FUP News
China reafirma apoio à soberania do Panamá sobre o canal em meio a tensão com os EUA
Geopolítica

Imagem gerada por IA

China reafirma apoio à soberania do Panamá sobre o canal em meio a tensão com os EUA

03/08/2026·706 palavras
China reafirma posição sobre soberania do Canal do Panamá em contexto de tensões geopolíticas. Contexto relevante para comex brasileiro dado o impacto potencial em rotas marítimas críticas.

O embaixador da China no Panamá, Zhang Xiangyan, reafirmou publicamente o apoio de Pequim à soberania panamenha sobre o Canal do Panamá, destacando a importância da hidrovia para o comércio internacional. A declaração, reportada pelo Portal Portuario, ocorre em um momento de tensões prolongadas entre os dois países e de pressão crescente dos Estados Unidos sobre a presença chinesa na região.

O pano de fundo da declaração envolve uma série de movimentos diplomáticos e decisões judiciais. Em janeiro de 2025, o secretário de Estado americano Marco Rubio advertiu que Washington tomaria medidas caso a influência chinesa no entorno do canal não fosse reduzida, conforme reportado pela BBC. Na mesma época, o presidente panamenho José Raúl Mulino anunciou que o Panamá não renovaria o memorando de entendimento firmado com a China em 2017 no âmbito da Iniciativa da Franja e a Rota.

O epicentro da disputa é a concessão da Panama Ports Company (PPC), filial da hongkonesa CK Hutchison Holdings, para operar os portos de Balboa e Cristóbal, localizados nas duas extremidades do canal. Segundo o G1, a Suprema Corte do Panamá declarou esse contrato de concessão inconstitucional, retirando da empresa o direito de operar os dois terminais. O porto de Balboa é o segundo mais movimentado do país em volume de contêineres, e o de Cristóbal fica na entrada atlântica da hidrovia.

O presidente americano Donald Trump chegou a ameaçar retomar o controle do canal à força, alegando interferência chinesa. As autoridades panamenhas refutaram as afirmações. O canal é administrado pela Autoridade do Canal do Panamá, entidade do governo panamenho, e não há evidências públicas de que o governo chinês exerça qualquer controle sobre a hidrovia, conforme apontado pela BBC e pelo G1.

A exclusão da CK Hutchison dos dois terminais desencadeou o que analistas descrevem como uma resposta de Pequim. Segundo a Ambrey Analytics, divisão de inteligência da empresa britânica de segurança marítima Ambrey, a China passou a reter navios mercantes de bandeira panamenha em ritmo sem precedentes a partir de 8 de março de 2026, justificando as ações como inspeções do Estado do porto, conforme reportado pelo G1.

Somente em abril de 2026, foram retidas 136 embarcações registradas sob bandeira panamenha, número 6,4 vezes superior à média de 2025. Em março de 2026, foram 96 navios, correspondendo a cerca de 74% de todas as retenções realizadas pela China naquele mês. O total acumulado desde o início de 2026 chegou a 272 embarcações imobilizadas. As retenções costumam durar entre um e cinco dias, mas interrompem escalas e aumentam custos operacionais.

Negociações e renovação do acordo marítimo

As declarações do embaixador Zhang em 2 de agosto foram as primeiras realizadas publicamente após os dois governos alcançarem um entendimento para avançar na renovação do Acordo de Transporte Marítimo China-Panamá, resultado de negociações realizadas em Pequim nos dias 16 e 17 de julho de 2026. Segundo a Chancelaria panamenha, ambas as partes iniciarão os trâmites para renovar o instrumento, originalmente assinado em 2017 e prorrogado em 2021. O acordo garante condições de Nação Mais Favorecida para navios de bandeira panamenha em portos chineses, com benefícios em tarifas e facilidades operativas.

O embaixador Zhang também destacou que a China é o principal fornecedor da Zona Livre de Colón e o segundo maior usuário do Canal do Panamá. Desde o estabelecimento de relações diplomáticas entre os dois países em 2017, o intercâmbio comercial bilateral se duplicou, segundo o diplomata. Sobre eventual participação chinesa em projetos de ampliação da Zona Livre de Colón, Zhang indicou que não existe, até o momento, informação específica sobre investimentos confirmados, embora tenha reiterado a disposição de Pequim de avaliar novas iniciativas de cooperação.

Em agosto de 2025, durante sessão do Conselho de Segurança da ONU presidida pelo presidente Mulino, China e Estados Unidos trocaram acusações sobre o canal. O embaixador chinês na ONU, Fu Cong, afirmou que seu país "sempre respeitou a neutralidade permanente do canal e apoia firmemente o Panamá na defesa de sua soberania". A embaixadora interina dos EUA, Dorothy Shea, questionou a "influência desproporcional" da China sobre a hidrovia, especialmente sobre infraestrutura e operações portuárias, conforme registrado pela Blueberries Consulting. O canal responde por entre 5% e 6% do volume do comércio marítimo mundial, segundo dados da BBC e do G1.

FUP Explica

A declaração do embaixador chinês sinaliza uma tentativa de distensão diplomática depois de meses de escalada. A retenção de 272 navios panamenhos em portos chineses desde março de 2026 foi uma pressão econômica direta e mensurável: armadores que operam sob bandeira panamenha em rotas com escala na China enfrentaram atrasos, custos extras e incerteza operacional. Se a renovação do Acordo de Transporte Marítimo avançar de fato, esse risco tende a diminuir, mas a resolução definitiva da disputa portuária, que é o nó central do conflito, ainda não foi confirmada por nenhuma das partes.

O que torna esse caso relevante além da diplomacia bilateral é a dimensão do canal em si. Uma hidrovia que responde por 5% a 6% do comércio marítimo mundial não pode ficar indefinidamente no centro de uma disputa geopolítica sem que isso afete rotas, fretes e prazos de entrega em escala ampla. A pressão americana sobre a presença chinesa nos portos de Balboa e Cristóbal, combinada com a retaliação de Pequim via inspeções em massa, criou um ambiente de instabilidade para operadores que dependem dessas rotas, especialmente os que usam bandeira panamenha como bandeira de conveniência.

Para o Brasil, que exporta commodities pelo Pacífico e importa manufaturados asiáticos, qualquer perturbação persistente no Canal do Panamá tem reflexo direto em tempo de trânsito e custo de frete. A reaproximação diplomática sinalizada agora pode abrir espaço para normalização, mas enquanto a questão dos portos não tiver desfecho claro, a instabilidade permanece como variável de risco para quem planeja rotas e contratos de longo prazo.

Compartilhar:WhatsAppX (Twitter)LinkedIn

Leia também