação. Se a IA eleva a produtividade industrial sem elevar proporcionalmente a renda dos trabalhadores, o desequilíbrio entre oferta e demanda tende a se aprofundar. Isso significa que o setor de tecnologia, que hoje puxa os lucros para cima com alta de 110%, pode ao mesmo tempo agravar o problema que derruba os lucros de setores como bebidas e alimentos processados. A saída apontada por Ding Meng, do China CITIC Bank International, é política fiscal voltada para elevar a renda das famílias, mas essa é uma mudança de modelo que o governo chinês discute há anos sem implementar de forma decisiva.

Para quem acompanha fluxos de comércio internacional, o cenário reforça a expectativa de que a China continuará exportando com agressividade em setores onde tem excesso de capacidade. Isso pode manter pressão sobre produtores de outros países que competem nos mesmos segmentos, e também sobre governos que avaliam medidas de defesa comercial contra produtos chineses.

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