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China compra petróleo russo em massa e crise de Ormuz abre espaço inesperado para barris brasileiros
A Sinopec, maior refinadora de petróleo do mundo, intensificou as compras de petróleo russo para outubro diante da redução da oferta do Oriente Médio, movimento que aumenta a disputa por cargas mais baratas na China e leva refinarias independentes do país a buscar fornecedores alternativos, incluindo o Brasil. A companhia chinesa adquiriu entre 10 e 15 carregamentos do tipo ESPO (Eastern Siberia-Pacific Ocean), equivalentes a aproximadamente 235 mil a 353 mil barris por dia, segundo estimativas de sete traders consultados pela Reuters.
Com a inclusão das variedades russas Sokol e Urals, as compras da Sinopec para outubro podem ultrapassar 20 carregamentos e superar 400 mil barris por dia. A maior demanda da estatal chinesa pelo petróleo russo reduz a disponibilidade para as refinarias independentes, conhecidas como teapots, que também enfrentam restrições na oferta iraniana e passaram a buscar alternativas no Brasil, Canadá e Iraque.
A diferença de preços ajuda a explicar a estratégia da Sinopec. O ESPO russo para setembro foi negociado com desconto de US$ 1 a US$ 2 por barril em relação ao Brent e ficou cerca de US$ 10 mais barato do que variedades como o Oman, do Oriente Médio, e o Tupi, do Brasil.
A compra do petróleo russo permite à Sinopec obter margens de refino maiores e elevar as exportações de combustíveis, após a China flexibilizar as restrições a esses embarques.
A companhia havia suspendido as compras de petróleo russo em outubro do ano anterior e retomado as aquisições em março de 2026, quando os Estados Unidos autorizaram temporariamente a compra de cargas russas que já estavam em trânsito marítimo. Mesmo após o fim da autorização, a Sinopec manteve as aquisições e elevou o volume comprado.
Dados da Vortexa Analytics citados pela Reuters estimam que as importações de petróleo russo pela Sinopec chegaram a pouco mais de 400 mil barris por dia em agosto, volume equivalente a 9% do processamento médio da companhia no primeiro semestre de 2026.
Entre julho e setembro, a Sinopec adquiriu de 30 a 40 carregamentos de ESPO, correspondentes a entre 5% e 6% de sua capacidade total de processamento, de 5,2 milhões de barris por dia, segundo o Caspian Post.
O aumento da demanda da Sinopec intensificou a disputa pelos carregamentos de ESPO destinados a outubro. As negociações foram encerradas em meados de agosto, quase um mês antes do período habitual. Os embarques de novembro também começaram a ser negociados antecipadamente, com prêmios de até US$ 10 por barril oferecidos às refinarias independentes.
A antecipação das compras reduz a disponibilidade de petróleo russo com desconto para as teapots, tradicionalmente dependentes de cargas mais baratas provenientes de países como Rússia, Irã e Venezuela.
Refinarias independentes buscam petróleo brasileiro
A menor disponibilidade de petróleo russo ocorre ao mesmo tempo que as refinarias independentes chinesas enfrentam dificuldades para obter cargas iranianas. Com a retomada do bloqueio naval dos Estados Unidos em meados de julho, os embarques do Irã estagnaram.
Segundo dados da Kpler, o Irã fornecia aproximadamente 1,38 milhão de barris por dia à China em 2025, o equivalente a 13,3% das importações chinesas de petróleo. Com parte do ESPO absorvida pela Sinopec e a oferta iraniana reduzida, as refinarias independentes perderam acesso a duas importantes fontes de petróleo com desconto.
A mudança já aparece nos preços. Ofertas de Iranian Light para setembro chegaram a um prêmio de US$ 6 por barril sobre o Brent, ante US$ 2 duas semanas antes, sem negócios fechados. Historicamente, o petróleo iraniano era negociado com desconto em relação às referências internacionais.
“Preços estão muito altos para teapots, é muito difícil colocar novos pedidos”, afirmou à Reuters um gerente de trading de uma refinaria independente.
Brasil ganha espaço entre fornecedores alternativos
Diante da redução da oferta de petróleo mais barato, algumas refinarias independentes chinesas passaram a procurar cargas do Brasil, Canadá e Iraque.
Uma carga de Iraqi Basrah Medium foi negociada com prêmio próximo de US$ 8 por barril sobre o Brent para entrega em setembro na China. Novas ofertas ultrapassaram US$ 8, segundo um trader ouvido pela Reuters. Nesse ambiente, o petróleo brasileiro, apesar de mais caro que o ESPO russo, passa a competir como alternativa diante da elevação dos preços de outras variedades disponíveis às refinarias chinesas.
A analista Muyu Xu, da Kpler, afirmou em nota que a questão é até que ponto as refinarias estão dispostas ou conseguem pagar preços mais altos antes de reduzir a utilização de suas instalações.
Sun Jianan, da Energy Aspects, estimou à Reuters que os estoques de algumas teapots devem durar apenas até o fim de setembro ou início de outubro. A situação pode levar a cortes no processamento caso essas refinarias não consigam substituir os volumes de petróleo mais barato.
Sinopec também prevê mais compras do Brasil
A própria Sinopec sinalizou, durante uma apresentação de resultados, que pretende aumentar as compras de petróleo do Brasil, da África e de outras regiões, sem mencionar a Rússia.
A mudança nos fluxos comerciais ocorre em cadeia. A redução da disponibilidade de petróleo iraniano leva a Sinopec a comprar mais ESPO russo. Com uma parcela maior dessas cargas destinada à companhia, as refinarias independentes chinesas enfrentam menor oferta de petróleo com desconto e passam a procurar outros fornecedores, cenário que abre espaço para cargas brasileiras no mercado chinês.
FUP Explica
O que está acontecendo aqui é um efeito dominó clássico de mercado de commodities: uma interrupção em um ponto da cadeia de fornecimento redistribui demanda por toda a estrutura, e quem estava fora do caminho principal de repente vira opção. O Brasil não é o destino natural do petróleo barato que as teapots preferem, mas passa a ser uma alternativa aceitável quando as opções mais baratas somem ao mesmo tempo.
O risco para as refinarias independentes chinesas é real e imediato. Elas operam com margens apertadas justamente porque dependem de desconto no insumo. Pagar prêmio de US$ 6 ou US$ 8 acima do Brent por petróleo iraniano ou iraquiano, quando antes compravam com desconto, inverte a lógica do negócio. Se os estoques acabarem antes de setembro, a saída mais racional é reduzir o ritmo de processamento, o que contrai a oferta de derivados no mercado interno chinês e pode pressionar preços de combustíveis no país.
Para o Brasil, a abertura é real, mas indireta e conjuntural. O petróleo brasileiro entra como substituto de emergência, não como fornecedor preferencial. Isso significa que a janela dura enquanto durar o bloqueio ao petróleo iraniano e enquanto a Sinopec continuar absorvendo o ESPO. Se qualquer um desses fatores mudar, o espaço para o barril brasileiro se fecha. No curto prazo, porém, o cenário favorece volumes e, potencialmente, preços melhores para exportações brasileiras de petróleo bruto com destino à China.




