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Bloqueio nos Andes trava mais de 2 mil caminhões e segue sem previsão de reabertura
Logística

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Bloqueio nos Andes trava mais de 2 mil caminhões e segue sem previsão de reabertura

05/08/2026·564 palavras
Fechamento do Cristo Redentor por mais de 20 dias causa prejuízo estimado em US$ 10 milhões ao transporte internacional de cargas, impactando diretamente a logística de comércio exterior.

O bloqueio Cristo Redentor no principal corredor rodoviário entre Chile e Argentina completa mais de 20 dias sem previsão oficial de reabertura, segundo apuração da Transporte Moderno. Nevascas intensas, risco elevado de avalanches e condições climáticas extremas na Cordilheira dos Andes mantêm o Sistema Integrado Cristo Redentor interditado, com aproximadamente 6,6 metros de neve acumulados em trechos da cordilheira, conforme autoridades chilenas citadas pelo mesmo veículo.

Equipes de infraestrutura, Defesa Civil e do Exército do Chile trabalham na remoção da neve e no monitoramento das encostas. A reabertura, porém, depende da redução do risco de avalanches e da confirmação das condições de segurança da rodovia, sem data definida.

Mais de dois mil caminhões permanecem retidos na província argentina de Mendoza, entre eles centenas de veículos brasileiros. Os prejuízos acumulados pelas transportadoras chegam a aproximadamente US$ 10 milhões, considerando os mais de 20 dias de interrupção, segundo a entidade.

As cargas afetadas incluem veículos, autopeças, máquinas, equipamentos, produtos químicos, medicamentos, alimentos e outros produtos industrializados. Além dos atrasos nas entregas, as transportadoras acumulam custos com alimentação e hospedagem de motoristas, combustível, permanência dos veículos parados e reprogramação de viagens.

Danilo Guedes, vice-presidente extraordinário de Relações Internacionais da NTC&Logística, afirmou à Transporte Moderno que "as transportadoras enfrentam aumento significativo dos custos operacionais, dificuldades relacionadas aos regimes aduaneiros e incertezas que afetam toda a cadeia de abastecimento". O executivo defendeu a adoção de medidas excepcionais de coordenação entre órgãos de fronteira e autoridades aduaneiras para restabelecer o fluxo de cargas com maior agilidade.

O peso do corredor nos Andes

A dimensão dos prejuízos se explica pelo volume que a rota movimenta. Em 2025, o Paso Cristo Redentor registrou aproximadamente 427 mil caminhões e mais de 6,5 milhões de toneladas de cargas, tornando-se a principal ligação terrestre entre Chile e Argentina. O corredor integra também o eixo bioceânico utilizado por empresas brasileiras para acessar os portos chilenos no Oceano Pacífico, rota utilizada em operações com mercados asiáticos.

Brasil e Chile mantêm uma corrente de comércio superior a US$ 11 bilhões por ano, e o Chile figura entre os dez principais parceiros comerciais brasileiros, conforme dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

Regimes aduaneiros e normalização gradual

A Transporte Moderno aponta que o bloqueio aumenta a preocupação com o vencimento dos prazos dos regimes de trânsito aduaneiro, situação que pode gerar consequências administrativas e financeiras para empresas que atuam no comércio exterior.

Mesmo após a reabertura, a normalização das operações deve ser gradual. O volume de caminhões represados exigirá uma operação coordenada entre Chile e Argentina para liberar o fluxo de forma escalonada, processo que poderá levar vários dias, dependendo das condições meteorológicas.

Um estudo do BNDES sobre o Corredor Bioceânico, de data não informada, identificou que as dificuldades na travessia dos Andes elevam os fretes rodoviários internacionais em razão dos acréscimos nos custos operacionais associados ao relevo e às condições climáticas extremas. O mesmo documento apontou que o elevado tempo perdido nas fronteiras, incluindo o trecho entre Mendoza e Los Andes, é o principal fator de impacto nos fretes rodoviários internacionais.

O período entre junho e setembro é reconhecidamente crítico para a logística nos Andes, com fechamentos frequentes do Paso Los Libertadores por neve, gelo e risco de avalanches. A interdição atual, no entanto, supera em duração os episódios habituais, que costumam durar horas ou poucos dias.

FUP Explica

A duração incomum desse bloqueio, que já ultrapassa 20 dias, coloca em xeque a confiabilidade de uma rota que não tem substituto terrestre equivalente para o comércio entre Brasil, Argentina e Chile. O impacto imediato é financeiro: US$ 10 milhões em perdas estimadas para as transportadoras, com custos que continuam crescendo a cada dia de espera em Mendoza. Mas o problema vai além do caixa das empresas de transporte.

O vencimento dos prazos de trânsito aduaneiro é um risco real para importadores e exportadores que têm cargas retidas. Quando esses prazos expiram sem que a mercadoria chegue ao destino, as empresas podem enfrentar multas, necessidade de regularização junto às autoridades aduaneiras dos dois países e, em casos mais graves, perda do regime especial que amparava a operação. Isso exige atenção imediata das equipes de comex para acionar os mecanismos de prorrogação disponíveis antes que o prazo vença.

No médio prazo, episódios como esse tendem a reforçar o debate sobre a vulnerabilidade física do eixo bioceânico e a necessidade de alternativas logísticas mais resilientes. Os governos brasileiro e chileno adotaram nos últimos anos medidas de facilitação do comércio bilateral, como modernização das regras de origem e uso de certificados eletrônicos, mas nenhuma dessas iniciativas resolve o gargalo físico da cordilheira. A questão que fica é se bloqueios cada vez mais longos vão pressionar por investimentos em infraestrutura alternativa ou em sistemas de gestão de crise mais coordenados entre os países.

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