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Canadá inicia retaliação comercial contra os EUA com tarifas de até 50%
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Canadá inicia retaliação comercial contra os EUA com tarifas de até 50%

08/09/2026·1143 palavras

O Canadá começou a aplicar nesta terça-feira (8), algumas tarifas de retaliação de 15%, 25% e 50% sobre cerca de C$ 28 bilhões, o equivalente a aproximadamente US$ 20 bilhões, em produtos importados dos Estados Unidos. A medida foi adotada após o fracasso, em 21 de agosto, das negociações comerciais entre os governos de Donald Trump e Mark Carney e atinge mercadorias como aço, alumínio, laticínios, eletrodomésticos, equipamentos agrícolas e componentes eletrônicos, segundo informações do G1 e da BBC.

Aço e alumínio estão entre os produtos mais afetados e passaram de uma tarifa de 25% para 50%. Eletrodomésticos, queijos e determinados derivados de metais receberam alíquota de 25%, enquanto uma categoria menor, que inclui equipamentos elétricos e ferramentas, ficou sujeita a 15%. A lista também abrange outros laticínios, equipamentos agrícolas, roupas, cosméticos, móveis, madeira, papel e componentes eletrônicos.

Os produtos afetados correspondem a cerca de 6% dos US$ 333,6 bilhões exportados pelos Estados Unidos ao Canadá no ano anterior. Parte dos produtos do mar inicialmente incluídos na lista, entretanto, foi retirada, de acordo com a Euronews.

Dezenas desses itens, entre eles frutos do mar frescos e lagosta, foram excluídos após pressão da indústria pesqueira. Os setores dos dois países são interdependentes: lagostas capturadas nos Estados Unidos são frequentemente processadas no Canadá antes de retornar ao mercado americano.

Energia e potássio também ficaram fora das novas tarifas canadenses. O ministro das Finanças, François-Philippe Champagne, afirmou que a resposta foi elaborada de forma proporcional e direcionada a produtos escolhidos para pressionar Washington.

A retaliação ocorre depois que as negociações bilaterais terminaram sem acordo na noite de 21 de agosto. Três dias antes, em 18 de agosto, Trump havia suspendido temporariamente as tarifas por três dias e afirmado que os dois países tinham alcançado um entendimento preliminar. Carney também havia relatado “progressos substanciais” nas conversas, de acordo com a mesma fonte.

O governo canadense afirmou que os Estados Unidos exigiam demais e ofereciam pouco, enquanto a administração Trump acusou Ottawa de propor mudanças consideradas desarrazoadas na etapa final das negociações.

O representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou que “a bola está no campo do Canadá” e disse que Washington ofereceu “o melhor acordo”, rejeitado pelos canadenses. Carney, por sua vez, declarou que o Canadá está “pronto para sentar e fazer esse acordo quando os americanos estiverem prontos”.

Em 22 de agosto, Trump impôs tarifas de 50% sobre aproximadamente US$ 20 bilhões em produtos canadenses, segundo a Euronews. O governo de Ottawa afirma que as tarifas retaliatórias correspondem às medidas americanas “dólar por dólar” e “taxa por taxa”.

Ao anunciar as tarifas, em 25 de agosto, o ministro de Inteligência Artificial e Inovação Digital, Evan Solomon, afirmou que o Canadá “não pediu por esse conflito comercial, mas está preparado para ele” e que “não vamos aceitar um acordo ruim”.

Trump ameaça restringir vendas da Bombardier nos EUA

Na véspera da entrada em vigor das tarifas canadenses, em 7 de setembro, Trump ameaçou restringir as vendas da fabricante canadense de aeronaves Bombardier nos Estados Unidos. “CHEGA DE VENDER BOMBARDIER NOS ESTADOS UNIDOS! Os produtos deles não são bons o suficiente!”, escreveu o presidente na Truth Social.

Trump vinculou a permanência da fabricante no mercado americano à transferência da produção para os Estados Unidos e acusou o Canadá de bloquear empresas do país, citando especificamente a Gulfstream Aerospace.

Ainda não está claro como Trump poderia impedir a Bombardier de fazer negócios nos Estados Unidos. A companhia opera uma fábrica no Kansas com 3.500 trabalhadores americanos e mantém atividades em outros dez estados. Também trabalha com mais de 2.800 fornecedores sediados nos Estados Unidos e distribuídos por 47 estados.

Além disso, mais de 50% da receita da Bombardier vem do mercado americano. Aproximadamente metade da frota de 5.100 aeronaves da companhia é operada por clientes baseados nos Estados Unidos.

Em comunicado, a empresa afirmou que suas operações “criam dezenas de milhares de empregos americanos” e disse valorizar sua “grande parceria com empresas americanas”. A premiê de Quebec, Christine Fréchette, classificou a Bombardier como “fonte de orgulho” para a província e afirmou: “Quebec não permitirá que ninguém dite onde nossas empresas devem produzir para acessar um mercado”.

