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EUA abrem cota extra de 300 mil toneladas de carne e Brasil pode ficar com até 40%
Trump abre cota de 300 mil toneladas de carne bovina para importação nos EUA; Brasil pode capturar 40% (90-120 mil toneladas) em 90 dias, oportunidade crítica para frigoríficos exportadores.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou em 26 de agosto de 2026 uma proclamação que abre uma cota adicional para a importação de carne bovina com imposto menor. A medida entrou em vigor em 1º de setembro e tem validade de 90 dias. Segundo o G1, o objetivo é aumentar a oferta e tentar conter a alta dos preços da carne no mercado norte-americano, onde o rebanho bovino atingiu o menor nível em 75 anos.
A cota se aplica especificamente a carnes magras utilizadas na produção de carne moída e na preparação de hambúrgueres, permitindo a entrada de até 100 mil toneladas por mês durante o período de vigência. Frigoríficos brasileiros podem fornecer entre 90 mil e 120 mil toneladas dessa cota, o que representaria de 30% a 40% do volume total. A estimativa é de Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado.
Iglesias destacou ao G1 que o tamanho da indústria brasileira e o número de frigoríficos habilitados a exportar para os Estados Unidos colocam o país em posição favorável na disputa por esse mercado. Segundo o analista, os concorrentes mais diretos do Brasil nesse volume adicional são o Paraguai e países da América Central.
Outro fator favorável ao Brasil é que a nova cota não se aplica a países que possuem cotas específicas de carne bovina. A Argentina, por exemplo, já conta com cotas próprias para o mercado norte-americano.
A demanda está concentrada em carnes magras e aparas retiradas durante o processamento da carcaça e utilizadas, entre outras finalidades, na produção de carne moída. Como esse produto tem menor valor agregado e representa apenas uma parte da carcaça, os frigoríficos precisam avaliar o preço pago pelos compradores norte-americanos, os custos de exportação e o retorno que poderiam obter com o mesmo animal em outros mercados.
Exportações brasileiras para os EUA em 2026
De janeiro a agosto de 2026, os Estados Unidos compraram 269,1 mil toneladas de carne bovina brasileira, gerando receita de US$ 1,74 bilhão. O volume foi 28,7% maior que o registrado no mesmo período de 2025.
Atualmente, o Brasil participa de uma cota compartilhada de 52,4 mil toneladas para exportar aos Estados Unidos sem tarifa extra. Segundo Fernando Iglesias, da Safras & Mercado, esse volume foi totalmente utilizado em apenas 15 dias. Depois do preenchimento da cota, a carne brasileira pode continuar entrando no mercado norte-americano, mas passa a pagar uma tarifa adicional de 26,4%.
A nova medida de Trump abre, por 90 dias, uma cota adicional de até 300 mil toneladas, melhorando as condições de acesso ao mercado norte-americano para os países que conseguirem ocupar esse espaço.
Em novembro de 2025, Trump retirou determinados produtos agrícolas, incluindo carne bovina, do alcance das tarifas recíprocas anunciadas anteriormente, reduzindo a tributação sobre esses produtos, segundo a Agência Brasil.
FUP Explica
A abertura dessa cota chega num momento em que o setor exportador de carne bovina brasileiro está navegando num cenário de dois pesos e duas medidas: de um lado, a janela americana se abre por 90 dias com tarifa reduzida; do outro, a China, que é de longe o maior comprador do Brasil, passou a cobrar tarifa extra de 55% sobre volumes acima da cota. Isso significa que parte do que o Brasil não conseguir vender para a China dentro do limite pode encontrar escoamento nos EUA, e vice-versa, mas as contas não fecham automaticamente porque o perfil de corte demandado pelos dois mercados é diferente.
O dado mais relevante aqui é que países com cotas bilaterais com os EUA ficam de fora dessa rodada. Isso coloca o Brasil numa posição privilegiada em relação a concorrentes que normalmente têm acesso garantido ao mercado americano, e a Safras & Mercado estima que os frigoríficos brasileiros podem capturar entre 30% e 40% de uma cota de 300 mil toneladas. É um volume expressivo, mas a janela é curta: 90 dias, com validade até o final de novembro de 2026. A velocidade de embarque e a capacidade logística dos frigoríficos vão determinar quanto do potencial vira receita de fato.
No plano mais amplo, a situação reforça a dependência do setor em relação a decisões unilaterais de política comercial de outros países. A cota americana foi criada para resolver um problema interno dos EUA, não para beneficiar o Brasil, e pode ser encerrada ou não renovada sem aviso. A tarifa chinesa, por sua vez, foi desenhada para proteger a produção local. O Brasil está aproveitando janelas que se abrem por razões alheias ao seu controle, o que torna o planejamento de médio prazo para o setor mais incerto do que os números de curto prazo sugerem.




