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Brasil recebe 344 mil veículos importados e indústria cobra isonomia
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Brasil recebe 344 mil veículos importados e indústria cobra isonomia

19/08/2026·651 palavras

O setor automotivo brasileiro colocou o avanço das importações no centro do debate durante o 34º Congresso & ExpoFenabrave, realizado nesta terça-feira (18). O evento reuniu representantes de concessionárias, montadoras, instituições financeiras e empresas da cadeia automotiva, com expectativa de mais de 9 mil participantes ao longo de três dias, segundo o Transportes Moderno.

Nos primeiros sete meses de 2026, 344 mil veículos importados entraram no Brasil, volume que, conforme declarou o presidente da Anfavea, Igor Calvet, supera a produção anual de mais de uma fábrica instalada no país. Calvet ressaltou que parte relevante desse crescimento não gera emprego nem lucro para fornecedores locais, diferentemente da produção doméstica, e que a entidade não se opõe à concorrência, mas defende condições equivalentes para quem atua no mercado.

O presidente da Fenabrave, Arcelio Jr., reforçou o argumento pelo lado da distribuição. Ele destacou que o setor reúne mais de 8,5 mil concessionárias presentes em quase mil municípios e gera mais de 380 mil empregos diretos. Arcelio Jr. defendeu que os concessionários são "o elo vital que conecta a indústria ao cidadão brasileiro" e que seus investimentos em instalações, equipamentos e mão de obra merecem isonomia competitiva.

A pressão das marcas chinesas é o pano de fundo desse debate. Segundo dados da Fenabrave compilados pela Octa, as montadoras chinesas respondem por 10% das vendas de carros de passeio no Brasil, com crescimento de sete vezes nos últimos três anos. A A Crítica registrou, em 18 de agosto de 2026, que o país opera com 16 marcas chinesas em atividade oficial, com portfólios que vão de elétricos e híbridos a SUVs, picapes e veículos comerciais.

Parte do crescimento das importações passa pelos regimes de kits desmontados. Em junho de 2026, a indústria recebeu um volume recorde de kits CKD (Completely Knocked Down) e SKD (Semi Knocked Down), com altas de 23% e 15% respectivamente nas importações desses regimes, de acordo com dados da Receita Federal. Esses kits chegam com alíquotas de Imposto de Importação entre 0% e 5% no caso de CKD e de 5% a 12% para SKD, bem abaixo das alíquotas aplicadas a veículos completos.

Em 23 de junho de 2026, o Gecex-Camex aprovou a renovação da cota de US$ 463 milhões para importação de kits de veículos elétricos com alíquota zero, válida a partir de 1º de julho, beneficiando principalmente a BYD, que produz em Camaçari, na Bahia. A Anfavea contestou a decisão e prometeu ação judicial, considerando a medida lesiva ao setor nacional.

A BYD lidera o movimento chinês no Brasil, com 4,3% de participação de mercado e 8º lugar entre as marcas mais vendidas de janeiro a setembro de 2025, segundo a Octa. Além do Dolphin Mini, King e Song Pro fabricados em Camaçari, a GWM produz em Iracemápolis, São Paulo, e a Geely confirmou produção do elétrico EX2 no Complexo Ayrton Senna, no Paraná, em parceria com a Renault.

Reforma Tributária e custo do crédito

Outra fonte de tensão no congresso foi a Reforma Tributária. Calvet apontou que, apesar da proximidade da entrada em vigor do novo modelo, a cadeia automotiva ainda não conhece com precisão a incidência tributária que recairá sobre cada veículo. A indefinição afeta planejamento de produção nas fábricas e decisões de estoque e contratações nas concessionárias. O vice-governador de São Paulo, Felício Ramuth, reconheceu também, que ainda existem dúvidas relevantes sobre os efeitos da reforma para empresas e consumidores.

O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços destacou que os juros seguem como um dos principais obstáculos ao investimento e ao consumo, defendendo a redução das taxas ou a criação de instrumentos de financiamento mais acessíveis para pessoas físicas. Dados da Agência Brasil de abril de 2026 mostram que as vendas financiadas de veículos cresceram 12,8% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao mesmo período de 2025, com 1,89 milhão de unidades financiadas, sendo 1,21 milhão de usados e 675 mil de novos.

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O número de 344 mil importados em sete meses é politicamente incômodo para o governo, que ao mesmo tempo renovou a cota de kits com alíquota zero para a BYD e antecipou a tarifa cheia de 35% para janeiro de 2027. A lógica é contraditória: protege quem fabrica localmente no papel, mas abre exceções que beneficiam justamente as marcas que mais crescem via importação. A Anfavea já sinalizou ação judicial contra a renovação da cota, o que abre espaço para um contencioso que pode travar decisões de investimento enquanto o caso tramita.

A incerteza sobre a Reforma Tributária agrava esse quadro. Montadoras que assumiram compromissos de longo prazo ao instalar fábricas no Brasil precisam de previsibilidade para planejar mix de produtos, preços e volume de produção. Sem saber exatamente como o novo sistema tributário vai incidir sobre cada categoria de veículo, o risco é de paralisia nas decisões de médio prazo, tanto nas fábricas quanto nas concessionárias.

Para o consumidor, a pressão competitiva das marcas chinesas tende a segurar preços, como já se viu na queda real registrada em 2026. Por outro lado, se a política tarifária endurecer de forma abrupta e as marcas chinesas reduzirem oferta, esse efeito pode se reverter. O mercado de usados também sente o movimento: a desvalorização de modelos europeus e de elétricos, documentada pela Bnews em julho de 2025, mostra que a competição chinesa redefine referências de preço em toda a cadeia, não apenas nos carros zero.

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