Confiança da indústria cai ao menor nível desde a pandemia
Queda na confiança industrial brasileira ao menor nível desde a pandemia sinaliza pressão sobre exportadores e importadores, com impacto indireto na demanda por comex.
A confiança da indústria brasileira atingiu, em julho, o menor nível desde o auge da pandemia de covid-19. O Índice de Confiança do Empresário Industrial (Icei), medido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), recuou 2,3 pontos em relação ao mês anterior, passando de 46,7 para 44,4 pontos — resultado que mantém o indicador abaixo da linha de 50 pontos pelo 19º mês consecutivo. Essa sequência é a segunda maior da série histórica, superada apenas pelo período de recessão entre 2015 e 2016.
Confiança da indústria em queda: o que os números revelam
Os dois subíndices que compõem o Icei pioraram simultaneamente em julho. O Índice de Condições Atuais recuou 0,7 ponto, para 41,6 pontos, indicando que os empresários avaliam o ambiente de negócios como pior do que há seis meses. O Índice de Expectativas teve queda ainda mais expressiva: 3,1 pontos, chegando a 45,8 pontos — o maior recuo desde novembro de 2022. A pesquisa ouviu 1.118 empresas entre os dias 1º e 7 de julho, de pequeno, médio e grande porte.
O recuo das expectativas é o dado mais preocupante. Ele sinaliza que os empresários não anteveem reversão do quadro no curto prazo, o que tende a se traduzir em decisões concretas: redução do número de empregados, queda da produção e cancelamento de investimentos produtivos, conforme avaliação do gerente de Análise Econômica da CNI, Marcelo Azevedo.
Fatores externos pressionam o setor
A CNI aponta dois vetores principais para a deterioração das expectativas. O primeiro é o agravamento dos conflitos no Oriente Médio, que eleva a percepção de risco global. O segundo é a possibilidade de retomada de tarifas americanas sobre produtos brasileiros, fator que aumenta a incerteza sobre o comércio bilateral e pressiona diretamente os exportadores.
Esse cenário se soma a um quadro doméstico já fragilizado. A rentabilidade das exportações brasileiras vem caindo, com custos domésticos em alta e preços de embarque em queda, comprimindo margens em setores como minerais metálicos, papel e celulose e pesca. No segmento automotivo, as exportações recuaram no início de 2026, puxadas pela retração do mercado argentino — e a combinação de baixa confiança industrial com mercados externos instáveis aprofunda essa vulnerabilidade.
FUP Explica
O ponto de atenção mais imediato é a ameaça de retomada de tarifas americanas sobre produtos brasileiros, citada pela CNI como um dos vetores da deterioração das expectativas. Se essa possibilidade se concretizar, setores exportadores com forte dependência do mercado americano podem enfrentar revisão de contratos e repricing acelerado — o que exige acompanhamento próximo das negociações bilaterais e das investigações de defesa comercial em curso. A curto prazo, o cenário tende a favorecer maior volatilidade cambial e revisão de estratégias de hedge, especialmente para quem opera com margens estreitas em moeda estrangeira.





