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Bets podem gerar R$ 30,6 bilhões por ano em custos relacionados à saúde no Brasil, aponta IEPS
Dos transtornos relacionados ao jogo ao agravamento da depressão, passando pelo endividamento das famílias e pela procura por atendimento na rede pública, o avanço das apostas online deixa marcas que ultrapassam as telas e chegam à saúde dos brasileiros. Um dossiê divulgado em dezembro de 2025 pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), estima que os danos associados às apostas e aos jogos de azar possam gerar R$ 38,8 bilhões em custos sociais por ano no Brasil, dos quais R$ 30,6 bilhões estão relacionados à saúde.
Dentro dessa estimativa, o maior impacto está relacionado aos custos associados a mortes adicionais por suicídio, estimados em R$ 17 bilhões anuais. Outros R$ 10,4 bilhões correspondem à perda de qualidade de vida decorrente da depressão, enquanto aproximadamente R$ 3 bilhões estão associados ao tratamento médico da doença.
O IEPS ressalta que o crescimento das apostas também está relacionado ao aumento do endividamento, à ocorrência de transtorno do jogo e ao agravamento de quadros de sofrimento mental, estendendo os efeitos sociais e econômicos para além do apostador.
Os efeitos desse crescimento aparecem nos serviços públicos de saúde. Dados apresentados pelo Ministério da Saúde, citados no documento, indicam aumento nos atendimentos de pessoas diagnosticadas com Transtorno do Jogo e Mania de Jogos de Aposta na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). As projeções apontam que o número pode subir 104% até 2028, passando de 10.553 para 21.949 atendimentos.
Ao mesmo tempo, o estudo afirma que a RAPS, especialmente os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e a Atenção Primária, ainda enfrenta limitações estruturais para absorver o aumento dessa demanda.
Os dados sobre o comportamento dos apostadores reforçam o alerta. De acordo com o III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, da Unifesp cerca de 17,6% da população brasileira com 14 anos ou mais havia apostado nos 12 meses anteriores à pesquisa, o equivalente a aproximadamente 28 milhões de pessoas. Entre os usuários de sites de apostas esportivas, 66,8% apresentavam comportamento classificado como de risco ou problemático, percentual superior ao registrado entre usuários de outras modalidades de jogo.
E a exposição à publicidade de apostas começa antes da maioridade. Pesquisa TIC Kids Online, dmostrou que 53% das pessoas entre 9 e 17 anos relataram ter visto publicidade de apostas na internet. Entre adolescentes de 15 a 17 anos, a proporção chegava a 63%.
Embora menores de idade sejam proibidos de acessar legalmente essas plataformas, o levantamento citado pelo dossiê aponta que 55,2% dos adolescentes que haviam apostado apresentavam indicativos de comportamento de risco ou problemático relacionado ao jogo.
Além dos efeitos sobre a saúde, as apostas afetam despesas essenciais das famílias. Um levantamento publicado pelo O Globo e incorporado ao estudo mostrou que 13% dos inquilinos entrevistados haviam deixado de pagar ou atrasado o aluguel devido às apostas online. Ao mesmo tempo, 74% dos participantes associavam as bets ao endividamento familiar.
O documento destaca que as perdas financeiras podem reduzir os recursos destinados à alimentação e a outras necessidades básicas, fazendo com que os impactos atinjam também familiares e pessoas próximas ao apostador.
Apesar do crescimento da arrecadação do setor, os recursos destinados à saúde não necessariamente acompanham os possíveis custos gerados pelas apostas. Segundo dados da Receita Federal reunidos pelo dossiê, a arrecadação das atividades de jogos de azar e apostas saltou de R$ 38 milhões entre janeiro e setembro de 2024 para R$ 6,8 bilhões no mesmo período de 2025. A legislação analisada pelo estudo prevê que apenas 1% da parcela destinada às áreas sociais seja direcionada ao Ministério da Saúde, enquanto não havia vinculação orçamentária específica para ações de cuidado na RAPS.
Nesse cenário, o dossiê defende que a discussão sobre as bets deixe de considerar apenas a arrecadação e a regulamentação econômica e incorpore também prevenção, assistência em saúde mental, controle da publicidade e proteção de públicos vulneráveis. Para os autores, a expansão das apostas online coloca o país diante de um problema que envolve saúde, renda e bem-estar e exige respostas proporcionais ao crescimento do setor.
FUP Explica
O dossiê do IEPS coloca em números um problema que o debate público sobre bets costuma ignorar: o custo fiscal e social do setor não se resume à arrecadação, e a conta da saúde pode ser muito maior do que o que entra nos cofres públicos. Com R$ 6,8 bilhões arrecadados entre janeiro e setembro de 2025 e apenas 1% da parcela social destinada ao Ministério da Saúde, a desproporção em relação aos R$ 30,6 bilhões estimados em custos sanitários anuais é enorme, o que tende a pressionar o orçamento da saúde pública sem contrapartida equivalente.
Do ponto de vista social, o impacto vai além do apostador individual. Quando 74% dos entrevistados associam as bets ao endividamento familiar e 13% dos inquilinos relatam atraso no aluguel por causa das apostas, fica claro que o problema chega ao orçamento doméstico e pode agravar vulnerabilidades preexistentes, especialmente em famílias de baixa renda. A exposição precoce de adolescentes à publicidade, com mais da metade dos jovens entre 9 e 17 anos relatando contato com anúncios de apostas, abre uma questão regulatória séria sobre os limites do marketing do setor.
No plano institucional, a RAPS já opera com limitações estruturais e pode enfrentar uma demanda 104% maior até 2028 sem que haja vinculação orçamentária específica para isso. Esse cenário abre espaço para judicialização e pressão sobre o Congresso por mudanças na destinação dos recursos arrecadados com as bets, além de acirrar o debate sobre o modelo de regulação adotado, que até agora priorizou a formalização do mercado sem mecanismos robustos de proteção à saúde pública.




