FUP News
EUA encerram missão militar no Iraque após mais de duas décadas
Geopolítica

Imagem gerada por IA

EUA encerram missão militar no Iraque após mais de duas décadas

30/09/2026·625 palavras

Mais de duas décadas depois de invadir o Iraque e derrubar Saddam Hussein, os Estados Unidos encerraram nesta quarta-feira (30) sua missão militar no país e retiraram as últimas tropas, concentradas principalmente em uma base aérea em Erbil, no Curdistão iraquiano. A saída coloca as forças locais à frente da segurança nacional em um momento de incerteza, com autoridades e especialistas preocupados tanto com o espaço deixado para grupos armados apoiados pelo Irã quanto com a possibilidade de o Estado Islâmico explorar eventuais brechas para se reorganizar.

A retirada havia sido acertada em 2024, durante o governo de Joe Biden, e foi concluída pela administração de Donald Trump em meio à guerra dos Estados Unidos contra o Irã. Segundo a Reuters, o Pentágono declarou formalmente encerrada a Operação Inherent Resolve, embora Washington e seus parceiros devam continuar oferecendo treinamento direcionado e apoio de inteligência às forças iraquianas. A responsabilidade de manter os remanescentes do Estado Islâmico sob controle, porém, passa principalmente ao governo do Iraque.

O primeiro-ministro iraquiano, Ali Faleh al-Zaidi, afirmou que o fim da missão internacional não representa o encerramento da luta contra o terrorismo, mas marca uma nova etapa em que o país assume integralmente a responsabilidade por sua segurança e estabilidade. Apesar de a retirada ser bem recebida por parte da população, há dúvidas sobre a capacidade das forças locais de ocupar o espaço deixado pela coalizão.

O temor está ligado, sobretudo, ao que ocorreu após a primeira retirada americana. As tropas dos Estados Unidos deixaram o Iraque no fim de 2011, mas retornaram menos de três anos depois, quando o Estado Islâmico conquistou cerca de um terço do território do país. Em 2014, soldados iraquianos abandonaram posições diante do avanço do grupo sobre Mossul, a segunda maior cidade iraquiana.

Mesmo após a derrota do autoproclamado califado, em 2017, o Estado Islâmico manteve uma rede de células adormecidas. Nos últimos anos, militares americanos forneceram inteligência, vigilância aérea e reconhecimento às forças iraquianas para acompanhar os movimentos do grupo. Agora, integrantes das forças de segurança temem que a redução desse suporte crie condições para uma reorganização dos extremistas.

O general aposentado Mohammed al-Jubouri, que comandou uma brigada durante a guerra contra o Estado Islâmico, afirmou que uma das principais questões é saber se as instituições iraquianas prepararam uma alternativa para a fase posterior à coalizão. Entre os cenários de risco mencionados por ele está o acesso dos extremistas a drones armados ou adaptados para transportar explosivos, enquanto o Iraque ainda enfrenta limitações em sua capacidade de defesa aérea.

A retirada também altera a disputa por influência dentro do país. Desde a queda de Saddam Hussein, o Irã fortaleceu sua presença por meio de grupos armados aliados e apresenta a saída americana como uma vitória de seu chamado "eixo de resistência". Para o analista político Ahmed Younis, a ausência de uma presença militar ocidental pode estimular essas organizações a buscar maior participação nas decisões do Estado e consolidar posições em instituições iraquianas.

O encerramento da missão fecha mais um capítulo de uma presença militar iniciada em 2003, quando forças lideradas pelos Estados Unidos invadiram o Iraque e derrubaram Saddam Hussein. Ao longo de mais de duas décadas, mais de 4,5 mil militares americanos morreram no país. O projeto Iraq Body Count estima ainda que mais de 200 mil civis iraquianos tenham sido mortos no período.

Com a saída, o Iraque entra novamente em uma fase na qual sua capacidade de manter o equilíbrio interno será colocada à prova. Para parte dos iraquianos, a retirada representa a retomada plena da responsabilidade pela segurança do país. Para outros, o resultado será medido pela capacidade do governo de impedir que o espaço deixado pelas tropas estrangeiras seja ocupado por milícias ou explorado novamente pelo Estado Islâmico.

FUP Explica

Do ponto de vista político e de segurança, a retirada militar dos EUA do Iraque é um dos movimentos mais delicados da região desde a queda do califado do Estado Islâmico em 2017. O precedente de 2011 pesa muito aqui: naquela ocasião, a saída americana abriu espaço para o avanço do grupo sobre um terço do território iraquiano em menos de três anos, o que forçou o retorno das tropas. Repetir esse ciclo seria um fracasso político enorme para o governo iraquiano e um problema de segurança com repercussão muito além das fronteiras do país.

No plano da disputa de influência, quem sai ganhando no curto prazo é o Irã. O país vinha construindo sua presença no Iraque por meio de grupos armados aliados desde a queda de Saddam Hussein, e a saída americana reduz o principal contrapeso a essa influência. O analista Ahmed Younis aponta que essas organizações podem usar o momento para avançar dentro das instituições iraquianas, o que tornaria ainda mais difícil para o governo central manter autonomia nas suas decisões. Isso não é só um problema interno: um Iraque mais permeável à influência iraniana altera o equilíbrio de forças em toda a região.

Socialmente, o custo humano acumulado é imenso. Mais de 4,5 mil militares americanos e, segundo o Iraq Body Count, mais de 200 mil civis iraquianos morreram ao longo de mais de duas décadas de conflito. A retirada encerra a presença formal, mas não apaga esse passivo. Para a população iraquiana, o que vem a seguir depende da capacidade real das forças locais de manter a ordem, e as dúvidas levantadas pelo general aposentado Mohammed al-Jubouri, sobre defesa aérea e acesso dos extremistas a drones, mostram que essa capacidade ainda tem lacunas concretas a preencher.

Compartilhar:WhatsAppX (Twitter)LinkedIn

Leia também