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Dívidas atingem 82% das famílias brasileiras e inadimplência volta a subir
Inadimplência das famílias brasileiras sobe em agosto com endividamento em patamar recorde; cenário de demanda fraca afeta perspectivas de importação e consumo.
O percentual de famílias brasileiras endividadas permaneceu em 82% em agosto de 2026, enquanto a parcela com contas ou dívidas em atraso subiu para 29,9%, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada em 10 de setembro pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O endividamento ficou no mesmo patamar pelo sétimo mês consecutivo, enquanto a inadimplência avançou 0,1 ponto percentual em relação a julho, conforme dados publicados pelo Portal do Comércio.
A parcela de consumidores que declararam não ter condições de pagar as contas em atraso aumentou para 12,5%, maior percentual desde fevereiro de 2026. O levantamento também mostrou mudança na percepção das famílias sobre o peso das dívidas. O grupo que se declarou “muito endividado” chegou a 17,4%, enquanto a parcela dos que se consideravam “pouco endividados” recuou para 34,9%.
As famílias com renda mensal de até três salários mínimos foram a única faixa analisada a registrar aumento da inadimplência em agosto.
Nesse grupo, a proporção de consumidores com contas em atraso passou de 38,5% em julho para 38,8% em agosto, alta de 0,3 ponto percentual. O endividamento também cresceu 0,2 ponto percentual e chegou a 85,1%, maior percentual entre as faixas de renda analisadas.
A situação também se deteriorou entre os consumidores que afirmaram não ter condições de quitar as pendências. Nessa faixa de renda, o indicador avançou 0,5 ponto percentual e chegou a 18,3%.
O cartão de crédito permanece como a principal modalidade de endividamento das famílias brasileiras e aparece entre mais de 85% dos consumidores endividados, segundo a Agência Brasil. Dados referentes a janeiro de 2026 mostravam que as famílias permaneciam comprometidas com dívidas por um período médio de 7,2 meses. Naquele mês, o pagamento de dívidas correspondia, em média, a 29,7% da renda familiar.
Ainda em janeiro, 19,5% das famílias declararam destinar mais da metade dos rendimentos ao pagamento de dívidas. Os números de janeiro representam um retrato daquele período e não devem ser interpretados como indicadores referentes a agosto.
Os indicadores de endividamento vêm permanecendo em níveis historicamente elevados. Em janeiro de 2026, 79,5% das famílias declaravam possuir dívidas, percentual que igualava o recorde registrado em outubro de 2025.
Entre 2023 e 2025, o indicador permaneceu próximo de 78% e voltou a subir em 2026, segundo dados citados pelo IREE. A CNC relaciona o cenário atual ao nível elevado dos juros. José Roberto Tadros, presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, afirmou em 10 de setembro que o país chega ao último trimestre de 2026 com endividamento elevado e crescimento da inadimplência.
“Estamos chegando ao último trimestre do mesmo jeito que começamos o ano, com recorde de endividamento e crescimento da inadimplência”, declarou Tadros. O presidente da entidade atribuiu parte do cenário aos “juros elevados”, que, segundo ele, reforçam o ciclo observado desde meados de 2025.
A CNC projeta que o percentual de famílias endividadas poderá chegar a 82,6% em setembro de 2026, enquanto a inadimplência poderá atingir 30,3%. As estimativas representam projeções da entidade e poderão ser alteradas de acordo com o comportamento do crédito e das famílias ao longo do mês.
Tadros afirmou que Black Friday, Natal e férias de verão podem favorecer o movimento do comércio nos próximos meses, sobretudo diante de uma eventual redução do custo do crédito. Segundo o Portal do Comércio, ele condicionou parte dessa melhora a uma taxa de juros “mais compatível”.
No campo das políticas públicas, o governo federal lançou em 2026 uma nova iniciativa denominada Novo Desenrola Brasil, com frentes relacionadas à renegociação de dívidas e ao crédito para famílias, empresas e estudantes, segundo o IREE.
FUP Explica
O dado mais preocupante desta pesquisa não é o percentual de inadimplentes em si, mas a persistência do endividamento em 82% pelo sétimo mês seguido. Isso indica que o problema não é conjuntural, um mês ruim aqui ou ali, mas estrutural: as famílias estão entrando em 2026 e chegando ao último trimestre sem conseguir sair do vermelho.
Com a Selic elevada desde meados de 2025, o custo do crédito corrói a capacidade de pagamento antes mesmo de o consumidor conseguir quitar o que deve, criando um ciclo difícil de romper sem queda consistente dos juros.
O recorte por renda revela onde a pressão é mais aguda. Famílias com até três salários mínimos concentram os piores indicadores em todas as dimensões medidas pela Peic: maior endividamento, maior inadimplência e maior proporção de quem declara não ter como pagar. Para esse grupo, o cartão de crédito, que responde por mais de 85% das dívidas entre os endividados, funciona como substituto de renda em meses de aperto, não como instrumento de consumo planejado. Isso torna a dívida mais cara e mais difícil de controlar.
Do ponto de vista econômico mais amplo, famílias endividadas consomem menos e com mais cautela, o que tende a segurar o ritmo do comércio varejista nos próximos meses. A projeção da CNC de que a inadimplência pode chegar a 30,3% em setembro reforça que o cenário não deve se reverter no curto prazo, mesmo com iniciativas como o Novo Desenrola Brasil, que ainda precisam ganhar escala para alterar a trajetória de forma significativa.




