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Sistema financeiro enfrenta escalada de ataques com avanço da inteligência artificial
Brasil registrou 68 incidentes relevantes até agosto, enquanto ataques a bancos, sistemas de pagamento e fornecedores aumentam a exposição a riscos em meio à expansão do Pix e ao avanço da inteligência artificial.
Os ataques cibernéticos contra o sistema financeiro brasileiro avançaram em 2026 e colocaram bancos, fintechs, empresas de tecnologia e autoridades diante de um cenário de maior exposição a fraudes. Até a segunda semana de agosto, 68 incidentes relevantes já haviam sido comunicados ao Banco Central, aproximando-se dos 76 registrados durante todo o ano passado. A escalada ocorre em um ambiente marcado pela expansão das transações instantâneas, pela integração entre diferentes empresas e pelo uso crescente de inteligência artificial.
A tecnologia fortalece ferramentas de defesa, mas também permite que criminosos identifiquem vulnerabilidades e executem ataques com maior velocidade.
Somente no primeiro semestre, foram registrados 57 incidentes cibernéticos relevantes, alta de 42,5% sobre os 40 contabilizados no mesmo período de 2025 e o maior número para um semestre desde o início das notificações ao BC, em 2018. Segundo dados obtidos pelo JOTA por meio da Lei de Acesso à Informação, 49 dos 68 casos registrados neste ano foram classificados como fraudes com tentativa de subtração de recursos, um número superior aos 39 episódios desse tipo identificados durante todo o ano passado.
Diante desse movimento, o Banco Central prepara novas medidas relacionadas ao uso de APIs e à contratação de serviços de terceiros.
Esse cenário se materializou em episódios ocorridos ao longo do ano. Em abril, o Banco Rendimento confirmou ter sofrido um ataque que afetou canais de atendimento e contas de clientes, embora a instituição tenha informado posteriormente que os serviços foram normalizados e que o caso foi comunicado às autoridades. A VEJA destacou que o episódio ocorreu depois de outros ataques a instituições financeiras e chamou atenção para riscos relacionados à autenticação, às integrações com fornecedores e à necessidade de identificar fraudes quase em tempo real em operações feitas pelo Pix.
Em Mato Grosso, outro caso mostrou que as investidas não se limitam aos bancos privados. Uma tentativa de invasão aos sistemas financeiros estaduais foi identificada após servidores encontrarem uma ordem de pagamento atípica e bloquearem a operação. A ação foi contida antes de provocar perdas financeiras, a vulnerabilidade explorada na tentativa de fraude foi desativada, e os ambientes afetados passaram por revisão e reconfiguração.
A conexão entre instituições e empresas externas também se tornou um ponto sensível. Em março, uma operação do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Federal investigou um grupo acusado de atacar uma companhia de tecnologia que conectava instituições financeiras ao sistema de pagamentos instantâneos.
Conforme apurado pela CNN Brasil, o prejuízo associado à investigação chegou a R$ 710 milhões. Em outro levantamento, os serviços financeiros apareceram como o quarto setor mais visado por ataques, enquanto instituições financeiras sofreram, em todo o mundo, 43% mais ataques conduzidos por humanos em 2025 do que nos dois anos anteriores.
Ao mesmo tempo, a inteligência artificial acrescenta uma nova camada ao problema. O presidente do Banco da Inglaterra e do Conselho de Estabilidade Financeira, Andrew Bailey, alertou que modelos mais avançados podem aumentar a velocidade e a escala dos ataques, reduzir seus custos e acelerar a descoberta de falhas.
Devido à interconexão do sistema financeiro, um incidente pode alcançar diferentes instituições e países, aumentando o potencial de propagação.
O desafio, portanto, passa a ser reduzir o intervalo entre a identificação de uma ameaça e a reação das instituições. Nesse contexto, o aumento dos ataques vai além de uma disputa tecnológica entre bancos e criminosos e passa a pressionar todo um ecossistema financeiro cada vez mais digital, conectado e dependente de respostas em tempo real.
FUP Explica
O dado mais revelador aqui não é o número absoluto de ataques, mas o ritmo: 57 incidentes em apenas um semestre, quando o ano inteiro de 2025 fechou com 76. Isso significa que o sistema financeiro brasileiro está sendo testado com uma frequência que as estruturas de resposta ainda não acompanham na mesma velocidade. O Banco Central prepara novas regras sobre APIs e terceirização, o que indica que a autarquia reconhece que o elo mais fraco não é necessariamente o banco em si, mas a cadeia de fornecedores e integrações ao redor dele.
Do ponto de vista econômico, o caso investigado pelo MP de São Paulo e pela Polícia Federal, com prejuízo associado de R$ 710 milhões, mostra que a exposição financeira é concreta e relevante. Quando o alvo é uma empresa de tecnologia que conecta instituições ao sistema de pagamentos instantâneos, o risco se multiplica: um único ponto de falha pode comprometer várias instituições ao mesmo tempo. Isso tende a pressionar custos operacionais de bancos e fintechs, que precisam investir mais em segurança, e pode eventualmente chegar ao consumidor na forma de tarifas ou restrições de acesso.
No plano institucional, o alerta de Andrew Bailey sobre a inteligência artificial aponta para um problema de médio prazo que ainda não tem resposta regulatória consolidada: se a IA reduz o custo e aumenta a velocidade dos ataques, a capacidade de resposta das instituições precisa evoluir na mesma proporção, e isso exige não só tecnologia, mas também marcos regulatórios mais ágeis e cooperação internacional, dado que incidentes podem se propagar entre países.




