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El Niño pode elevar custo de contêineres em Manaus em 147% e reduzir capacidade em 55%
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El Niño pode elevar custo de contêineres em Manaus em 147% e reduzir capacidade em 55%

18/09/2026·809 palavras

Um estudo da A&M Infra, da Alvarez & Marsal, elaborado para a Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (ABAC), aponta que a redução da navegabilidade dos rios durante o El Niño pode elevar em até 147% o custo unitário do transporte marítimo de contêineres em Manaus. No cenário mais severo analisado, a capacidade de transporte de cargas cairia 55%. Os dados foram divulgados pela CNN Brasil nesta sexta-feira (18), em meio à previsão de um El Niño intenso em 2026 e 2027 e ao risco de redução dos níveis dos rios da Região Norte.

O levantamento considera uma operação teórica de cabotagem e não representa custos ou resultados financeiros de empresas específicas. O objetivo é dimensionar os possíveis efeitos da redução da navegabilidade durante o El Niño de 2026. O governo elabora planos de contingência para enfrentar eventuais restrições à navegação.

No cenário mais severo considerado pelo estudo, a profundidade da Hidrovia da Barra Norte cairia de 11,5 metros para 8,3 metros. Nessas condições, o custo unitário do transporte marítimo de contêineres poderia aumentar até 147%, enquanto a capacidade de transporte de cargas seria reduzida em 55%. O documento também considera a possibilidade de restrições de calado e de navegabilidade no trecho entre Itacoatiara e Manaus.

Em outro cenário, com restrição de 2 metros no calado, a capacidade de transporte cairia 35%, enquanto o custo unitário de um contêiner cheio subiria 63%.

A elevação dos custos ocorre porque a redução do calado obriga os navios a transportar menos carga. Ao mesmo tempo, despesas da operação permanecem. O estudo considera custos como afretamento, combustível, praticagem e operação, além de gastos adicionais com a armazenagem de contêineres que deixam de ser embarcados em razão das restrições.

O diretor-executivo da ABAC, Luis Resano, afirmou à CNN Brasil que, mesmo diante de restrições à navegação, “os principais custos da operação permanecem”. Ele também destacou a necessidade de “avançar em soluções estruturais que deem maior previsibilidade à navegação”.

As consequências operacionais podem ir além do custo por contêiner. Segundo o estudo divulgado pela CNN Brasil, restrições de calado podem causar atrasos, omissões de escalas, transbordos adicionais e dificuldades no reposicionamento de contêineres vazios.

Como os serviços de cabotagem trabalham com escalas regulares, atrasos em Manaus também podem afetar outros portos da rota e comprometer a programação das embarcações. Com menor espaço disponível nos navios, parte da demanda pode ainda precisar recorrer a alternativas de transporte mais caras e lentas.

A situação projetada pelo estudo ocorre após episódios de seca que já afetaram o transporte de cargas na Região Norte. Em 2023, quando a estiagem provocou paralisações no transporte de cargas nos rios da região, o calado da Hidrovia da Barra Norte chegou a 6,5 metros. No segundo semestre de 2024, a seca voltou a dificultar o transporte de mercadorias.

A dimensão da estiagem de 2023 também aparece em registros da Agência Brasil. Em 27 de outubro daquele ano, o Rio Negro atingiu 12,70 metros na medição do Porto de Manaus, então a menor cota registrada no local. Em novembro, quando a Agência Brasil publicou a informação, o nível já havia começado a subir.

Dados divulgados pela Allog em setembro de 2023 mostravam que, naquele período, as principais bacias de rios afluentes, como Negro e Solimões, apresentavam vazante abaixo da faixa considerada normal para a época. As quedas médias diárias estavam em torno de 15 centímetros.

Naquele episódio, as restrições de navegabilidade limitaram em cerca de 40% os embarques e desembarques de contêineres. Armadores também passaram a aplicar a chamada Low Water Surcharge (LWS), taxa adicional utilizada para compensar custos operacionais associados à menor capacidade de carga. Esses dados se referem especificamente à situação observada em 2023.

Dependência do transporte hidroviário

A importância das hidrovias para o transporte regional também aparece em estudo publicado pela Revista FT em março de 2025. O trabalho aponta a hidrovia Solimões-Amazonas como a principal rota de transporte de cargas da Região Norte e destaca a importância do modal aquaviário para a movimentação de mercadorias na Amazônia.

O estudo acadêmico cita dados anteriores segundo os quais a Região Hidrográfica Amazônica possui 16.797 quilômetros de vias navegáveis economicamente, aproximadamente 80% das vias brasileiras exploradas economicamente. Como esses números têm origem em levantamentos anteriores à publicação do artigo de 2025, eles servem como referência histórica sobre a dimensão da infraestrutura hidroviária e não como retrato atualizado de 2026.

A dependência desse sistema torna as condições dos rios relevantes para a logística regional. O mesmo estudo destaca que a navegabilidade varia de acordo com fatores como profundidade, largura das rotas, sinuosidade, presença de corredeiras e comportamento das vazantes ao longo do ciclo hidrológico.

Com a previsão de um El Niño intenso em 2026 e 2027, o risco de novas restrições voltou ao centro das preocupações do setor. O governo prepara planos de contingência para enfrentar possíveis limitações à navegação na Região Norte.

FUP Explica

O estudo da A&M Infra coloca números concretos num risco que o setor conhece bem, mas que raramente é quantificado com esse nível de detalhe. Uma alta de 147% no custo unitário de contêineres não é marginal: ela pressiona toda a cadeia de abastecimento de Manaus, cidade que depende quase exclusivamente da hidrovia para receber e escoar mercadorias. O Polo Industrial de Manaus, que opera sob regime de Zona Franca e tem logística sensível a custo e prazo, é um dos pontos mais vulneráveis desse cenário.

Do lado do comércio exterior, a combinação de sobretaxas crescentes, como a LWS de US$ 1.350 da Hapag-Lloyd já em vigor desde setembro de 2026, com a perspectiva de restrições ainda mais severas ao longo da estiagem, encarece tanto importações quanto exportações via Porto de Manaus. Importadores que dependem de insumos vindos por cabotagem ou navegação de longo curso enfrentam custo adicional direto por contêiner, enquanto exportadores têm menos espaço de carga disponível por viagem, o que pode atrasar embarques ou forçar renegociação de contratos.

O ponto mais preocupante do estudo é o cenário intermediário: uma restrição de 2 metros no calado já seria suficiente para reduzir em 35% a capacidade de transporte e elevar em 63% o custo unitário. Esse nível de restrição é factível mesmo sem atingir o pior caso histórico, o que torna o risco imediato, não hipotético. A declaração do diretor da ABAC sobre a necessidade de soluções estruturais aponta que o setor não vê os planos de contingência do governo como resposta suficiente a um problema que se repete com crescente intensidade.

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