FUP News
Cortes de impostos levaram dívida americana a nível crítico, avalia Krugman
Economia

Imagem gerada por IA

Cortes de impostos levaram dívida americana a nível crítico, avalia Krugman

25/08/2026·514 palavras
Análise sobre endividamento dos EUA com potencial impacto indireto em câmbio, juros e dinâmica de comércio bilateral Brasil-EUA. Contexto macroeconômico relevante mas sem medidas específicas.

A dívida americana ultrapassou a marca de US$ 40 trilhões em algumas métricas, mas o economista Paul Krugman questiona essa cifra. Para ele, medida de forma adequada, a dívida federal estaria mais próxima de US$ 32 trilhões, e a comparação direta entre o estoque da dívida e o Produto Interno Bruto é inadequada por envolver grandezas de naturezas diferentes, segundo um artigo publicado pelo próprio economista norte-americano em seu Substack.

Mesmo com as ressalvas sobre o número exato, Krugman reconhece que o endividamento americano atingiu um nível elevado e merece atenção, embora, na avaliação dele, não configure uma crise fiscal iminente.

O principal argumento de Krugman é que a origem do quadro atual não está no aumento dos gastos públicos nem no envelhecimento da população, mas nas sucessivas reduções de impostos aprovadas por presidentes republicanos nas últimas décadas. O economista projeta a dívida pública em até 187,55% do PIB americano até 2040, estimando que a cifra seria de apenas 47,85% sem as medidas de Trump e Bush.

Entre os cortes mais relevantes citados por Krugman estão as duas reduções de impostos promovidas por Bush, em 2001 e 2003, o Tax Cuts and Jobs Act de 2017, aprovado durante o primeiro mandato de Trump, e o pacote tributário de 2025 conhecido como "One Big Beautiful Bill". Com base em estimativas dos economistas Bobby Kogan e Jared Bernstein, Krugman afirma que esses quatro grandes cortes reduziram a arrecadação em cerca de 3% do PIB. O impacto se acumula ao longo dos anos e, com o aumento dos juros, contribui para a expansão dos déficits. Os cortes tributários beneficiaram de forma desproporcional os americanos de renda mais alta.

Da era Clinton ao desequilíbrio atual

Os Estados Unidos chegaram ao fim dos anos 1990 em situação fiscal bem diferente. Durante o governo de Bill Clinton, o país registrou superávits orçamentários e a relação entre a dívida e o PIB caiu de forma significativa. As projeções feitas no início dos anos 2000 indicavam que o endividamento poderia permanecer sob controle, mas o cenário começou a mudar com os cortes de Bush.

O envelhecimento da população também contribuiu para o aumento das despesas federais, principalmente por meio de programas como o Social Security e o Medicare. Krugman ressalta, porém, que esse fenômeno já era conhecido pelos analistas quando as projeções fiscais mais otimistas foram elaboradas. Gastos extraordinários durante a crise financeira de 2008 e a pandemia de Covid-19 elevaram temporariamente as despesas públicas, mas o economista avalia que esses episódios não explicam sozinhos a trajetória estrutural da dívida.

Desequilíbrio entre receita e gasto

O ponto central identificado por Krugman está na diferença persistente entre arrecadação e despesas ao longo do tempo. Enquanto a receita federal permaneceu relativamente estável em torno de 17,5% do PIB desde a década de 1960, os gastos apresentaram tendência de crescimento.

Uma eventual estratégia para enfrentar o problema poderia incluir a reversão dos cortes de impostos, mas Krugman ressalta que a medida não seria simples: parte dos benefícios tributários também alcançou famílias de renda média, o que torna politicamente difícil desfazer todo o pacote.

FUP Explica

O debate levantado por Krugman tem peso político imediato. Ao apontar os cortes tributários republicanos como principal responsável pela trajetória da dívida, o economista alimenta uma disputa que vai muito além da academia: é um argumento central para o debate sobre o orçamento federal americano, especialmente depois da aprovação do "One Big Beautiful Bill" em 2025. A projeção de dívida chegando a 187% do PIB até 2040 é o tipo de número que tende a pressionar o Federal Reserve a manter juros elevados por mais tempo, mesmo que a inflação esteja controlada, porque o custo de rolagem de uma dívida desse tamanho começa a pesar na própria política monetária.

Do ponto de vista econômico mais amplo, uma dívida crescente com juros altos cria um ciclo que se retroalimenta: o governo paga mais para se financiar, o déficit aumenta, e a dívida cresce ainda mais. Isso tende a manter o dólar pressionado em cenários de aversão ao risco e pode limitar a margem de manobra fiscal americana para responder a choques futuros, sejam eles recessões, crises financeiras ou novos eventos como a pandemia.

Para o Brasil e outros mercados emergentes, o cenário importa indiretamente: juros americanos elevados por mais tempo atraem capital para os EUA, pressionam moedas emergentes e encarecem o financiamento externo. Não é um impacto direto e imediato, mas é o pano de fundo macroeconômico que condiciona câmbio, custo de crédito e fluxo de investimentos no médio prazo.

Compartilhar:WhatsAppX (Twitter)LinkedIn

Leia também