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Petróleo sobe 3% com impasse entre EUA e Irã enquanto crise em Ormuz pressiona fretes
Economia

Imagem: rawpixel

Petróleo sobe 3% com impasse entre EUA e Irã enquanto crise em Ormuz pressiona fretes

28/09/2026·811 palavras

Recuperação dos embarques pelo estreito alivia parte das restrições de oferta, mas riscos à navegação e operações mais complexas levam custos de transporte de petróleo a níveis históricos

A rejeição dos Estados Unidos à proposta apresentada pelo Irã para encerrar o conflito e reabrir o Estreito de Ormuz voltou a pressionar o mercado de energia nesta segunda-feira (28), quando o petróleo subiu cerca de 3% em meio à perspectiva de continuidade das tensões no Oriente Médio. Ao mesmo tempo, mesmo com a recuperação parcial dos embarques pela passagem marítima em setembro, riscos à navegação e mudanças na operação dos petroleiros mantêm os fretes em patamares históricos, com reflexos que já alcançam rotas fora da região, incluindo o Brasil.

Segundo a Reuters, os contratos futuros do Brent avançavam 2,86%, para US$ 107,30 por barril, enquanto o West Texas Intermediate (WTI) subia 3,04%, para US$ 95,22.

O movimento ocorreu depois que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou ter rejeitado a proposta iraniana apresentada durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. De acordo com Teerã, o plano havia sido encaminhado aos americanos por meio de mediadores do Catar. Apesar da recusa, Trump disse esperar novas negociações entre representantes dos dois países nesta semana.

A pressão sobre os preços ocorre mesmo com sinais de recuperação das exportações do Oriente Médio. Dados preliminares da Kpler, citados pela Reuters, mostram que os embarques de petróleo dos principais produtores da região chegaram a 12,8 milhões de barris por dia em setembro, o maior volume desde o início da guerra, em fevereiro. Parte desse avanço foi sustentada pela retomada do fluxo pelo Estreito de Ormuz, que deve alcançar aproximadamente 7,4 milhões de barris por dia neste mês.

Essa recuperação, contudo, ainda não eliminou os gargalos provocados pela crise. Dados do Lloyd’s List Intelligence mostram que as taxas cobradas pelos Very Large Crude Carriers (VLCCs), grandes petroleiros utilizados no transporte de petróleo, alcançaram níveis sem precedentes em setembro. Na rota Oriente Médio–China, o índice TD3C chegou a US$ 759.969 por dia, 26% acima do pico registrado em março, enquanto o trajeto Omã–China atingiu US$ 358.201 diários.

O avanço dos fretes ocorre apesar da redução da quantidade de petróleo transportada. Entre meados de março e o início de setembro, as exportações mundiais de petróleo e condensado ficaram em média em 38,3 milhões de barris por dia, queda de 10% em relação ao mesmo período do ano anterior. O impacto foi ainda maior entre os VLCCs: os carregamentos realizados por essas embarcações recuaram 27%, para uma média de 16,3 milhões de barris diários.

A explicação está, em parte, na reorganização das operações marítimas provocada pelas restrições em Ormuz. Uma parcela crescente do petróleo que atravessa o estreito passou a ser transferida entre embarcações por meio de operações ship-to-ship (STS) no Golfo de Omã.

Os volumes movimentados dessa maneira saltaram de 603 mil barris por dia em abril para 4,6 milhões em agosto. Segundo dados da Vortexa citados pelo Lloyd’s List Intelligence, cerca de 80% das exportações que cruzaram Ormuz passaram recentemente pelo modelo de transporte com transferência entre navios.

Esse sistema aumenta o tempo de espera das embarcações e reduz a disponibilidade efetiva da frota. Além disso, os retornos elevados oferecidos para carregamentos no Golfo de Omã atraem navios que poderiam operar em outros mercados. Como consequência, a menor oferta de tonelagem também pressiona os fretes de cargas originadas no oeste da África, no Golfo dos Estados Unidos e no Brasil.

O risco à navegação acrescenta outra camada de pressão. O Irã incluiu quatro embarcações em sua lista de navios considerados não conformes, elevando de 77 para 81 o número de embarcações designadas, de acordo com outra publicação do Lloyd’s List Intelligence. Entre os novos nomes estão o transportador de GLP Al Shumoukh e o VLCC Algeria Prosperity. Algumas embarcações listadas continuaram atravessando Ormuz com o sistema de identificação automática, o AIS, desligado.

Até o momento, o petroleiro El Gaia é o único navio da relação conhecido por ter sido atacado depois da designação, após ser atingido por um projétil em águas de Omã em 13 de setembro.

A instabilidade também se estende a outras áreas da região. A coalizão liderada pela Arábia Saudita no Iêmen informou ter interceptado dois mísseis balísticos e dois drones lançados pelos houthis em direção ao território saudita. Paralelamente, a Arábia Saudita direcionou parte de suas exportações do porto de Yanbu, no Mar Vermelho, para Ras Tanura, depois que ataques danificaram o oleoduto Leste-Oeste.

Assim, embora a recuperação dos embarques por Ormuz tenha reduzido parte da pressão sobre a oferta de petróleo, o mercado marítimo continua condicionado pelas restrições operacionais e pelos riscos de segurança. Enquanto Estados Unidos e Irã mantêm a possibilidade de novas negociações, a duração da crise permanece como um dos principais fatores para os preços do petróleo e para os custos de transporte nos grandes corredores de energia.

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O que esta notícia revela é que o mercado de energia está operando sob duas pressões simultâneas e que se reforçam: a diplomática e a logística. No plano diplomático, a rejeição de Trump à proposta iraniana sinaliza que o conflito não tem saída rápida à vista, o que mantém o prêmio de risco embutido no preço do barril. Mesmo que novas negociações ocorram nesta semana, como Trump sinalizou, o histórico de impasses torna qualquer avanço incerto, e o mercado precifica essa incerteza.

No plano logístico, o dado mais revelador é a dissociação entre volume e custo: as exportações caíram, mas os fretes subiram a recordes históricos. Isso acontece porque a crise em Hormuz não apenas reduziu o petróleo que passa pelo estreito, mas reorganizou toda a operação da frota mundial de VLCCs. As transferências ship-to-ship no Golfo de Omã consomem mais tempo de navio, retiram tonelagem do mercado e concentram embarcações numa região de alto risco, o que encarece o seguro e o frete em todo o mundo. Quem exporta petróleo do Brasil, do oeste da África ou do Golfo dos EUA sente esse efeito mesmo sem ter nenhuma carga passando por Hormuz.

O risco de escalada também não pode ser ignorado. A lista iraniana de navios não conformes cresceu, ataques a drones e mísseis houthis continuam no Iêmen, e a Arábia Saudita precisou redirecionar exportações depois de danos ao oleoduto Leste-Oeste. Cada um desses eventos, isolado, seria administrável. Juntos, criam um ambiente em que qualquer incidente adicional pode provocar novo salto nos preços e nos fretes, com reflexo imediato nos custos de importação de petróleo e derivados para países que dependem dessas rotas.

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