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BCE eleva juros da zona do euro a 2,5% diante de choque de energia e pressão inflacionária
O Banco Central Europeu (BCE) elevou nesta quinta-feira (10) a taxa de depósito em 0,25 ponto percentual, de 2,25% para 2,5%, na segunda alta em três meses, em uma tentativa de conter a aceleração da inflação na zona do euro provocada principalmente pelo encarecimento da energia em meio à guerra envolvendo o Irã. A decisão, tomada em Frankfurt, ocorre após a inflação anual do bloco atingir 3,3% em agosto e diante da continuidade das tensões no Estreito de Ormuz, que restringem a oferta de petróleo e aumentam a pressão sobre combustíveis, custos empresariais e expectativas de preços.
Além da taxa de depósito, principal referência da política monetária europeia, o BCE elevou a taxa de refinanciamento para 2,65% e a facilidade permanente de cedência de liquidez para 2,9%.
O movimento é o segundo desde 11 de junho, quando a autoridade monetária havia aumentado os juros pela primeira vez em três anos. A inflação de agosto avançou de 2,9% em julho para 3,3%, maior nível desde setembro de 2023, enquanto a inflação de energia saltou de 10,3% para 14,3%. O petróleo Brent voltou a superar US$ 100 por barril na quarta-feira, pressionado por novos confrontos entre Estados Unidos e Irã.
Apesar da alta do índice cheio, os dados subjacentes permanecem mais moderados. A inflação núcleo, que exclui energia, alimentos, álcool e tabaco, recuou de 2,5% para 2,4%, enquanto a inflação de serviços caiu de 3,3% para 3%. Um estudo de economistas do próprio BCE estimou que fatores adversos ligados à oferta de energia responderam por cerca de 90% do aumento da inflação energética entre janeiro e maio, reforçando a avaliação de que o atual choque tem origem predominantemente na oferta, e não em um excesso de demanda.
O banco central manteve a projeção de inflação média em 3% para 2026, mas elevou as estimativas para 2027 e 2028, agora em 2,5% e 2,1%, respectivamente. Ao mesmo tempo, as diferenças entre os países seguem relevantes: em agosto, a inflação chegou a 4,5% na Espanha, 2,9% na Alemanha e 2,7% na França.
A instituição também observa que a economia do bloco tem mostrado resistência, embora novas altas possam levar os juros para uma faixa mais restritiva e aumentar os efeitos negativos sobre o crescimento.
A reação dos mercados foi imediata. Em conteúdo da Reuters publicado pelo Global Banking & Finance Review, o euro recuou 0,3%, para cerca de US$ 1,159, enquanto os rendimentos dos títulos públicos da zona do euro avançaram para máximas de vários anos. O rendimento do título alemão de dois anos ficou em torno de 3,072%, ante 3,058% antes da decisão, o índice STOXX 600 caiu 0,7% e o petróleo avançou mais de 4%, para US$ 105,30 por barril.
Próximos passos e atenção ao Federal Reserve
Entre economistas, as avaliações sobre o próximo passo do BCE permanecem divididas. Parte considera possível uma nova alta ainda neste ano, especialmente se petróleo e gás continuarem pressionados, enquanto outros avaliam que o aperto atual pode estar próximo do fim, uma vez que a inflação núcleo segue relativamente controlada e a demanda doméstica dá sinais de enfraquecimento.
As novas previsões também indicam inflação núcleo de 2,3% em 2028, ante 2,2% projetados em junho. Analistas acompanham ainda eventuais efeitos de segunda ordem sobre alimentos e salários, embora a estagflação não seja tratada como cenário-base.
A presidente do BCE, Christine Lagarde, havia indicado em julho que a instituição acompanharia diferentes cenários para petróleo e gás antes da reunião de setembro. As novas projeções, porém, foram fechadas cerca de duas semanas antes da decisão e, portanto, não incorporam integralmente a alta mais recente do petróleo nem o avanço dos rendimentos dos títulos europeus.
A partir daí, a atenção se volta para outros bancos centrais: o Federal Reserve anuncia sua decisão em 16 de setembro, o Banco da Inglaterra em 17 e o Banco do Japão em 18.
FUP Explica
O ponto central aqui é que o BCE está subindo juros para combater uma inflação que, em grande parte tem origem no choque de oferta de energia. O próprio estudo citado pelo banco indica que cerca de 90% do aumento da inflação energética entre janeiro e maio veio de fatores do lado da oferta, ligados às tensões no Estreito de Ormuz. Isso cria um dilema clássico de política monetária: apertar o crédito encarece o dinheiro e desacelera a economia, mas não resolve o problema de fundo, que é a restrição física de petróleo no mercado internacional. O risco, portanto, é sacrificar crescimento sem necessariamente domar a inflação.
No plano econômico, a alta dos juros tende a encarecer o crédito para empresas e famílias em toda a zona do euro, o que pode frear o consumo e o investimento num momento em que o bloco ainda mostra resistência, mas não folga. As diferenças internas são relevantes: com inflação de 4,5% na Espanha contra 2,7% na França, uma taxa única de juros aperta mais quem já está mais pressionado. Isso alimenta tensões políticas dentro do bloco e pode dificultar o consenso nas próximas reuniões do BCE.
No plano internacional, a decisão do BCE chega dias antes das reuniões do Federal Reserve, do Banco da Inglaterra e do Banco do Japão, o que torna a semana de 16 a 18 de setembro um momento de alta atenção para os mercados. Se o Fed também subir juros ou sinalizar aperto, o dólar tende a se fortalecer e o euro a perder terreno, o que pode encarecer ainda mais as importações europeias de energia, denominadas em dólar, e agravar o próprio problema que o BCE tenta resolver.




