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EUA acusam Cosco Shipping de instalar equipamentos de espionagem em navios
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EUA acusam Cosco Shipping de instalar equipamentos de espionagem em navios

01/09/2026·769 palavras
Acusações contra maior operadora de contêineres global levantam questões de segurança e possíveis restrições comerciais que podem afetar cadeias de suprimento internacionais.

Dois altos funcionários do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acusaram a estatal chinesa Cosco Shipping de instalar equipamentos ocultos em seus navios para interceptar comunicações militares perto da costa de países considerados alvos, incluindo os Estados Unidos. As alegações, divulgadas em 1º de setembro de 2026 pela Reuters, surgem às vésperas de uma cúpula prevista entre Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, em Washington, ainda em setembro.

Os funcionários, que falaram sob condição de anonimato, afirmaram que a Cosco mantém há décadas uma parceria de coleta de inteligência com Pequim. Segundo eles, o sistema permitiria à China interceptar sinais de comunicação de navios e aeronaves em operação na Europa, na América do Norte e na Ásia.

A Embaixada da China em Washington rejeitou as acusações. O porta-voz Liu Chang afirmou que o governo chinês nunca pediria a empresas ou indivíduos que coletassem ou fornecessem dados, informações ou inteligência no exterior em violação às leis locais. A representação diplomática também declarou se opor ao que classificou como tentativa de difamar a China por meio de uma narrativa de coleta de inteligência sem fundamento. A Cosco Shipping não respondeu aos pedidos de comentário, segundo o Daily Sabah.

Funcionários apontam suposta coleta de inteligência

De acordo com os funcionários norte-americanos, os equipamentos instalados a bordo dos navios teriam como finalidade coletar informações sobre tecnologias militares de comunicação e avanços em criptografia. Um dos funcionários afirmou que a suposta operação também permitiria monitorar corredores marítimos e rotas relevantes tanto para o comércio quanto para operações militares.

Os funcionários não especificaram quais equipamentos estariam sendo utilizados, mas disseram que seriam plataformas sofisticadas de inteligência de sinais, e não dispositivos convencionais de comunicação.

Segundo as autoridades ouvidas, Pequim poderia utilizar as informações coletadas para fortalecer sua posição em disputas territoriais, obter maior conhecimento sobre atividades marítimas e receber alertas antecipados sobre objetivos militares estrangeiros.

Em resposta às alegações, a Embaixada da China em Washington afirmou que Pequim não solicita a empresas ou cidadãos chineses a obtenção ilegal de informações no exterior. A Cosco, por sua vez, não havia respondido às solicitações de comentário mencionadas nas reportagens até a divulgação das acusações.

As alegações ganham relevância diplomática por terem sido divulgadas poucos dias antes do encontro previsto entre Trump e Xi. A reunião deverá ocorrer em meio às negociações comerciais entre as duas maiores economias do mundo e às persistentes tensões entre Washington e Pequim nas áreas de segurança, tecnologia e comércio.

As suspeitas sobre o possível emprego de embarcações comerciais chinesas em atividades de inteligência são anteriores às acusações atuais.

Um relatório publicado pela Escola de Guerra Naval dos Estados Unidos em abril de 2025 considerou provável que o Exército Popular de Libertação da China estivesse aproveitando frotas pesqueiras e embarcações comerciais do país em atividades de inteligência e vigilância.

Em janeiro de 2025, o Pentágono incluiu a Cosco Shipping em sua lista de empresas consideradas vinculadas às Forças Armadas chinesas. A classificação pode provocar danos reputacionais e impedir determinadas contratações com o governo dos Estados Unidos, mas não representa, por si só, a aplicação de sanções formais.

Presença da Cosco nos EUA dificulta eventual reação

Apesar da classificação adotada pelo Pentágono, a Cosco continua sendo uma das principais companhias de navegação com operações em portos norte-americanos. A estatal chinesa também participa de empresas conjuntas que prestam serviços em terminais de navios porta-contêineres nos Estados Unidos.

Isaac Kardon, especialista em estratégia marítima chinesa da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, afirmou que o elevado nível de integração da Cosco ao comércio dos Estados Unidos pode dificultar uma resposta mais incisiva de Washington às preocupações de segurança.

“Extrair a Cosco de nossas cadeias de suprimento e redes de transporte poderia ser uma cirurgia de vida ou morte para as redes comerciais dos Estados Unidos”, declarou Kardon ao Portal Portuario.

Disputa ocorre em meio a negociações comerciais

A controvérsia também ocorre em um momento de negociações comerciais entre Washington e Pequim. Em 2025, o governo Trump planejava impor bilhões de dólares em tarifas portuárias a companhias de navegação chinesas, entre elas a Cosco, como parte de uma iniciativa para fortalecer as indústrias marítima e de construção naval dos Estados Unidos.

O plano foi suspenso depois que Trump e Xi chegaram, em outubro de 2025, a um acordo para estabelecer uma trégua de um ano na disputa comercial. O entendimento expira em novembro de 2026. Uma eventual prorrogação deverá estar entre os assuntos discutidos pelos dois líderes durante as conversações previstas para setembro, ao lado de outras questões comerciais e de segurança que envolvem Estados Unidos e China.

FUP Explica

O timing das acusações importa tanto quanto o conteúdo delas. Vazar informações sobre espionagem da Cosco dias antes de uma cúpula Trump-Xi é, no mínimo, uma sinalização de pressão. O governo dos EUA pode estar usando o episódio como moeda de negociação, seja para extrair concessões comerciais, seja para justificar medidas mais duras contra navieras chinesas caso a trégua comercial, que vence em novembro de 2026, não seja renovada em termos favoráveis.

O problema é que a posição americana é estruturalmente frágil, como o próprio especialista ouvido pelo Portal Portuario deixou claro. A Cosco está tão enraizada nos terminais e nas cadeias de suprimento dos EUA que qualquer ação mais drástica, como sanções formais ou restrição de acesso a portos, causaria dano imediato ao próprio comércio americano. Isso limita o arsenal real de Washington e transforma a acusação, por ora, mais em pressão política do que em ação concreta.

Do lado chinês, a negativa foi rápida e categórica, sem abrir espaço para investigação conjunta ou qualquer sinalização de cooperação. Esse padrão reforça o impasse: os EUA têm dificuldade de agir sem se machucar, e a China não tem incentivo para ceder. Para quem opera no comércio internacional com passagem por portos americanos ou com carga embarcada em navios da Cosco, o cenário de curto prazo é de incerteza regulatória, especialmente se as negociações de setembro não resultarem em acordo claro sobre a renovação da trégua comercial.

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