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Copom mantém cautela após corte da Selic enquanto Fed sinaliza novas altas
Ata brasileira indica que juros precisam permanecer restritivos diante da inflação e das expectativas acima da meta, enquanto dirigentes do Federal Reserve apoiam a alta recente nos Estados Unidos
A política monetária de Brasil e Estados Unidos mostra movimentos distintos neste fim de setembro. No Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom) detalhou na ata de sua última reunião os motivos que levaram à redução da Selic para 13,75% ao ano, mas reforçou que a inflação ainda exige juros restritivos.
Nos Estados Unidos, dirigentes do Federal Reserve (Fed) apoiaram a alta de juros realizada na semana anterior, enquanto o mercado passou a atribuir maior probabilidade a novas elevações até o fim do ano.
A ata brasileira se refere à reunião do Copom realizada nos dias 15 e 16 de setembro. Segundo a Safras & Mercado, o Banco Central avalia que os efeitos da política monetária contracionista sobre a atividade econômica vêm aparecendo gradualmente. Mesmo assim, a inflação continua pressionada pela demanda, o que, na avaliação do Comitê, exige a manutenção de uma política monetária restritiva.
O documento também aponta moderação gradual da atividade econômica, principalmente nos setores mais cíclicos, embora a economia ainda apresente resiliência e o mercado de trabalho permaneça aquecido. Ao mesmo tempo, a inflação cheia e as medidas subjacentes desaceleraram e ficaram abaixo do limite superior do intervalo de tolerância, mas continuam acima da meta.
As expectativas também permanecem como ponto de atenção. De acordo com o Atlas Público, as projeções de inflação da pesquisa Focus estão em 4,9% para 2026 e 4,3% para 2027. No cenário de referência do próprio Copom, a estimativa para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) é de 5,2% neste ano, 3,9% em 2027 e 3,2% no primeiro trimestre de 2028.
A ata afirma ainda que, diante das incertezas e dos riscos de alta para os preços, a magnitude do ciclo de calibração será ajustada conforme a evolução do cenário. O Comitê também destacou que choques de oferta podem influenciar a inflação e que seus efeitos secundários precisam ser monitorados, com possibilidade de uma reação mais firme caso passem a se disseminar para outros preços.
Enquanto o Copom detalha a necessidade de cautela mesmo após a redução da Selic, o movimento observado nos Estados Unidos aponta para uma postura mais restritiva. Segundo a Reuters, Tom Barkin, presidente do Fed de Richmond, e Susan Collins, presidente do Fed de Boston, apoiaram a elevação dos juros realizada na semana anterior diante das preocupações com a persistência da inflação.
As autoridades norte-americanas também demonstraram preocupação com o fato de as pressões inflacionárias não estarem mais relacionadas apenas a fatores como energia, tarifas ou outros choques de oferta. Segundo a reportagem, integrantes do Fed avaliam que a força da demanda na economia também está contribuindo para a inflação.
Esse cenário elevou as expectativas do mercado por novos aumentos de juros nos Estados Unidos. Dados do FedWatch da CME citados pela Reuters mostravam que os operadores atribuíam probabilidade de 53% a uma alta em outubro e de 91% a uma elevação em dezembro. O dólar também alcançou o maior nível em dois meses diante da perspectiva de juros mais altos.
O ambiente externo aparece, inclusive, entre os fatores monitorados pelo Copom. A ata brasileira destaca a incerteza relacionada aos conflitos no Oriente Médio e à política monetária das economias avançadas, cenário que tem aumentado a volatilidade dos preços de ativos e das commodities.
Os dois bancos centrais, portanto, atravessam momentos distintos da política monetária. No Brasil, o Copom reduziu a Selic para 13,75%, mas ressalta que os juros ainda precisam permanecer restritivos e que os próximos ajustes dependerão da evolução do cenário. Nos Estados Unidos, dirigentes do Fed apoiam a elevação recente, enquanto os preços de mercado refletem expectativas de novas altas ainda em 2026.
FUP Explica
O corte da Selic para 13,75% é, na prática, um movimento técnico de início de ciclo, não uma virada de postura. O Copom deixou claro na ata que a política monetária segue restritiva e que o ritmo dos próximos cortes depende de variáveis que ainda não convergem: as expectativas de inflação da pesquisa Focus estão acima da meta para 2026 e 2027, e a própria projeção do Comitê para o IPCA neste ano (5,2%) supera o teto. Isso significa que o mercado financeiro e as empresas não devem antecipar uma queda rápida dos juros, o que limita o alívio no custo do crédito no curto prazo.
No plano econômico, o nó é o mercado de trabalho aquecido. Desemprego baixo sustenta consumo, consumo sustenta demanda, demanda sustenta inflação, e inflação alta justifica juros altos por mais tempo. Esse ciclo torna o trabalho do Banco Central mais lento do que o esperado por quem apostava em cortes mais agressivos. Para empresas que dependem de crédito para investir ou para famílias com dívidas indexadas à Selic, o alívio virá, mas de forma gradual.
No plano externo, o endurecimento do discurso do Federal Reserve e a valorização do dólar adicionam pressão sobre o câmbio brasileiro, o que pode encarecer importações e dificultar ainda mais o controle da inflação doméstica. A instabilidade geopolítica no Oriente Médio, com reflexo nas commodities, é outro fator que o Copom monitora com atenção, especialmente pelo risco de efeitos secundários sobre os preços internos. No campo fiscal, a ata manda um recado claro ao governo: incerteza sobre a trajetória da dívida pública eleva o juro neutro e complica a tarefa do Banco Central, ou seja, política fiscal frouxa e política monetária apertada não combinam bem.