Trump já havia ameaçado a fabricante em janeiro de 2026, quando declarou que poderia retirar a certificação de jatos da linha Global Express, da Bombardier, e impor tarifas de 50% sobre aeronaves produzidas no Canadá. As medidas foram condicionadas à certificação, pelas autoridades canadenses, de aeronaves da Gulfstream.

As ameaças não foram implementadas, e o Canadá certificou alguns modelos da fabricante americana nos meses seguintes, segundo.

Além das tarifas, oito das dez províncias canadenses mantêm restrições ou proibições à venda de bebidas alcoólicas dos Estados Unidos. Desde a adoção dessas medidas, as exportações de bebidas destiladas americanas para o Canadá caíram mais de 70% em relação ao ano anterior, segundo dados do Distilled Spirits Council of the United States.

Comércio bilateral movimentou cerca de US$ 900 bilhões

A relação comercial entre Canadá e Estados Unidos movimentou aproximadamente US$ 900 bilhões em 2025. O Canadá é o principal cliente de 26 estados americanos, entre eles Maine, Michigan e Wisconsin, e está entre os três maiores compradores de 45 dos 50 estados.

Os Estados Unidos, por sua vez, recebem cerca de 70% dos produtos exportados pelo Canadá.

O PIB canadense cresceu 3,3% no segundo trimestre, e o país criou 181 mil empregos entre abril e julho, segundo a BBC. Em agosto, porém, foram perdidos cerca de 41 mil postos de trabalho. No mesmo mês, os Estados Unidos adotaram novas tarifas, e as negociações comerciais entre os dois governos terminaram sem acordo.

Governo anuncia C$ 7,5 bilhões em medidas de apoio

O governo canadense anunciou um pacote de C$ 7,5 bilhões para apoiar trabalhadores e empresas afetados pela disputa comercial, segundo a BBC News Brasil. Carney também defendeu a diversificação dos destinos das exportações do país.

Dados de julho citados pela BBC mostram que a parcela das exportações canadenses destinada aos Estados Unidos caiu para 66%, ante uma média de 75% antes do início da disputa comercial.

A disputa também pode afetar o comércio transfronteiriço de suínos. A província canadense de Manitoba exporta mais de 3 milhões de leitões desmamados para os Estados Unidos por ano, dos quais cerca de 2 milhões seguem diretamente para Iowa, segundo a Agrimídia.

A cadeia produtiva dos dois países é complementar. As granjas canadenses se especializam na produção de matrizes e leitões, enquanto produtores de Iowa utilizam a disponibilidade de milho e soja para as etapas de engorda e abate.

Brian Clow, identificado pela Bloomberg Línea como assessor sênior para assuntos comerciais do governo canadense anterior, afirmou que as tarifas têm como objetivo pressionar os Estados Unidos a encerrar a disputa. “O Canadá não está impondo essas tarifas porque deseja uma guerra comercial. Está impondo as tarifas porque quer que a guerra comercial termine”, declarou.

FUP Explica

A entrada em vigor das tarifas canadenses marca uma virada importante numa disputa que já dura 18 meses: Ottawa saiu da posição defensiva e passou a impor custos concretos a exportadores americanos, numa tentativa de criar pressão política suficiente para forçar Washington de volta à mesa. A lógica, é a clássica da retaliação comercial: tornar o conflito suficientemente doloroso para empresas e consumidores americanos a ponto de o governo Trump calcular que um acordo vale mais do que a guerra.

O problema é que a assimetria da relação joga contra o Canadá. O país destina cerca de 70% de suas exportações aos EUA, enquanto o mercado canadense absorve uma fatia muito menor do total exportado pelos americanos. Isso significa que, mesmo que as tarifas canadenses causem dano real a setores específicos, como os exportadores de aço, alumínio e produtos agrícolas de Michigan e Ohio, o impacto agregado sobre a economia americana tende a ser limitado. Para o Canadá, o risco é mais concentrado: o setor industrial, especialmente o do Canadá Central, é o mais exposto, e os 41 mil empregos perdidos em agosto já sinalizam que o custo está chegando antes de qualquer acordo.

A ameaça à Bombardier adiciona uma camada de imprevisibilidade ao conflito. A empresa está profundamente integrada à economia americana, com fornecedores em 47 estados e operações em mais de dez deles, o que torna qualquer bloqueio juridicamente e operacionalmente complexo. Ainda assim, a ameaça em si já produz efeito: gera incerteza para clientes americanos que consideram pedidos futuros e pressiona o governo canadense politicamente. O histórico de janeiro de 2026, quando ameaças similares não foram concretizadas após o Canadá ceder na certificação da Gulfstream, sugere que Trump usa a Bombardier como moeda de pressão, mas não garante que o padrão se repetirá. A Câmara de Comércio Canadense resumiu bem o dilema: empresas entendem a retaliação, mas não querem ver uma escalada sem fim, e estão se preparando para uma disputa longa.

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