
Copom decide amanhã o rumo da Selic sob pressão de Irã e inflação
Reunião do Copom para definição da taxa básica de juros tem impacto indireto no custo de financiamento para importadores e exportadores, afetando decisões de câmbio e crédito no comex.
A reunião do Copom teve início nesta terça-feira, 4 de agosto, com a decisão sobre a Taxa Selic prevista para o dia seguinte, conforme informou a Agência Brasil. O Comitê de Política Monetária do Banco Central se reúne a cada 45 dias, sempre em dois dias consecutivos: no primeiro, são feitas apresentações técnicas sobre a evolução das economias brasileira e mundial e o comportamento do mercado financeiro; no segundo, os membros analisam os cenários e definem a meta da taxa básica de juros por maioria simples de votos.
A Selic está em 14,25% ao ano, o menor nível de 2026, resultado de três reduções consecutivas de 0,25 ponto percentual realizadas nas reuniões de março, abril e junho. Na véspera da reunião do Copom, o Boletim Focus divulgado na segunda-feira, mostrou que o mercado financeiro reduziu sua expectativa para a Selic ao fim de 2026 de 14% para 13,75%.
A taxa Selic é usada nas negociações de títulos públicos emitidos pelo Tesouro Nacional e serve de referência para as demais taxas da economia. Quando o Copom eleva a taxa, o crédito fica mais caro e a poupança mais atrativa, reduzindo a demanda e as pressões inflacionárias. Quando a reduz, a tendência é de crédito mais barato, favorecendo consumo e investimentos. Além da Selic, os bancos consideram fatores como risco de inadimplência, custos administrativos e margem de lucro ao definir os juros cobrados dos consumidores.
Pela quinta semana consecutiva, os analistas consultados pelo Banco Central para o Boletim Focus reduziram a projeção do IPCA para 2026: a estimativa passou de 5,12% para 5,03%. Apesar da melhora, a projeção segue acima do teto da meta contínua de inflação, que é de 4,5%, considerando a meta de 3% fixada pelo Conselho Monetário Nacional com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
Em reuniões anteriores, o Copom havia sinalizado a possibilidade de novos cortes na Selic, mas o conflito entre Estados Unidos e Irã gerou incertezas, especialmente sobre os preços dos combustíveis, levando o comitê a adotar postura mais cautelosa, conforme registrou a Agência Brasil.
Como funciona o Copom
O Copom foi criado em 20 de junho de 1996, por meio da Circular nº 2.698 do Banco Central do Brasil, com o objetivo de estabelecer diretrizes de política monetária e definir a taxa básica de juros. Sua criação foi inspirada em modelos como o Federal Open Market Committee (FOMC) do Federal Reserve americano e o Zentralbankrat do Deutsche Bundesbank alemão.
Após a adoção do regime de metas de inflação pelo Decreto nº 3.088, de 21 de junho de 1999, as decisões do Copom passaram a ser orientadas pelo cumprimento das metas fixadas pelo Conselho Monetário Nacional. Caso as metas não sejam atingidas, o presidente do Banco Central deve divulgar carta aberta ao Ministro da Fazenda explicando os motivos e as medidas a serem adotadas. As atas das reuniões são publicadas em até quatro dias úteis após a decisão, em português e inglês, conforme o Banco Safra. O calendário anual de reuniões é divulgado pelo Banco Central com antecedência, até junho do ano anterior.
FUP Explica
A trajetória da Selic importa porque ela baliza o custo do crédito em toda a economia. Três cortes seguidos já aliviaram um pouco o custo de capital para empresas e consumidores, e a revisão do Boletim Focus para 13,75% ao fim de 2026 indica que o mercado passou a apostar num ciclo de afrouxamento mais longo do que esperava até março. Se o Copom confirmar mais um corte de 0,25 ponto percentual na quarta-feira, a Selic chegará a 14%, e a sinalização para as próximas reuniões será o principal ponto de atenção.
O lado complicador é a inflação. O IPCA projetado em 5,03% ainda fica acima do teto da meta, o que limita a margem do Copom para acelerar o ritmo de cortes sem arriscar a credibilidade do regime de metas. Some-se a isso a incerteza gerada pelo conflito entre Estados Unidos e Irã, que pressiona os preços de combustíveis e pode alimentar a inflação por vias indiretas. Esse cenário tende a manter o comitê num passo gradual, sem surpresas para cima nem para baixo.
Para quem opera no comércio exterior, a Selic influencia o câmbio e o custo de operações de financiamento como ACC e ACE. Uma queda de juros reduz o diferencial de retorno entre ativos brasileiros e estrangeiros, o que pode pressionar o real a se desvalorizar, encarecendo insumos importados. Por outro lado, um ciclo de cortes bem ancorado nas expectativas tende a reduzir a volatilidade cambial, o que facilita o planejamento de contratos de câmbio a prazo. O efeito líquido depende de como o mercado vai ler a comunicação do Copom na quarta-feira.



