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China intensifica estratégia para ganhar influência na governança internacional
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China intensifica estratégia para ganhar influência na governança internacional

08/09/2026·736 palavras
Xi Jinping mobiliza economias em desenvolvimento contra liderança americana em governança global; movimento de reconfiguração de poder econômico e político.

O presidente da China, Xi Jinping, intensificou em 2026 a atuação diplomática de Pequim em instituições multilaterais, em meio à retirada dos Estados Unidos de entidades das Nações Unidas durante o governo de Donald Trump. A estratégia envolve maior presença em agências internacionais e acordos econômicos com países em desenvolvimento e ocorre antes de um encontro previsto entre Xi e Trump em Washington.

O movimento ocorre após o governo Trump retirar os Estados Unidos de 31 entidades da ONU relacionadas a áreas como clima, gênero, construção da paz e ciência. Nesse cenário, Pequim tem buscado apresentar o país às economias em desenvolvimento como defensor de um sistema internacional mais equilibrado.

Um dos pilares dessa estratégia é a Iniciativa para a Governança Global (IGG), apresentada por Xi em 2025 durante uma reunião da Organização para Cooperação de Xangai (OCX). Segundo o governo chinês, a proposta defende mudanças nas instituições internacionais e maior participação dos países em desenvolvimento nos processos decisórios.

A iniciativa enfatiza princípios como igualdade soberana, respeito ao direito internacional, multilateralismo, abordagem centrada nas pessoas e busca por resultados concretos. O governo chinês também defende o fortalecimento do papel das Nações Unidas e uma representação mais equilibrada dos países em desenvolvimento nas instituições internacionais.

O presidente chinês tem associado sua proposta a críticas à política externa americana. Em seus discursos, Xi afirma que Washington abandonou parte do sistema multilateral que os próprios Estados Unidos ajudaram a construir após a Segunda Guerra Mundial e atribui ao país práticas que classifica como “dois pesos e duas medidas, excepcionalismo, interferência externa, intimidação e lei da selva”.

Da Wei, professor da Universidade Tsinghua, afirmou que a “Pax Americana está chegando ao fim” e avaliou que os Estados Unidos já não estão dispostos a arcar com os custos associados ao financiamento de bens públicos internacionais.

A atuação chinesa também se concentra em agências técnicas das Nações Unidas responsáveis pela definição de padrões internacionais. Segundo o Semafor, Pequim busca aumentar sua participação especialmente nas discussões sobre normas para inteligência artificial e tecnologias emergentes. A China também tem reforçado sua presença em organismos de direitos humanos, nos quais o governo do país é alvo de críticas de governos ocidentais.

Autoridades chinesas estudam ainda apresentar uma candidatura para sediar a conferência climática das Nações Unidas em 2028, segundo informação da Bloomberg citada pelo Semafor.

A atuação institucional é acompanhada por investimentos e propostas de cooperação econômica. No Quirguistão, em agosto de 2026, Xi assinou acordos destinados a integrar mais estreitamente o oeste da China à Ásia Central. As iniciativas incluem um sistema de pagamentos interbancários, obras de infraestrutura de fronteira e uma ferrovia de carga cuja construção prevê 50 pontes e 29 túneis.

No Egito, a China ofereceu cooperação na área de inteligência artificial. Segundo o Semafor, a Huawei também participa de uma licitação para construir centros de dados destinados ao governo egípcio e fornecer chips de alto desempenho.

O Egito enfrenta redução das receitas provenientes do Canal de Suez. Segundo o Semafor, a arrecadação caiu 60% em meio aos conflitos no Irã e em Gaza. Nesse cenário econômico, o país também busca aprofundar a cooperação e atrair investimentos chineses.

China é a segunda maior contribuinte para o orçamento regular da ONU

Apesar do aumento da atuação diplomática, a China não indica que pretende substituir integralmente os Estados Unidos no financiamento das instituições internacionais.

Pequim responde por cerca de 20% do orçamento regular das Nações Unidas e é a segunda maior contribuinte, atrás dos Estados Unidos. O país também ocupa a segunda posição entre os financiadores das operações de paz da organização, mas os gastos chineses com desenvolvimento econômico e assistência humanitária permanecem abaixo dos realizados pelos Estados Unidos.

Segundo análise do Semafor, a estratégia chinesa consiste em aumentar sua influência política nas instituições multilaterais sem assumir integralmente os custos associados à atuação internacional dos Estados Unidos, incluindo atividades relacionadas à segurança das rotas marítimas, ao combate ao crime transnacional e à estabilidade financeira.

Xi declarou como objetivo preservar a “estabilidade estratégica construtiva” acordada com Trump durante encontro em Pequim, em maio de 2026. Paralelamente, o Semafor interpreta as iniciativas recentes como parte de um esforço de Pequim para aumentar sua influência nas instituições internacionais e obter maior apoio entre países com direito a voto nas Nações Unidas.

A movimentação ocorre antes de uma visita de Xi aos Estados Unidos. O presidente chinês prepara-se para um encontro com Trump em Washington em setembro.

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O que Xi está fazendo é, na prática, uma aposta de longo prazo: ocupar o espaço institucional que os EUA estão deixando vago sem ter que pagar a conta que os americanos pagavam. É uma posição confortável enquanto durar, porque permite à China colher prestígio político e influência normativa, especialmente em temas como inteligência artificial e padrões tecnológicos, sem assumir os custos pesados de financiar operações humanitárias ou de paz.

O risco político para os EUA é real. Quando um país se retira de 31 entidades da ONU de uma vez, ele perde voz nas decisões que essas entidades tomam, e outra potência entra para preencher esse espaço. Normas técnicas definidas sob influência chinesa, por exemplo em IA ou em padrões de telecomunicações, têm efeito prático sobre empresas e governos do mundo inteiro, independentemente de quem as assinou. Isso é poder regulatório, e ele se acumula silenciosamente.

Para países em desenvolvimento, a oferta chinesa é atraente porque vem com investimento concreto, não só discurso. O caso do Egito ilustra bem: com receitas do Canal de Suez em queda acentuada, o país tem pouco espaço para recusar data centers, chips e cooperação tecnológica. Esse padrão tende a se repetir em outros países economicamente pressionados, ampliando a base de apoio de Pequim nas votações da ONU e em fóruns multilaterais. A cúpula entre Xi e Trump prevista para setembro de 2026 vai mostrar se há espaço para algum reequilíbrio, ou se os dois países seguem em trajetórias paralelas de influência, cada um construindo seu próprio bloco de aliados.

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